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1986. Um café digital

Texto: NUNO GALOPIM

Lançado em 1986, o álbum “Electric Café” representa um interessante esforço de reinvenção minimalista na obra dos Kraftwerk que, sem o merecido impacte na época, urge (re)descobrir.

O mapa mundo da música electrónica no início dos anos 80 era algo completamente diferente ao cenário que, durante a década anterior, tivera nos Kraftwerk os pioneiros visionários que se haviam destacado entre os demais da sua geração e lançado ideias que entretanto tinham influenciado outros e gerado descendências. Entre a primeira geração pop electrónica (nascida ainda em finais dos setentas) e a emergência da cultura hip hop (em breve entrariam também em cena as primeiras experiências que abririam caminho à aurora da house e do techno), os Kraftwerk mantinham um perfil de aclamado reconhecimento dos seus feitos e ideias, mas era notório que a linha da frente da invenção era agora mais vasta e partilhada com outros nomes. A chegada, em 1981, não repetira o espírito inventor de obras anteriores como Autobahn, Trans-Europe Express ou The Man Machine, mas confirmava a força da personalidade de uma linguagem consolidada que abrira o terreno e se mantinha claramente atual. E agora?

A atenção para com os cenários à sua volta teve um papel importante para o pensar de um percurso que, definitivamente, não era mais o de uma infantaria lançada adiante dos demais. Ao visitar os clubes noturnos em Nova Iorque nos primeiros anos dos oitentas reconheceram na forma de usar as linguagens rítmicas uma fonte de ideias mais capaz de suscitar reflexões que o que iam escutando entre os grupos pop que, estimulados pelos seus discos dos anos 70, entretanto emergiam como forças maiores da música de então.

Uma pausa de dois anos fez-se notar entre a edição de Computer World e o episódio seguinte, um single estimulado pelo prazer (já antigo) dos elementos do grupo pelo ciclismo. Tour de France, com uma luminosidade pop e uma sensação de prazer e otimista que raramente transbordara tão evidente em composições anteriores, e animada por um trabalho rítmico com nuances inovadoras, surge em 1983, atrasada por um acidente (numa bicicleta) de Ralf Hutter durante a etapa de gravação do single. Chegara a ser ponderada a criação de um álbum que explorasse o universo do ciclismo ou até mesmo do desporto, mas a possível criação de um novo disco conceptual foi deixada de lado em detrimento da construção de um álbum que então se apresentava com o título de trabalho Technopop.

Os progressivos avanços que a música electrónica ia tomando para lá das paredes dos estúdios Kling Klang, o advento da gravação digital – inovação à qual sentiram que não podiam deixar de aderir – e uma falta de encantamento com o trabalho de mistura, que acabou mesmo por ser repetido, foram adiando sucessivamente a edição de um álbum. O longo processo de criação afastou-os do título original, entrando em cena a expressão Electric Café, recuperando uma ideia antiga do grupo em criar uma obra baseada nas vivências e sonoridades de um café. Rezam as mitologias que o grupo terá tomado ainda em conta memórias do cinema, como o filme de 1927 Cafe Elektric, protagonizado por Marlene Dietrich, ou a sequência de 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick, que junta um americano a um grupo de russos num lounge da estação espacial pela qual passa o trânsito de naves de e para a Lua.

Editado em novembro como Electric Café, mas hoje disponível numa edição remasterizada de 2009 que retomou o título original Technopop (com apenas uma ligeira alteração no alinhamento), o álbum não obteve o impacte dos discos anteriores mas representa uma pérola da obra do grupo que vale a pena (re)descobrir. Se é verdade que The Telephone Call é uma das canções menos inspiradas de toda a obra do grupo e Sex Object tenta encontrar – mas sem resultados surpreendentes – caminhos de exploração da canção segundo o que se sugeria em The Man Machine, o grosso do alinhamento mostra contudo o resultado de uma interessante redefinição de orientação na condução dos destinos da busca de inovação, valorizando um minimalismo nos elementos decorativos, concentrando atenções na exploração de formas de percussão electrónica e na sua relação com a palavra (entendida tanto pelo seu valor semântico como sonoro, aqui visando também o seu papel como elemento na arquitetura rítmica).

A face A do disco (e falamos da sua edição em LP, valendo a pena notar que este foi também o primeiro disco dos Kraftwerk a ter lançamento em CD) representa uma suite que junta três partes, que estão unidas não apenas pela estrutura rítmica – são ténues as mudanças que assinalam as passagens de cada segmento para o seguinte – mas também por elementos verbais que, com maior protagonismo num dos momentos, não deixam de estar presentes nos outros. Entre Boing Boom Tchak, Techno Pop e Musique Non Stop nasce mesmo uma das peças mais arrebatadoras da obra do grupo, evidência de que a sua capacidade de ver mais adiante não se esgotara depois de Computer World e Tour de France. O disco inclui ainda House Phone, uma visão mais dietética nos recursos, mas intelectualmente mais nutritiva, de elementos igualmente convocados em Telephone Call e Electric Café, tema-título que assinala um momento de ligação mais evidente para com as experiências registadas no single de 1983 Tour de France.

Não foi um disco ignorado no seu tempo, mas ficou aquém dos feitos dos anteriores e tanto Musique Non Stop como The Telephone Call (os dois singles extraídos do alinhamento) passaram longe dos apetites mais vorazes do mercado que faz êxitos. Musique Non Stop, contudo, sobreviveu ao teste do tempo e ainda hoje integra o alinhamento dos concertos do grupo.

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