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Os romances também se cantam

Entrevista por NUNO GALOPIM

Aldina Duarte, juntamente com os colaboradores Maria do Rosário Pedreira e Pedro Gonçalves, dão a conhecer “Romance(s)”, álbum lançado há poucos dias.

Foto: Rita Carmo

O novo álbum de Aldina Duarte resulta de um entendimento criativo a várias vozes, contando, entre outras colaborações, com as palavras de Maria do Rosário Pedreira e a visão musical de Pedro Gonçalves (que ficou a seu cargo com o “disco 2”). O álbum Romances(s) na verdade faz-se juntando dois discos, nos quais a mesma narrativa e palavras seguem por caminhos musicais distintos. No disco um escutamo-las tendo por base fados tradicionais. No segundo, o desafio transcende as suas fronteiras. O resultado é um dos mais surpreendentes discos que nasceram entre nós nos últimos tempos. E para o dar a conhecer ouvimos não só Aldina Duarte, mas também Maria do Rosário Pedreira e Pedro Gonçalves.

O que é que um disco faz por um romance contado de diferente de um livro? É apenas a música e a voz cantada?
Maria do Rosário Pedreira (MRP) – É também isso, claro, porque a interpretação oferece logo um mecanismo de leitura e a música dá pistas muito sólidas sobre o ambiente da história. Mas é também um exercício de leitura não solitária: normalmente, quando lemos um romance, estamos apenas nós e o silêncio, num disco há essa partilha com o narrador e as personagens que estão a falar connosco ali ao pé de nós. E, no segundo disco, isto é ainda mais verdadeiro, a emoção está ao rubro, a três dimensões, não temos de a imaginar ou recriar.
Aldina Duarte (AD) – Vai mais depressa “direto ao osso”, isto é, a música só por si provoca reacções emocionais, e até físicas, mais imediatas do que a palavra escrita e lida em silêncio, a palavra acompanhada pelo som da voz e dos instrumentos pode ter um efeito poderoso, depois, a gravação em disco permite audições recorrentes e completamente aleatórias, conforme o gosto e o interesse de quem ouve. Digamos que um romance em disco pode ser, por todos, alterado, quer na sequência dos acontecimentos quer na forma de o conhecer, depende de quem, e como, o escutam. Digamos que ninguém se atreve a rasgar páginas de romances para ler e reler, geralmente.

O que sugeriu a opção por narrativas de amor?
AD – O amor é o grande tema da criação artística e da vida das pessoas, e no caso da poesia da Maria do Rosário Pedreira e do meu fado é mesmo o único e grande tema.
MRP – A literatura tem que ver sobretudo com o amor e a morte. Como escolher outro tema se este é o melhor de todos? Mas também foi uma questão de lógica: eu escrevo poesia amorosa, até romântica, a Aldina canta fados de amor quase sempre. Inventar uma coisa diferente seria talvez falhar o alvo e fazer menos bem.

Como se pensam e moldam personagens tramas quando, em vez de uma sucessão de páginas, há que as arrumar em poemas e, depois, deles fazer nascer canções?
AD – Nunca pensei nem escrevi um disco assim, nem um romance em livro sequer, sempre escrevi e cantei fado a fado, daí a ideia deste disco ser da Maria do Rosário. Enquanto intérprete estive quase um ano a ler a história, poema a poema, sequencialmente e isoladamente, à procura de narrativas e personagens em mim e nos que me rodeiam para poder dar uma vida própria a esta história. Claro que o trabalho de procurar as melodias no espólio musical do Fado Tradicional que melhor poderiam servir o registo emocional da letra é meio caminho andado para uma interiorização mais acertada dos ambientes da história.
MRP – É tudo uma questão de organização e de gestão do espaço (risos). A Aldina ajudou muito na divisão em fases, sentimentos e emoções que imperam numa história de amor de fio a pavio – e, depois, os meus poemas costumam ter qualquer coisa de narrativo também, por isso não foi assim tão difícil para mim criar as tramas em textos distintos. O desafio era tornar a história compreensível no seu todo, mas aí a intérprete e o director musical ajudaram muito, na verdade, fizeram o trabalho principal.

A apresentação das canções em duas leituras chama a atenção para aquela ideia de que há sempre, pelo menos, dois lados numa história (sobretudo se for de amor)?
AD – Precisamente. As relações amorosas, incluindo a sexualidade, são sempre complexas, começando logo por cada par ser sempre singular…

Como surgiu esta vontade de, desde logo, não fixar as canções em apenas uma leitura?
AD – Inicialmente havia a leitura da Maria do Rosário Pedreira e a minha, uma ideia para fazer um concerto à guitarra e à viola, quando surgiu o Pedro Gonçalves, a convite da Paula Homem, minha editora, para produzir o disco, nasceu o conceito dos dois discos versus duas visões do mesmo romance.
Pedro Gonçalves (PG) – A simples ideia de mexer no fado tradicional, só por si, causa-me arrepios. A ideia de ter duas leituras distintas das mesmas músicas surgiu através da minha mulher, Ainhoa Vidal. Pareceu-me desde logo uma excelente ideia visto que salvaguarda a versão tradicional.

Se uma das leituras estaria à partida naturalmente no espaço do fado, como surgiu a abertura para outros caminhos. A escolha do Pedro Gonçalves tinha desde logo um universo em vista?
AD – A escolha do Pedro resulta das nossas afinidades musicais e artísticas no essencial e na minha necessidade de evoluir criativamente ao lado de outros criadores, estava farta de trabalhar sempre sozinha, precisava de outras vozes, artisticamente falando, para fazer outro disco. Antes destas epifanias já tinha decidido não gravar mais.
PG – O universo foi surgindo depois da gravação do disco 1, o de fados. Foi um processo bastante intuitivo e muito pouco intelectual. As músicas andaram na minha cabeça meses tentando encontrar o seu espaço cénico, porque sempre vi as músicas como um todo e esse todo como uma espécie de filme. Depois foi deixar que cada uma das músicas encontrasse o seu próprio espaço e cor.

O que há de desafiante nesta ideia de ir para lá do que é canónico no fado?
AD – Tecnicamente evolui melódica e ritmicamente só por estar a construir as letras sobre sonoridades tão diversas, o espaço para a palavra é outro, se forem cinco ou dois instrumentos, ou no silêncio se a voz contracena com um instrumento apenas, descobrir possibilidades tímbricas da minha voz, algumas que nunca utilizo no fado, para me fundir com os timbres de instrumentos com que nunca cantei, há tantos desafios e tão novos neste trabalho… A nível interpretativo ainda estou numa catadupa de estados de espírito e revelações que me parecem infindáveis, o que é maravilhosamente inquietante.

As “óperas” de Amália e outras ousadias geraram opiniões controversas no seu tempo. Hoje ainda se ouvem muitos discursos conservadores no fado?
AD – Não tenho contacto com conservadores no fado, mas tenho a impressão de que não são relevantes esses posicionamentos, nem dentro nem fora do meio do fado, basta observar o trabalho dos fadistas mais novos e mais antigos que têm sucesso fora das casas de fado, a maior parte sempre cantou nessas casas e fez o que quis fazer com o seu fado.

Que efeito tem no mundo do fado o facto de, nos últimos anos, um público mais jovem o ter descoberto e acarinhado?
AD – Os maiores fadistas da história do fado acolhem e ajudam sempre os mais novos, uma das leis da sobrevivência de uma arte de tradição oral é a passagem do testemunho, e quem faz parte desta história a sério sabe disso.

Como se apresenta em palco um disco com estas duas faces? Em jeito “entremeado”? Ora uma face, ora a outra? Só uma ou a outra?
AD – Eu decidi fazer dois concertos distintos: “Romance”, à guitarra e à viola, e “Romance Ambulante”, com uma banda de cinco músicos e uma coreografia, não sei se haverá meios financeiros para tal. Pontualmente, farei um “Romance” em jeito “entremeado”, acho piada ao termo.

“Romance(s)” de Aldina Duarte está publicado em formato de CD duplo pela Sony Music

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