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O laboratório de Martin L. Gore

Texto: NUNO GALOPIM

O novo álbum a solo do principal compositor dos Depeche Mode é mais uma coleção de experiências eletrónicas instrumentais que um conjunto de novas composições.

Quando, em 1981, Vince Clarke abandonou os Depeche Mode em busca de uma nova ideia que emergiria nos Yazoo e ganharia perenidade só depois nos Erasure, coube a Martin L. Gore o desafio de assegurar a escrita das canções do grupo. As diferenças ficaram desde logo claras em A Broken Frame (1983), ganhando solidez maior no conjunto de álbuns editados entre finais dos oitentas e a aurora dos noventas – Black Celebration (1986), Music For The Masses (1987) e Violator (1990) -, que ainda hoje representam a etapa mais criativa de toda a obra do grupo. Alan Wilder ajudou aqui e ali, pontualmente. Mais recentemente David Gahan passou a assegurar a composição de alguns temas a cada novo disco. Mas desde 1982 é a Martin L. Gore que devemos a alma da escrita dos Depeche Mode. Como em tantas outras bandas, houve visões que emergiram e ali não cabiam, Alan Wilder começando-as a expressar via Recoil e Martin L. Gore em discos a solo que, lançados entre longos intervalos, foram dando conta de outras buscas e interesses.

Counterfeit (1989) era um EP no qual ensaiava cantar as canções dos outros, assinando versões de temas de nomes como os Sparks ou Durutti Column. Repetiria a ideia em 2002 em Counterfeit 2, um álbum onde novo conjunto de versões revelava desta vez temas de, entre outros, Lou Reed, Nick Cave ou Brian Eno. Em 2011 apresentou uma série de discos (dois EPs e um álbum) através do projeto VCMG, nada mais que um reencontro com o velho parceiro Vince Clarke, numa aventura exploratória de caminhos da música electrónica. E é na mesma senda, embora sem a mesma presença de estruturas rítmicas tão vincadas, que agora edita um novo disco a solo a que chama, simplesmente, MG.

Muito distante dos caminhos recentes da música dos Depeche Mode – o que de mais perto lembro serão talvez instrumentais e peças de lados B da primeira metade dos oitentas, como Oberkorn (It’s a Small Town), embora sem a sua clara agenda pop) – MG é acima de tudo uma mão-cheia de ensaios e experiências electrónicas. Umas vezes definindo formas e experimentando a melodia – como no belo Europa Hymn – mas mais frequentemente o que aqui encontramos são sobretudo esboços e ideias. Mais que uma galeria de ideias de composição, MG é mais frequentemente uma exposição de sons, de sugestões, revelando talvez mais uma busca de matéria prima sonora que uma coleção de formas finais. Pode cativar alguns aficionados (do grupo e das electrónicas), mas é um disco relativamente inconsequente.

“MG”, de Martin L. Gore foi editado pela Mute Records nos formatos de LP, CD e para plataformas digitais.

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