Últimas notícias

1981. Na era dos computadores

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de terem lançado visões nos anos 70, os Kraftwerk chegavam aos oitentas ao lado daqueles que tinham estudado as suas lições. Mesmo assim deram e, ‘Computer World’ uma aula magistral.

Editado em maio de 1981 o álbum Computer World completa, juntamente com Trans Europe Express (1977) e The Man Machine (1978) aquela que poderíamos entender como a “santíssima trindade” da obra dos Kraftwerk e, naturalmente, referência maior na história da música electrónica. Apesar do caráter visionário de Autobahn (1974), é entre estes três discos que o grupo aperfeiçoa e fixa a sua linguagem, definindo entre os três princípios fulcrais que teriam impacte nas muitas descendências que gerou, dos novos grupos da pop electrónica ao então emergente hip hop, com impacte ainda entre tantos outros caminhos que ainda estavam por acontecer, ou pelo menos emergir com identidade mais vincada, da electronic body music ao techno.

O intervalo de três que separa este álbum do anterior The Man Machine não é apenas fruto de um ritmo de trabalho criativo que, depois dos anos 70, entrou em progressivo processo de desaceleração, como traduz a concretização de um feito técnico que, daí em diante (e com consequências ainda hoje visíveis), mudaria a vida em palco dos Kraftwerk. Muito do tempo despendido neste intervalo coube a uma tentativa – com sucesso – de adaptar todo o estúdio Kling Klang (em Düsseldorf) a uma unidade móvel, permitindo ao grupo levar assim para a estrada as mesmas ferramentas e sons que usavam no trabalho de estúdio.

É neste clima de focagem de parte de atenções em desafios num plano tecnológico que o grupo idealiza um novo álbum através do qual deseja refletir sobre a crescente presença dos computadores nas nossas vidas. Apesar da aparente placidez que nasce de temas como Computer Love – que tem como subtexto mais uma manifestação de um já experimentado diálogo de fronteiras esbatidas entre os mundos do homem e os da máquina – ou até mesmo da luminosa alma pop de Pocket Calculator – um episódio lúdico que vive da exploração das potencialidades sonoras de algumas das novas pequenas calculadoras electrónicas – o álbum é na essência um disco político que, sem panfletarismos, reconhece a caminhada recente dos computadores rumo a um patamar de destaque no quotidiano e nota depois que, com os avanços que a tecnologia propõe, surgem outras realidades menos claras, nos mundos da segurança ou das finanças, sobre os quais deixam um alerta.

Instrumentalmente o disco é uma evolução na continuidade dos caminhos que o grupo tomara nos dois álbuns mais recentes, retomando o alinhamento uma lógica de arrumação mais semelhante à de Trans Europe Express, com uma suite temática a ocupar parte do lado B, estabelecendo pontes naturais entre Home Computer e It’s More Fun To Compute, entre estes dois temas podendo reconhecer-se ideias que fomentariam o despertar de novas abordagens às electrónicas pouco depois na cidade de Detroit, onde um novo som emergiria sob o rótulo techno.

Pocket Calculator, um dos temas de maior impacte do alinhamento do álbum, conheceu versões em várias outras línguas, havendo edições em single cantadas em francês, alemão ou japonês. O lançamento do 45 rotações com esta canção como peça principal gerou uma das primeiras expressões de um novo modelo de marketing, tendo os destinatários – sobretudo programadores de rádio, DJs e jornalistas – recebido com o single uma calculadora amarela e preta, num design definido segundo o grafismo associado ao álbum.

O tema Computer Love foi editado no Reino Unido num single com The Model (do álbum anterior) no lado B. A clara opção dos programadores de rádio pelo lado B levou a editora a promover uma nova prensagem com a ordem das faixas trocadas, como resultado tendo nascido aqui um número um.
A grande visibilidade chegava num tempo em que uma nova geração de bandas entrava em cena – com sucesso – citando os Kraftwerk como uma das suas maiores influências. Nomes como os Human League, OMD, Soft Cell, Depeche Mode, Visage ou Duran Duran tomavam as suas ideias e delas partiam para pensar uma nova música pop. Pelo seu lado os Kraftwrerk, que correram o mundo com uma digressão de sucesso na qual apresentaram este álbum, começaram a desaparecer do mapa das atenções. Ao longo da década de 80 editariam apenas mais um álbum de estúdio. É certo que a sua missão não estava dada como cumprida (haveria, por exemplo, novo disco de inéditos em 2003). Mas os frutos das suas visões estavam a gerar novas gerações de grandes acontecimentos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: