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Colleen: sedutora singular

Texto: RICARDO MARIANO

A partir de hoje este espaço receberá uma série de textos que juntarão uma extensão áudio, em formato crónica, acomodando impressões que certos discos trazem. Opinativo, naturalmente contestável, o arranque faz-se com um manifesto: a classificação e catalogação musicais não são exercícios que julgo essenciais.

É-me dispensável abreviar tempo com uma qualquer forma conceptualizada para as coisas das prateleiras ou gavetas estilísticas. Porque moramos neste planeta, não nego a existência designadora na arte do som: embora falível, redutora e ligeira, está aí para facilitar a orientação do ouvinte ou do leitor. Mas, sublinho, importa-me um cabelo.

A francesa Cécile Schott é contribuinte inerrante para o tu cá, tu lá que mantenho com as melodias porque, desde o primeiro disco como Colleen, a entendo sem saber a que lugar pertence. O “é isto!” não cabe no sol-e-dó da compositora e intérprete e por isso segue exímia habitando um reino encantatório que prende e emociona.

Quando em 2003 debutou com Everyone Alive Wants Answers, a utilização de samples assumia-se protagonista e os bocados escolhidos com subtileza de originais de outros eram orientados e revirados em loops hipnóticos a ressoar sem palavras entoadas. Foi assim durante uma década de reportório embora, ainda que mestre na técnica da samplagem, ao vivo e nos discos que vieram depois da estreia, a componente orgânica e a execução física de instrumentos acústicos venceu vivamente sobre a tecnologia, substituindo-a sobremaneira. Os pedais e os truques que modelam circularmente o caminho das composições de Colleen são constante no seu trabalho. Por ela, o movimento narcótico das harmonias parece nortear-nos para uma espécie de inquietação afectuosa.The Golden Morning Breaks (2005) é a marca forte deste caminho que traça um cunho autoral incomparável.

Depois de um disco ao vivo, Mort Aux Vaches, e de um EP constituído por 14 temas a repercutirem de caixas de música, Colleen et les Boîtes à Musique, ambos de 2006, a engenhosa-sensível Colleen surpreende em Les Ondes Silencieuses, registo de 2007, com a viola da gamba, instrumento renascentista que, nas mãos da música – e delas não mais saiu -, assume vidas, muitas, porque manipulado longe de convenções académicas e ressuscita por um respirar contemporâneo.

Durante os seis anos seguintes, Colleen deixa de apresentar-se em concertos e de editar. Reoxigena-se, muda de geografia e os arraiais – e o amor! -, agora bem aqui ao nosso lado, são-lhe elementos bastantes. Em 2013 volta armada benignamente com o incrível The Weighing Of The Heart, montando nele e nos acordes, pela primeira vez, voz e versos que, embora esparsos e simples, pareceram nada forasteiros numa obra que fora sempre instrumental. Nós e o pouco e tudo de nós voam nas sílabas de Colleen.

Foi assim há dois anos, é ainda mais e melhor no novo Captain of None, disco editado pela Thril Jockey. Colleen afirma-se uma música total. O seu tamanho artístico é arquitectura composicional e projecção que chega cantada a clamar e explicar o coração de uma forma inebriante, líquida: viciante! O mais recente registo condensa imaculadamente a estética experimental e etérea do passado, reflectindo igualmente ambiências caribenhas, tão do gosto da francesa. Picando o início do texto, “toponimizar” a mais recente obra prima de Colleen é dispêndio inglório e supérfluo. Captain of None revela-se fino de movimento e eco, serpenteando por entre rótulos e acomodando-se, bem à vista, numa inigualável dimensão onírica.

 

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