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Super-heróis, super humanos

Texto: ANA CABRAL MARTINS

“Os Vingadores: A Era de Ultron” é um filme interessado nas suas personagens. Os seus momentos mais memoráveis nascem das interações e dinâmicas criadas entre os vários intervenientes.

A Marvel Studios, divisão da Marvel Entertainment — que por sua vez pertence à Disney desde 2009 — que se encarrega da produção de filmes, domina a indústria cinematográfica de Hollywood com o franchise mais lucrativo de sempre, o Universo Cinemático da Marvel (Marvel Cinematic Universe ou MCU). Este é composto por franchises independentes que culminam, no final de cada fase deste universo em mosaico, num cruzamento dos vários personagens num único filme que pretende ser maior do que a soma das suas partes. A primeira vez que este cruzamento foi experimentado foi no filme Vingadores (Joss Whedon, 2012), uma jogada arriscada que não só se tornou um sucesso absoluto no mundo inteiro, como se tornou também o terceiro filme mais rentável da história do cinema. Isto foi possível porque Joss Whedon (criador das séries de televisão Buffy, Firefly e Dollhouse), conseguiu a proeza de pegar no que era essencialmente um projeto experimental (fora da banda desenhada) e pôr a funcionar um grupo considerável de personagens, polvilhado com cenas de ação, de maneira a criar uma experiência excitante.

Pela maneira como os vários franchises estão ligados (a ideia é contar uma história serializada como na banda-desenhada de onde estas personagens foram retiradas), a Marvel Studios funciona como uma fábrica de mitologia. É, aliás, um estúdio cuja marca autoral pertence muito mais ao produtor e no qual o realizador segue uma linha entre o que o estúdio quer e a singularidade que o realizador quer incutir ao filme. Ainda assim, Vingadores: A Era de Ultron é claramente um filme de Joss Whedon e a personalidade do realizador sente-se ainda mais do que no primeiro, não só pela maneira como se foca nas personagens, dando momentos a cada uma para brilhar e emparelhando-as de maneiras diferentes; ou pelo diálogo rápido, cheio de referências e sarcasmo que é habitual em Whedon; contudo, o seu toque sente-se sobretudo nos temas que o filme aborda, como a imperfeição dos heróis, o preço do heroísmo e a dificuldade em fazer a coisa certa.

O filme abre com os Vingadores a atar pontas soltas, tanto do primeiro Vingadores (2012) como do mais recente Capitão América: O Soldado do Inverno (2014), no país fictício de Sokovia. É uma introdução cheia de energia que mostra todos os membros da equipa a contribuir para a missão e a interagir como uma máquina bem oleada — com diálogos vivos whedonescos (digna de comédia screwball) à mistura. A intervenção de duas personagens novas, os gémeos Pietro e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen e Aaron Taylor-Johnson), cujos poderes desencadeiam os acontecimentos do resto do filme. Wanda consegue destabilizar Tony Stark (Robert Downey, Jr.) o suficiente para que este redobre os seus esforços de forma a criar uma Inteligência Artificial que policie ameaças, o projeto Ultron. Contudo, e seguindo uma tradição de I.A. que consideram que os seus criadores, e a humanidade em geral, contribuem para o mal do mundo, Ultron decide que salvar a humanidade implica destruí-la (ou pelo menos recomeçá-la) e que o Vingadores são um impedimento à evolução humana.

O trabalho de James Spader na sua representação de Ultron transforma o que poderia ser um vilão banal numa presença excecional. Há uma expressividade incrível tanto nos seus movimentos como na sua personalidade surpreendentemente sarcástica, o que torna Ultron ao mesmo tempo cativante e ameaçador. Ultron representa a criação fora de controlo, que não se porta como seria suposto e o filme explora essas inquietações tecnofóbicas frequentemente representadas no cinema (2001: Odisseia no Espaço, Matrix, Extreminador). O facto do poder de Wanda incluir a capacidade de conseguir entrar dentro da cabeça dos personagens e mostrar-lhes os seus maiores medos é uma das maneiras como Joss Whedon, mantendo o filme tematicamente coerente, explora as deficiências dos heróis.

A noção de heroísmo no universo da Marvel tem sido, continuamente, encarada enquanto abnegação, em estar disposto a dar a vida para salvar os outros. Steve Rogers (Chris Evans), depois de Ultron pôr em causa o trabalho dos Vingadores, torna explícito o conflito que existe entre o que separa um herói de um monstro. Se todos os Vingadores são inerentemente capazes de monstruosidade, como no caso de Bruce Banner/Hulk, o seu heroísmo resulta das escolhas que fazem.

Os Vingadores: A Era de Ultron é um filme interessado nas suas personagens, cujos momentos mais memoráveis resultam das interações e dinâmicas criadas entre os vários intervenientes. Ao contrário das críticas frequentemente lançadas aos blockbusters, os filmes da Marvel, e este em particular, não são movidos pelas explosões ou pelas reviravoltas do enredo; o que interessa é menos o que vai acontecer e mais o quanto as plateias simpatizam com as personagens, torcem por elas e o modo como se desenvencilham, emocional e moralmente, dos desafios lançados. Se em Homem de Aço (2013) o Super-Homem destrói uma cidade inteira sem se preocupar com as vítimas da sua destruição, o terceiro ato de Vingadores: A Era de Ultron lida com o trabalho real dos heróis: proteger as pessoas.

O problema de A Era de Ultron acaba por ser ter demasiadas coisas a acontecer ao longo do filme o que, num filme que chega às 2h22m, torna algumas partes da história subdesenvolvidas, ou impõe a necessidade de passar rapidamente à frente de coisas que ganhariam em ser mais elaboradas — uma sequência dedicada a Thor está claramente desfalcada. Aqui entra em ação a “comic logic” (o que, dado que é um filme de super-heróis, perdoa-se), em que é necessário suspender a descrença em relação a coisas que dariam para muito mais discussão. A sensação é de um filme a transbordar de momentos e personagens (há nove! personagens principais, isto sem falar das periféricas) e que talvez tivesse beneficiado de uma maior duração. Contudo, o filme não se torna incompreensível, nem é só uma sequência de eventos sem ligação. Algumas cenas de ação, nomeadamente uma publicitada luta entre Iron Man e Hulk, também teriam sido favorecidas por uma montagem menos frenética e uma realização mais clara.

Finalmente, este talvez seja o filme que mais claramente adapta a estética da banda desenhada de super-heróis ao grande ecrã. Há um momento deslumbrante no terceiro ato, em que todos os Vingadores estão unidos em batalha, que consegue aproximar-se o mais possível de uma página de banda desenhada, tanto em termos de cores, combinação de texturas e posicionamento dos heróis, como de enquadramento dos elementos.

Se, por um lado, alguns espectadores podem ficar desapontados pelo fato de não ser uma experiência tão galvanizante como em Os Vingadores, por outro lado, Vingadores: A Era de Ultron oferece uma narrativa mais complexa e portanto mais interessante, acabando por ser um filme mais bem conseguido do que o primeiro.

“Os Vingadores: A Era de Ultron”
Realização: Joss Whedon
Com: Robert Downey Jr, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Mark Ruffalo, James Spader

1 Comment on Super-heróis, super humanos

  1. Este é um dos melhores blockbusters do ano e recomendo vivamente este filme, oferece excelentes efeitos e um dos melhores vilões do cinema dos últimos tempos.
    5*
    Lê a análise completa a “Vingadores: A Era de Ultron” em http://osfilmesdefredericodaniel.blogspot.pt/2015/06/vingadores-era-de-ultron.html

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