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Os filmes do IndieLisboa 2015

Textos: DIOGO SENO, LOURENÇO ROCHA, NUNO CARVALHO e NUNO GALOPIM

“Aferim”, de Radu Jude, foi o vencedor do Grande Prémio Cidade de Lisboa desta edição do festival. Leia aqui sobre este e outros dos filmes que ali vimos por estes dias.

"Aferim"

“Aferim!”, de Radu Jude

Começa Aferim! e abre-se uma janela no tempo. A viagem leva-nos a um terreno e a uma época em tudo distantes: Roménia no século XIX. É um mundo cão, de regras selvagens e de selvagens sem regra. Em vez de reconstruir academicamente uma época histórica, o realizador lança os actores à estrada, num filme que tem muito de western e de comédia picaresca. Os dados históricos e as marcas de um tempo estão lá, para quem os conseguir interpretar. E a reconstrução, sobretudo no que diz respeito à psicologia das personagens, aos diálogos e à realidade da escravatura, adivinha-se rica e pesquisada (nos créditos finais, o realizador lista as fontes). O agente da lei e o seu filho perseguem um escravo fugido após ter seduzido a mulher do seu dono (ou será que foi ela que o seduziu?) e encontram, uma e outra vez na sua viagem, diversas personagens e situações que são a ilustração escatológica da estupidez, da corrupção e da monstruosidade de que os homens são capazes. O charme do filme advém do preto-e-branco, da sátira corrosiva, das personagens barulhentas que povoam esta terra. O tom é distante, um humor negro que não dá tréguas e que olha de frente o absurdo, pena faltar, em grande parte do filme, algum rumo à narrativa. – D.S.

“Sivas”, de Kaan Mujdeci

Em Sivas, o pequeno Aslan (turco para “leão”) revolta-se quando o papel de príncipe na encenação que a sua turma prepara de “Branca de Neve e os Sete Anões” é atribuído a um colega seu, roubando-lhe a oportunidade de contracenar com Aise, a menina que ama. Revoltado, começa a faltar às aulas e encontra o seu lugar no mundo após o seu caminho se cruzar com um cão de luta, Sivas, abandonado à sorte após um confronto violento. É na relação com este cão que Aslan vai encontrar um abrigo da ausência dos pais, da pobreza circundante e do desgosto com Aise, e é nele que encontra também um símbolo de estatuto, mas acima de tudo um desafio ao seu crescimento e à sua vaidade. O que podia ser uma obra sentimental dada a qualidade da premissa, é despida das roupagens melodramáticas pela realização ponderada, segura e atenta de Mujdeci. Num filme todo ele entregue aos ritmos da aldeia de Aslan, às minúcias do quotidiano, aos desequilíbrios testemunhados mas não enfatizados, só por vezes o registo cai na metaforização e na “leitura”, havendo quase sempre uma tentativa de fuga da psicologia, num registo próximo do documental. O filme, primeiro do realizador, mostra já um olhar maduro e hábil: na alternância das escalas, dos pormenores quase tácteis (do pêlo dos animais, da lama que as personagens pisam constantemente) com a imensidão das estepes turcas, a perder de vista, onde o vento zune inclemente; a criação deste mundo vale-se de uma utilização inteligente do som e da fotografia, numa obra que, só por falta de foco e de força, não se junta a outros grandes filmes da infância, como o Espírito da Colmeia (com o qual tem em comum a imensidão da paisagem, e o medo enquanto fascínio e motor do crescimento) ou L’Enfance Nue (com o qual partilha um protagonista indecifrável e vivo, para lá dos estereótipos associados à infância). – D.S.

“Christmas, Again”, de Charles Poekel

Inspirado nas próprias vivências do argumentista e realizador Charles Poekel, quando juntava dinheiro para fazer este seu primeiro filme, Christmas, Again é um drama ultrarrealista centrado na personagem de Noel (Kentucker Audley), um homem trintão que, pelo quinto ano consecutivo, se dedica, na época natalícia, a vender pinheiros de Natal numa rua de Greenpoint, em Brooklyn. Abandonado pela namorada, a vida de Noel limita-se a uma rulote (escritório e casa ao mesmo tempo), de onde sai para atender os clientes que lhe compram árvores e enfeites natalícios sob luzes coloridas (ele faz o turno da noite, tendo dois empregados que lhe asseguram o período diurno). O estado de espírito de Noel contrasta com o tom dominante da quadra festiva. Ele tornou-se um homem animicamente adormecido, remetido para uma existência fria, noturna e solitária. De resto, numa das entregas que faz, depara com um casal feliz que espera um bebé, o que o faz sentir-se humilhado, abatido e desolado (em comparação com aquela imagem de felicidade, a sua vida é um vazio deprimente). Mas quando um dia Noel encontra uma jovem mulher bêbeda caída num banco de jardim e lhe dá abrigo na sua rulote, ela regressa para lhe trazer uma tarte em jeito de agradecimento. Porém, a possibilidade relacional que se abre parece estar condenada à efemeridade à medida que se aproxima o fim da época festiva. Rodado em 16 mm com direção de fotografia do veterano Sean Price Williams (um dos profissionais mais requisitados atualmente no circuito do cinema indie americano), Christmas, Again é um retrato estimulantemente naturalista de um homem cuja existência se encontra em “estado estacionário” e em fase de transição para uma etapa que se deseja melhor mas que tarda em florescer. No fundo, trata-se da história de um late bloomer captada num estádio evolutivo perfectível e inacabado. – Nuno Carvalho

“Uma rapariga da sua idade”, de Márcio Laranjeira

Novela documental, colaboração de Tiago Rochinha, Joana Carneiro, Madalena Vieira da Silva, Sérgio Brás d’Almeida e da Fundação Gulbenkian, realizada, montada e escrita por Márcio Laranjeira, sonda, na protagonista Mariana, a errância de um certo Portugal contemporâneo, nas palavras da protagonista Mariana (Mariana Sampaio, co-argumentista), de “pessoas desmotivadas”, “à procura”. Desempregada, de projeto e carreira, defraudada, Mariana não é um aquém-arquétipo da sua idade; é uma rapariga da sua idade, “não temos idade para sermos outra coisa senão aquilo que somos.” Em Lisboa, a impossibilidade do seu desejo e o decadentismo dos seus círculos consome-a. Voltar para Viana-do-Castelo, sua terra, implica atravessar o Lima, confundido por engano como sendo o rio Letes por um regimento romano do século II.Atravessá-lo significaria então esquecer o que se foi, e se quis ser. A narrativa farda-a de luto, e a Alex (Alexander David), emigrado em Nova Iorque, ela vai parecer carpideira performática. Ele denuncia uma atitude fatal, um fado português.
A primeira longa-metragem de Márcio Laranjeira (tendo apresentado aqui, em 2008 e 2010, O Rapaz e o carro e Fuera de cuadro) segue o seu trabalho anterior explorando o género da novela documental, bom préstimo para testemunho coevo dos obstáculos de uma geração que alguns apelidam “perdida”. As entradas diaristas de Mariana compassam o filme, abrindo-nos suas dificuldades e atitudes, prioridades, discursos e estética a um ritmo lacónico que montagem e fotografia (Sérgio Brás d’Almeida) propiciam. Merece realce a banda-sonora (Marta Carvalho) que discretamente insufla os tons de Mariana e a tonalidade das cenas. – L.R.

 

“B-Movie: Lust & Sound in West Berlim”, de Jörg A. Hoppe, Heiko Lange e Klaus Maeck
(o filme passa hoje às 14.30 na Sala 3 do Cinema São Jorge)

Uma ilha no meio da Europa. Podia descrever-se assim a cidade de Berlim nos tempos em que, depois da emergência de uma cultura jovem local e antes da queda do muro que esbateria necessariamente o que de único e diferente poderia haver num espaço urbano de certa forma sitiado. É destes dias que trata B Movie: Lust & Sound in West Berlin, um filme que não parece muito preocupado na definição das linhas de fronteira entre o que é imagem real (de arquivo) e o que de novo se possa juntar para, em jeito de história contada num registo autobiográfico, nos fazer um percurso precisamente por esses dias (terminando ao som do techno e trance em tempos do nascimento da Love Parade).

A “voz” que observa, relata e acaba por protagonizar o fluxo de acontecimentos – porque neles participa – é o inglês Mark Reeder, nascido em Manchester e com memórias vivas do momento em que uma cena musical ali eclodiu em finais dos anos 70, envolvendo nomes como os Joy Division ou Buzzcocks. Ao trabalhar na loja de discos da rede Virgin no coração de Manchester por esses dias, descobre uma paixão pela música electrónica que então chegava da Alemanha. E decide rumar a Berlim para a viver em pleno.

O filme usa então imagens de arquivo e uma multidão de figuras e factos reais pata, através da narrativa de Mark Reed, descobrir a cidade e a sua cultura jovem pelo prisma de quem vem de fora mas em pouco tempo se integra. A cultura dos squats, os motins contra as autoridades e a omnipresença de um muro que tudo envolve definem o espaço onde há ruas, bares e clubes que a curiosidade visita. Ali vemos (de facto) Keith Haring a pintar o muro e Tilda Swinton a vê-lo de perto. Descobrimos bandas como os Die Toten Hosen ou Die Artze, mais tarde Nena (cuja discografia teria em meados dos oitentas um pontual impacte que transcendeu o muro em volta da cidade). E vemos e escutamos figuras como Blixa Bargeld ou Nick Cave (numa época em que reside na cidade), entre eles Mark Reed dando-nos a (re)descobrir histórias de liberdade, criatividade e transgressão. A multiculturalidade e carácter invulgarmente livre que caracterizava a cidade de então acabaria por moldar a urbe que Berlim ainda hoje é. E através das memórias de um inglês que se fez berlinense redescobrimos – com alguns momentos de loucura e humor – o pulsar de uma cidade que mostrava que, mesmo cercada, respirava uma liberdade como em poucos outros lugares era então possível. – N.G.
“Quand Je ne Dors Pas”, de Tommy Webber

Tommy Weber relia o afamado The Catcher in the Rye de J. D. Salinger quando se decidiu a rodar o seu primeiro filme, Quand je ne dors pas, tomando o peripatético Holden como inspiração. Em quatro meses filmou, ao mesmo tempo que a escrevia com o co-argumentista Mohamed Kerriche (que também interpreta aqui um dealer de erva), uma noite de Antoine (Aurélien Gabrielli), um parisiense de 22 anos que, com o objectivo de arranjar dinheiro para ir ver o mar, vai passar a noite a tentar vender a marijuana. O papel de Antoine seria assaz incongruente, revelando na alienação o volátil éter de agonia e folia, “juste un sourire pour ne pas trahir les larmes qui se cachent derrière la peu”, “juste quelques larmes pour ne pas trahir le sourire qui se cache derrière la peu”, mas Gabrielli, naquela que é também para si a estreia no grande ecrã, logra. A citação é da canção final – para expor o seu monólogo interior o protagonista trauteia-lo ao longo do filme; mecanismo que infelizmente só é bem sucedido neste último momento. Alhures, é perceptível Antoine à deriva, mas, por detrás do sentimento, não conseguimos adivinhar polos tão nobres como os de Holden.- L.R.

“The Possibilities Are Endless”, de Edward Lovelace e James Hall
(IndieMusic)

Foi há já dez anos. Poucos dias depois de se ter queixado de náuseas durante uma entrevista, Edwyn Collins era levado de urgência a um hospital, sob evidentes sinais de uma hemorragia cerebral. Tinha acabado de gravar canções para um novo disco, que deixara contudo por terminar. De regresso a casa, as sequelas físicas eram evidentes e, durante alguns tempos, quase lhe era impossível articular palavras, mostrando-se o vocabulário reduzido a poucos sons, ocasionalmente ganhando forma. As ideias não o deixaram nunca… E quando “possibilities are endless” [as possibilidades são infinitas] se revelava uma das raras expressões que falava, algo mais do que escutávamos esperava melhores dias para de manifestar. Assim foi. O processo de recuperação foi lento e rapidamente se compreendeu como a música teria ali um papel central. Não só lhe era mais fácil cantar que falar (mal a voz passa da fala ao canto reconhecemos imediatamente aquele barítono maravilhoso dos tempos dos Orange Juice ou dos seus discos a solo) como toda a vivência em estúdio teve não só um papel terapêutico como deu ânimo para retomar o que ficara inacabado. O disco antes gravado foi misturado e editado. E outras canções criadas já depois do acidente cerebral chegaram entretanto a disco. Esta não é por isso uma história nova. Nem é a primeira vez que chega ao cinema (houve um documentário, há alguns anos, contando com a participação de Alex Kapranos, dos Franz Ferdinand). Mas é com The Possibilities are Endless que Edwyn Collins conhece o seu “momento” na história do cinema.

Assinado por Edward Lovelace e James Hall o filme escapa às linhas e narrativas habituais em tantos documentários como música (que raramente escapam àquela sensação de estarmos a ver conteúdos extra para servir em DVDs, depois do menu principal nos ter dado a ver um concerto ou uma antologia de telediscos). De resto The Possibilities Are Endless é até um bom exemplo de como secções temáticas em festivais de cinema – como o IndieMusic – acabam involuntariamente por fechar fora de possibilidades competitivas filmes que mereciam estar ao lado dos demais das secções principais, sem a necessidade do foco temático servir a sua arrumação na programação.

Este é um magnífico exercício de cinema que, usando uma linguagem poética que recorre a imagens (da região onde Edwyn Collins habita), coloca em cena vozes off e revela uma música planante (que felizmente está já em disco), nos coloca no contexto sem a necessidade de contar o era uma vez canónico. Aos poucos as peças ganham forma – como o faz um bom filme de ficção. A voz de Collins é a inicio tão turva e inexplicável como o aparentam ser as imagens. Mas tal como a sua fala (e canto) ganham renovadas qualidades, também as imagens e palavras acabam por nos conduzir progressivamente do patamar mais onírico em que avançam os primeiros minutos do filme e um retrato mais realista (mas nunca televisivo) do mundo de Edwyn Collins durante o processo de recuperação. De resto, apesar de cedo o escutarmos – num registo quase difícil de compreender – só passados mais de 20 minutos o vemos materializado no ecrã. Em casa. Olhando. Com uma guitarra encostada numa parede não muito longe do sofá onde o encontramos.
O filme mostra quão determinante para o seu processo de recuperação foram a dedicação inesgotável da mulher, a presença de amigos e colaboradores e da música como meta a atingir. O sorriso de satisfação com que encara reencontros com plateias e entrevistadores de rádio não dá margem para enganos. As possibilidades eram de facto infinitas. E o filme soube como o dar a entender. – N.G.

 

“Ming of Harlem”, Phillip Warnel

Em 2003 Antoine Yates foi hospitalizado por ferimentos infligidos pela dentadura de um tigre com quem partilhava o apartamento, num bloco de 21 andares de habitação social no bairro de Harlem em Nova Iorque. Na sequência desta visita, a polícia encontrou no seu apartamento o tigre Ming de 3 anos e um aligátor. Os animais foram resgatados e Yates passou 3 meses na prisão por ameaça à segurança pública e posse de animal selvagem. Foi a primeira vez atrás das grades para ambos, conta Yates. O caso suscitou repercussão (e condenação) mediática nacional, entrando na galeria memorial de insólitos nova iorquinos.

A primeira longa-metragem de Phillip Warnell, não almejando o contorno e pormenor da facticidade do caso penetra para além da membrana da curiosidade e – do lado de lá – intui ao espectador uma compreensão mais autêntica deste impulso. Através da membrana irradiará a poesia, Jacques Derrida em epígrafe ao filme “La pensée de l’animal, s’il y en a, revient à la poésie.”

Se à primeira vista concernem ao filme um testemunho de Yates, um seu retrato, imagens de arquivo, registos sónicos, em opaco jargão, da operadora da central de emergências que coordenou o desfecho da bizarria; o filme ocupa-se mais detendo-se nos duplos, tigre e aligátor, ocupando uma reconstrução cénica do apartamento. A voz da cantautora islandesa Hildur Gudnadóttir, como quem conta um segredo intemporal, diz o poema “oh les animaux de langue,” do filósofo Jean-Luc Nancy, que, inspirando-se no caso, o escreveu para o filme. Os animais territorializando e vivendo o espaço alienígena precedem a reflexão de Nancy sobre o homem que se sente atraído por estas “puissances identiques à elles-mêmes”, que nomeando-as, as tenta compreender, domesticar. Sobre a fronteira irreconciliável do corpo com os outros corpos – retomando uma temática da primeira colaboração entre o deconstructivista francês e o artista-académico britânico, Outlandish: Strange Foreign Bodies (2009). O corpo do homem esbarra com o corpo da fera?

Yates revela em despedida que, apesar de lhe terem tirado um pedaço da alma “pondo-o numa garrafa e atirando-o ao oceano” onde “não pode ser encontrada”, quando o apartaram de Ming, quer agora tentar recapturar aquele momento “de estar naquele edifício alto com as estrelas” e com Ming. – Lourenço Rocha

 

“Listen Up Philip”, de Alex Ross Perry

A terceira longa-metragem de Alex Ross Perry, e a primeira a valer-lhe um reconhecimento crítico e mediático mais abrangente, está embrenhada em literatura. A personagem do título, interpretada por um desinspirado Jason Schwartzman, é um escritor, a quem encontramos, no início do filme, em fase de hesitação criativa, após o sucesso do primeiro livro e no processo de lançamento do segundo. O filme apresenta uma certa qualidade novelesca, na forma como apresenta as personagens e desenvolve os seus percursos, nos diálogos elaborados e na utilização do narrador exterior à acção. No entanto, estas características servem para prender as personagens e apresentar ideias já velhas sobre o ofício da escrita e sobre o egocentrismo dos escritores. De facto, uma vez delineado o cinismo do protagonista, e a deterioração das suas relações logo nas cenas iniciais, o filme limita-se a repetir as mesmas ideias até à exaustão e a relativa fluidez da narrativa rapidamente se esgota, e damos com as personagens a sair de cena e a voltar, numa história sem rumo e sem fôlego. Nas cores soturnas e castanhas da fotografia de Sean Price Williams, até o Verão parece Outono. Elizabeth Moss, que interpreta a namorada de Philip, ainda protagoniza algumas cenas onde o filme respira e Jonathan Pryce dá um belo escritor amargo, trazendo alguma leveza a este filme demasiado sério em relação à sua seriedade, e demasiado velho para um jovem realizador de 30 anos. – Diogo Seno

 

“Koza”, de Ivan Ostrochovský

Peter Baláz foi pugilista da Eslováquia nos Jogos Olímpicos de Verão de 1996, onde não passou da primeira ronda de competições. Bálaz reinterpreta-se em Koza, uma recriação (ficcionada) do esforço que empreendeu quando, mais recentemente, recebeu a notícia de que ia ser pai. Misa e Peter têm já uma filha, que não é dele. Misa não o acha apto para criar mais uma criança e quer abortar.

Peter conta que os amigos o apodaram Koza, cabra em eslovaco, numa alusão ao leite desta com que a avó, criando-o na indigência, o nutria. Agora ele sobrevive recolhendo sucata para Zvonko. Querendo descendência própria, decide provar-se capaz de auferir um rendimento maior regressando ao boxe, e convence o austero Zvonko a acompanhá-lo aos torneios na Alemanha. Mas o resultado olímpico afigura-se fronteira das suas capacidades.

Até onde irá para se assegurar de que o devir não transforma o fracasso, que incorpora, em nada? A que indignidades se sujeita para alcançar a dignidade? Que destino cria esta sociedade? Ostrochovský desenrola o enredo de forma minimal e fria, mantendo-nos a uma distância racional. A inteligente lente de Martin Kollár – versátil revela cru o desporto mercenário, desoladora a penúria, estético o ambiente agreste, humano o derreter da antipatia de Zvonko defronte o doce Koza – dá-nos as palavras que enformaremos em resposta.

Finalmente, de acordo com crítica na Variety, realizador e protagonista seriam já amigos, depois de Ostrochovský ter realizado um documentário sobre Koza, e o projecto terá surgido quando este último lhe pediu ajuda financeira. Os quatro anos de pré-produção e produção do filme suplementaram o seu subsídio de invalidez e terão ajudado Koza a encontrar um novo rumo para a sua vida. – Lourenço Rocha

“God Help The Girl”, de Stuart Murdoch

O projeto tinha anos de vida e, julgando em tempos que não seria concretizado, acabara transformado num disco. Stuart Murdoch, a voz principal e força motriz dos Belle & Sebastian, tinha a ideia, as personagens, a narrativa, a vontade de fazer um filme, mas há cerca de seis anos só as canções se materializaram. Em tempo de pausa na carreira dos Belle & Sebastian, o filme acabou por ganhar forma, conhecendo estreia este ano em Sundance.

God Help The Girl – com o mesmo título do álbum e projeto paralelo pelo qual as canções se tinham revelado há cinco anos – é uma história com condimentos “clássicos” do era uma vez de almas criativas (e felizmente sonhadoras) que esperam um dia ver as suas canções passar das maquetes que registam em casa ou nas salas de ensaio para um patamar de comunicação com um mundo maior. Pena que, no desenvolvimento do argumento, a imaginação não tenha levado Stuart Murdoch para além do patamar em que moram os lugares comuns do género. Ou talvez fosse essa a sua intenção, tal como tantas vezes ao longo da história da pop as narrativas boy meets girl se repetiram sem vontade de fugir ao seu modelo mais clássico.

Em traços largos God Help The Girl coloca-nos frente a Eve, uma rapariga que faz canções e sonha em poder um dia mostrá-las, mas que está numa clínica sob tratamento para uma anorexia nervosa. Um dia foge para ver um concerto e conhece James, um rapaz frágil que canta temas de alma folk e acaba à pancada com o baterista que lhe afoga as canções. Ele (que por ela se encanta) mais Carrie, uma amiga, serão em breve os elementos da banda que falta para que as canções de Eve possam ganhar forma final. Mas falta a adversidade, que chega na forma do líder de uma outra banda, com grau de timidez zero, com quem Eve desenvolve um relacionamento.

Felizmente o filme, é como aquelas canções pop que repetem situações e ideias já gastas, mas acrescentam boas melodias, linhas vocais sedutoras e arranjos que fazem esquecer que há ali um valor acrescentado sobre um ponto de partida que é mais do mesmo. As canções, muitas delas recuperadas do álbum de 2009, são pop luminosa, pastoral e gourmet (em perfeita sintonia com o que conhecemos da linha clássica dos Belle & Sebastian). Luz, cores e décors reforçam o que a alma das canções sugere. E frequentemente há instantes musicais que poderiam até ter vida própria em separado. Sem a força destes ingredientes, God Help The Girl teria sido um logro. Com a soma das partes acaba por nascer aqui uma experiência pop em açucarado, mas saboroso, clima happy-sad (como as canções). Esta é contudo mais uma soma de telediscos com uma narrativa simples a uni-los que uma experiência cinematográfica capaz de juntar um episódio verdadeiramente marcante à história do relacionamento da música pop com o grande ecrã. – N.G.

 

“Theory of Obscurity: A Film About The Residents”
de Don Hardy Jr.

Como se vivem quatro décadas na música, com uma importante criação discográfica e visual e, no fim, ainda hoje ninguém sabe quem são afinal os elementos da banda? Para bom entendedor é fácil imaginar que falamos dos Residents. E quem os conhece e acompanha sabe que pode esperar tudo menos a resposta a esta questão ao ver Theory of Obscurity, documentário de Don Hardy que integra a programação da secção IndieMusic deste ano.

Se o culto do anonimato se transformou num gimmick que hoje não faz sentido desfazer, a verdade é que a história de 40 anos do grupo revela um percurso mais interessante que essa mera distração e que se fez transgredindo sempre as fronteiras das linguagens pop/rock e as das artes experimentais, partindo na verdade de um coletivo originalmente mais interessado até no cinema que na música. Imagem e sons cresceram como parte de um corpo uno, aberto a ideias e experiências e que cedo contou com a adesão de admiradores que de um coletivo nos antípodas das regras do mercado discográfico fez crescer uma carreira que desafiou formas e métodos. O quarteto, que em parte da sua carreira apresentou gigantescos globos oculares no lugar das suas cabeças – criando a mais icónica das suas representações – tem a sua história aqui relatada por amigos, colaboradores e admiradores que, inevitavelmente, falam na terceira pessoa. Ouvem-se canções, recordam-se imagens de arquivo – do filme inacabado Vileness Fats ao prototeledisco que criaram para Third Reich’N’Roll -, visita-se uma coleção de imagens que hoje fazem o Eyeball Museum… Nascidos em São Francisco, ganharam notoriedade musical através do entusiasmo da crítica musical na Inglaterra de finais de 70 e início dos anos 80 porque, como Chris Cutler aqui explica, “não eram pomposos como o prog rock”, a sua obra “não era musicalmente estúpida” e num todo “funcionavam num plano intelectual”…

Quarenta anos depois há novas gerações de admiradores a surgir nos concertos, e velhos admiradores que continuam a colecionar os discos e o MoMA tem os seus telediscos integrados na sua coleção. Dos Tuxedomoon aos Devo conhecemos exemplos vários da herança que os Residents lançaram. Existem ou são uma ideia? Quem são. No fim, acabamos sem respostas. Mas ficamos com vontade de voltar a ouvir os seus discos. E reencontrar imagens que, de tão únicas, são alienígenas que baralham a ideia de género que tantas vezes se tenta aplicar para arrumar a cultura popular. – N.G.

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