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Moullinex: “A música de dança está muito como acessório do lifestyle”

TEXTO: NUNO GALOPIM

Ao editar um segundo álbum de estúdio, o projeto do português Luís Clara Gomes lança uma reflexão sobre caminhos possíveis para a canção, em diálogo com o apelo da dança. Hoje apresenta estas novas canções no Lux.

Há dois anos, quando nos apresentou o álbum de estreia, a que chamou Flora, Luís Clara Gomes era, através do projeto pessoal a que chamou Moullinex, um dos primeiros a reativar um terreno de relacionamento da canção com a música de dança, sobretudo o disco, espaço que entre nós tinha conhecido importantes primeiras aventuras nos anos 90 mas que nunca firmara uma região demarcada entre a produção made in Portugal. Com Flora revelava-se (ou ganhava maior visibilidade) a editora Discotexas, da qual é um dos fundadores, que juntava ao disco outros argumentos numa frente comum que cativou atenções por aqui e entrou em importantes diálogos lá fora.

O tempo passou. A editora ganhou ainda mais solidez e projeção. Luís assinou remisturas para figuras de relevo como os Royksopp, Robyn ou os Cut Copy. E os universos de alma disco que escutávamos em Flora dão, na obra de Moullinex, lugar a uma nova etapa, que se revela em Elsewhere, um segundo, mais desafiante e ainda mais interessante disco. O que mudou? Porque mudou? E como está de saúde a música de dança? São algumas das ideias em discussão na conversa com o músico que se segue.

O álbum de estreia, Flora, surgiu numa altura em que a Discotexas ganhou visibilidade. O que muda e avança neste segundo disco é de alguma maneira também um reflexo do crescimento da editora e, no fundo, de quem a ela está ligado?
A partir de um momento em que somos um grupo muito reduzido de pessoas e convivemos muito tanto musical como pessoalmente acabamos por crescer juntos porque temos as mesmas vivências. E acabamos por contaminar os gostos uns dos outros e as perspetivas sobre como estar na música como um coletivo, como editora. Ou até como estar na vida como pessoas. Senti que tivesse na mesma zona estética do Flora acabava por estar a repetir-me e a explorar uma coisa que seria muito formulaica. Noto que as coisas ficaram muito estagnadas naquela área. Muito poucos artistas me estimulam dentro do que é o disco de hoje em dia. O álbum do ano passado do Todd Terje foi o ponto final de que a cena precisava. Está feita a obra prima e vamos embora.

E o disco volta assim a entrar em mais um pousio para eventualmente regressar daqui a poucos anos. Como de resto tem acontecido em ciclos desde os anos 70?
É verdade… É como olhar para a mesma divisão e mudar os móveis. Pronto, está diferente outra vez… As guitarras eram proibidas no ano passado, mas de repente voltaram, com aquela inspiração soul e R&B… É um período muito fértil. Era uma música de massas mas feita por minorias. Dava voz a grupos da sociedade que estavam com muito pouca representação, até mesmo musical. E por isso tem muita força não só musical como cultural. Do ponto de vista filosófico quis pegar neste som e olhar para ele, deixando-o contaminar com outras coisas que acho que fazem sentido conviverem aqui, como é a herança das produções de estúdio dos anos 60, em que o estúdio era visto como um instrumento… E há um reflexo daquela ideia também de sermos um coletivo, sermos as mesmas pessoas, de tocarmos nas bandas uns dos outros… Isso acaba por contaminar a escolha da paleta de sons.

O que encontra um músico num estúdio?
O trabalho de estúdio é muito solitário. É como uma visão de arquiteto… Requer algum planeamento mesmo que depois o resultado final seja caótico, como são as produções do George Clinton, dos Parliament e Funkadelic, que foram pontos de partida para sons que usei no álbum… Mas é um caos planeado. Embora deixe depois a execução para o grupo. Olhei para isto como um projeto mais de estúdio, ao passo que o outro era um pouco mais manta de retalhos, porque foi feito durante mais tempo e em sítios diferentes. Este foi feito quase todo em Lisboa, com uma parte feita no Norte. E soa mais a uma história contínua.

E com maior liberdade instrumental… E mais livre na abordagem às épocas tomadas como fontes de inspiração…
Era deliberado esse querer ir mais atrás. Quando comecei a minha descoberta da música eletrónica e de dança comecei com as coisas da altura me fascinaram, como foram os LCD Soundsystem, os franceses, desde Daft Punk a Etienne de Crécy… Fui olhando para o que samplaram e fui andando para trás, passei pela Motown e cheguei à Stax e aos Beatles. E andei ainda mais para trás… Se calhar o próximo disco é sobre o blues do Detla… (risos) Não vai ser… Mas fascina-me esta época. Havia mais dinheiro e mais pessoas nos estúdios. A produção dos álbuns estava carregada de pessoas muito criativas.

Mas os estúdios de hoje são muito diferentes dos que havia nos tempos de glória de um Brian Wilson ou George Martin… E os orçamentos também são diferentes… Ou os estúdios de hoje recriam essa multiplicidade de hipóteses com menos gente e dinheiro?
No fundo é isso mesmo… E em vez de haver três ou quatro estúdios em Londres a trabalhar ao mesmo tempo há, por exemplo, três só nesta rua… E dezenas de bandas a tocar. É claro que a democratização vai trazer muito mais quantidade e, em última análise, vai trazer mais qualidade, porque vai ser dada voz a pessoas que não teria meios nem geográficos nem técnicos nem financeiros para a ter. E que a mereciam talvez até mais que essas elites. Nesse plano a democratização da tecnologia diluiu a fronteira entre o sonho e a concretização. Nesse aspeto vivemos numa altura privilegiada.

Em músicos desta área em que trabalhas não é invulgar vermos os LCD Soundsystem serem citados como paradigma… Porque assim é?
É bem verdade. É como dizem em inglês: a producer’s producer, a label’s label e a musician’s musician… De facto vieram dar uma pedrada no charco em relação ao do it yourself… Eram velhos demais para serem uma novidade e novos demais para serem um clássico. E para uma pessoa com 31 anos ver como um James Murphy levou aqueles anos todos a por cá fora toda a sua beleza e criatividade, se calhar deixa-me a pensar que se calhar não é assim tão tarde para estar a fazer um segundo álbum. Tenho redescoberto os LCD Soundsystem e vou sempre descobrindo algo que me fascina e me dá inspiração. É uma referência para a minha geração e para uma maneira de olhar para a música electrónica, assim como para a forma como uma editora independente deve estar. Mais o fascínio com a sonoridade de estúdio dos anos 70, que está nas coisas que saem da DFA… Tudo isso. E reúne a atitude em relação a DJ sets, ao digging, que existe em volta da DFA. Tudo isso acabou por me ter motivado a mim e a nós como editora e a uma geração de músicos que lhes presta vassalagem merecidamente.

Até que ponto é artisticamente importante fazer remisturas para outros artistas? Ou é mais um trabalho que se aceita fazer com fins económicos?
Ambos… E podendo juntar os dois é bom. Quando recebo um convite de alguém que admiro musicalmente para pegar no resultado final do seu trabalho, que envolveu sangue, suor e tempo e vamos depois cortar às fatias e ficar com a bateria, a guitarra a voz, o que entender, e poder fazer o que quiser, para mim é o melhor elogio que possa receber. E se isso servir como forma de promoção do meu trabalho e também de subsistência, junto tudo. De facto é um desafio superar-me em termos de remisturas. Já fiz para mais de 30. E nunca pegaria na sessão da remistura anterior para a repetir. É por isso também uma maneira de experimentar coisas novas sempre com o esqueleto da música de dança (porque acabo por fazer sempre remisturas dançáveis). Quando faço uma remix é porque imagino as pessoas a dançar alguma parte dela.

E na hora de fazer as tuas canções essa preocupação com o lado pragmático do apelo à dança está logo entre as primeiras ideias que lanças?
No disco anterior comecei sempre a partir do ritmo… Como desta vez não tive colaborações na escrita das letras encarei em primeiro lugar a necessidade de escolher sobre o que ia escrever. E só depois pensei como iria combinar as roupinhas, se ia ser mais dançável ou mais calmo… Pensei em servir a canção e não e não a canção a servir o kick… A maneira como encaro a música de dança neste disco é mais filosófica. Ou seja, no fundo quase todas as canções são dançáveis, mesmo que dançável seja aquela coisa que se pode aplicar ao yé yé francês dos anos 60 ou às coisas da Motown. Não tem que ser house… Preferi não seguir pelos mesmos caminhos do nu-disco, ou do género do qual possa ter sido chamado no passado. Até porque a cena se tornou desinteressante. Não estou a cuspir no prato em que comi, mas sinto que na música electrónica e na pop de hoje existe gente muito criativa a fazer coisas fora da música de dança mais canónica.

Até que ponto a house criou uma espécie de ditadura formal?
É exatamente isso de que estou a falar. Existe um fenómeno de revivalismo em que são utilizados os mesmos instrumentos, as mesmas drum machines, as mesmas patterns, e as mesmas mesas de mistura e a mesma cama harmónica e as mesmas escalas… E qualquer coisa que fuja daí é cuspido. E isso não é uma coisa interessante. Não sou especialmente fã desta cena underground de deep house. É essencialmente revivalista e para isso não tenho paciência. Quando comecei a ouvir música electrónica e de dança vivia-se um momento em que se estava a pisar fronteiras um pouco como se está a viver agora. Cheguei um pouco depois daquele infeliz chill out Cafe del Mar e daquele house genérico tribal… E já estavam a voltar as guitarras para a pista de dança. Neste momento estamos outra vez aí. Se calhar, de estar mais velho, vejo as coisas um pouco mais de fora. Mas hoje fascina-me mais ir ver um concerto de uns Unknown Mortal Orchestra que propriamente um DJ set de um DJ de deep house. Quis por isso refletir também sobre o que nós próprios andávamos a sentir como editora, como grupo de amigos.

As coisas nesse espaço mais genérico da música de dança atual chegam a esse ponto por falta de cultura musical dos DJ?
Não acho que exista falta de cultura musical. Há cada vez mais cultura musical porque quase toda a música da humanidade está acessível quase gratuitamente a quase toda a gente. Esse não é um argumento. Por outro lado entramos numa era de facilitismo em que o meu primo de onze anos quer ser DJ… Vamos a um festival de grande envergadura e o que interessa são as luzes e o sistema de som, sempre maior que no festival anterior. E o DJ passou a ter uma figura de culto que não está muito ligada a uma componente humana que essa pessoa possa ter. Enquanto que se vamos ver um concerto com pessoas a tocar, por maiores que sejam as camadas de tecnologia e artifício que possas introduzir há sempre uma parte humana que é o que toca as pessoas. Quando essa parte não existe sais do concerto e sentes que foste enganado. A música de dança está muito como acessório do lifestyle. Apanhamos umas ondas de tarde e à noite vamos curtir uns DJs… Não é esse o mundo que me seduz…

Os concertos dos Kraftwerk, há poucas semanas, mostraram precisamente essa ideia de humanidade possível até mesmo onde a máquina imperava…
Precisamente. Até porque eles são uma reflexão sobre isso mesmo. Também fui ver e gostei muito. Eles são a quinta essência do que é ser humano com máquinas.

Um álbum, como ideia que junta um conjunto de canções numa sequência, ainda faz sentido no tempo presente?
Do ponto de vista editorial não sei dizer… Mas para mim pelos vistos faz. Quando dei por mim a sequenciar os temas para este álbum dei por mim que o CD dividido ao meio tem quase dois lados conceptualmente distintos. Ou seja, existe um momento em que tens de virar o disco ao contrário. E é como se fosse outra viagem. Não foi intencional. Quando fiz o alinhamento e fui ver reparei que tinha 20 minutos em cada lado. Foi quase como uma profecia autorrealizada. Acredito muito nas histórias contínuas. Ainda têm lugar. Estamos a lutar contra um mundo sem histórias e sem pessoas.

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