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Quando Steve Reich olhou novos desafios

Texto: NUNO GALOPIM

Uma nova gravação de “Music For 18 Musicians”, pelo Ensemble Signal, reafirma a já reconhecida importância desta peça entre a obra do compositor norte-americano.

Depois de uma década de primeiros trabalhos que o ajudaram a definir, estruturar e aprofundar as bases de uma linguagem própria, Steve Reich iniciou, em meados dos anos 70, uma nova etapa aberta a novos desafios, nomeadamente os de procurar criar obras de grande fôlego usando os princípios já encontrados e deles partindo rumo a novas descobertas. Na verdade a obra de Reich já tinha conhecido uma peça de extensão considerável e visão maior no marcante Drumming, estreado em inícios dos anos 70. Mas é entre 1974 e 76 (ou seja, numa mesma altura em que Philip Glass trabalhava em Einstein on The Beach) que encontra em Music For 18 Musicians a resposta a desta demanda. À sua maneira, também ele começava aqui a partir para lá do que havia sido uma importante fase de construção de ideias que hoje reconhecemos como a base do minimalismo. Mas, tal como o já havia feito Terry Riley e Glass se preparava para fazer, também Steve Reich queria olhar adiante.

Music For 18 Musicians, que antecede outras obras maiores como Octet (1978, mais tarde revista como Eight Lines), Tehillim (1981), Desert Music (1983) ou o belíssimo Sextet (1984), abre novas perspetivas à música de Steve Reich e alarga consideravelmente a paleta tímbrica convocada às suas composições. Dividida em onze módulos (a que chama “pulses”) a obra é de uma riqueza harmónica como Reich antes não experimentara e representa um episódio tão importante para a definição de caminhos futuros da sua linguagem como o fora nos anos 60 a adaptação da noção de “phasing” que explorara em inúmeras peças, das manipulações com fitas de Come Out ou It’s Gonna Rain a Clapping Music ou Piano Phase. Entre os 18 músicos convocados para cada interpretação há alguns multi-instrumentistas, a cada “pulse” alguns tendo de trocar de instrumento. A pequena orquestra envolve pianos, marimbas, violino, violoncelo, clarinete, maracas e xilofone, além de vozes femininas.

Estreada em abril de 1976 em Nova Iorque, Music For 18 Musicians conheceu primeira edição em disco em 1979 no catálogo da ECM numa interpretação por Steve Reich e o seu ensemble Steve Reich and Musicians. Houve mais tarde uma outra gravação pelo mesmo grupo, para edição na Nonesuch, ampliando uma discografia que entretanto juntou já a edição de interpretações pelo Ensemble Modern, o grupo de percussões Amadinda e o Grand Valley State University New Ensemble, esta última num registo usando tecnologia surround.

O Ensemble Signal apresenta agora, pela Harmonia Mundi, aquela que é assim a sétima gravação de uma obra que está claramente já integrada no cânone das peças de referência da música de finais do século XX. O grupo de músicos, que tem recebido aplausos em vários trabalhos já realizados, colaborou por exemplo com Damon Albarn na ópera Monkey: Journey to the West e já abordara a música de Steve Reich numa produção da ópera (se lhe quisermos chamar ópera) Three Tales. Esta gravação de Music For 18 Musicians representa a sua estreia no catálogo da Harmonia Mundi.

Produzida por Michael Riseman (colaborador de Philip Glass em inúmeras gravações) e contando com as vozes de Martha Cluver, Caroline Shaw, Mellissa Hughes e Kirsten Sollek, esta magnífica interpretação de Music For 18 Musicians revela o necessário rigor rítmico que sustenta a arquitetura dos acontecimentos e espelha uma clareza na captação do som que nos permite notar o detalhe entre o corpo do ensemble. É uma interpretação notável e merece juntar-se às conduzidas pelo próprio compositor, destacando-se numa discografia que faz já desta peça uma das mais celebradas e influentes da obra de Steve Reich.

“Music For 18 Musicians”, de Steve Reich, em nova interpretação pelo Ensemble Signal, está disponível em CD e edição digital pela Harmonia Mundi.

Excerto de uma interpretação de “Music For 18 Musicians” pelo Ensemble Signal durante o Big Ears Festival, em 2014.

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