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1974. Uma autoestrada na cultura pop

Texto: NUNO GALOPIM

Em contagem decrescente para a nova visita dos Kraftwerk a palcos portugueses vamos recordar por aqui títulos marcantes da sua discografia. E começamos com o icónico ‘Autobahn’, de 1974.

Não podemos encarar a obra dos Kraftwerk sem notar quem são e, sobretudo de onde são e do que se fala quando deles se fala. Robots, o conceito do homem-máquina, a paixão pelo ciclismo, tudo isso são histórias que ganharam um lugar na caracterização da sua história. Porém, quando tudo começou, a ideia era sobretudo a expressão de uma questão de identidade. E foi ao tentar saber o que era afinal o seu “eu” que eles, como outros seus contemporâneos, encontraram um caminho.

Na Alemanha (ocidental) do pós-guerra a emergência de uma cultura jovem vivia, sem surpresa, sob a influência direta das potências ocupantes. A música dos americanos e ingleses ditava novos paradigmas. Sem revanchismos para com o “antes” alemão, mas antes com uma vontade de vislumbrar um futuro que fosse seu (ou seja, não ditado pela nova cultura dominante), uma nova geração de músicos procura caminhos que se expressem pela diferença. Tomando consciência de importantes vanguardas do pensamento musical que tinham referência maior em Kartheniz Stockhausen – que trabalhava então num estúdio da rádio estatal em Colónia – a emergente música electrónica, mais que a cultura free jazz que entretanto havia eclodido em algumas cidades alemãs, parecia indicar caminhos. Assimilando ideias e ensaiando o trabalho com novos instrumentos e possibilidades sonoras, toda uma geração entra em cena, experimentando ideias, ganhando dos jornalistas ingleses o rótulo “krautrock” que, convenhamos, não terá sido a palavra mais satisfatória de ouvir para quem estava associado aos acontecimentos em curso.

Ralf Hutter (antigo estudante de arquitetura) e Florian Schneider (filho de um arquiteto) são dois entre os mais que caminhavam nessa frente que procurava um caminho seu. Tinham começado a fazer música em finais dos anos 60 e, já como Kraftwerk, ensaiado primeiras ideias de abordagem às electrónicas em três primeiros álbuns editados sem grande impacte global – mesmo assim tendo já semeado algumas fontes de atenção. Kraftwerk (1970) sugeria ainda ligações possíveis com a cultura rock e expressava uma forma de pensar a composição entre heranças de liberdade aprendidas no jazz e um sentido de visão que ajudaria outros a inventar o progressivo. Um ano depois em Kraftwerk 2 o tema Kling Klang apresentava primeiras sugestões de uma abordagem rítmica mais arrumada, num caminho que voltariam a abordar em Tanzmuzik no álbum de 1973 Ralf & Florian. Mas faltava ainda algo. Se havia ferramentas (as electrónicas) e um indício de arquitetura rítmica de sons (que pouco depois seria conhecida sob o nome motorik), faltava ainda o tema que demarcasse definitivamente a sua geografia e o seu tempo.

A resposta chegou, curiosamente, de uma analogia com uma banda americana. Se os Beach Boys tinham encontrado no surf uma forma de cantar a “sua” Califórnia, os quatro alemães que então faziam a formação de então dos Kraftwerk poderiam celebrar a modernidade alemã através de um dos maiores feitos do pós-guerra: a construção de uma nova rede viária feita de autoestradas modernas onde se podia andar muito, e depressa. Ao cantar uma viagem numa auto-estrada, os quatro músicos de Dusseldorf encontraram a sua Califórnia. E, com descodificação imediata, o mundo entendeu-os e deu-lhes atenção.

Autobahn, é o tema-título com o qual os Kraftwerk apresentam o seu quarto álbum, em novembro de 1974. Não é ainda um álbum integralmente electrónico, uma vez que acolhe ainda a participação de outros instrumentos (nomeadamente a flauta e guitarra), mas ao longo do alinhamento o protagonismo das novas ferramentas é já bem visível.

O disco é o primeiro que vê o grupo a abraçar uma lógica conceptual que, daí em diante, caracterizaria a sua criação em álbuns futuros. Composição de 22 minutos ocupando todo o lado A do disco e revelando-se afinal uma longa canção, o tema-título Autobahn sugere um percurso numa autoestrada, integrando inclusivamente elementos de sonoplastia pensados para caracterizar o cenário. Reduzida a uma versão de três minutos, o tema seria pouco depois o primeiro êxito global do grupo. O lado B apresenta quatro temas adicionais, do ensaio de açucarada piscadela de olho ao melodismo pop em Kommetenmelodie 2 ao não metronómico Morgenspaziergang, que fecha o alinhamento com uma proposta que se afasta consideravelmente dos trilhos seguidos no resto do alinhamento.

Convém contudo lembrar que, a anteceder a edição de Autobahn, os primeiros sinais de uma nova abordagem à composição na obra dos Kraftwerk tinha chegado ainda em finais de 1973 com um single que dividia uma ideia entre ambas as faces do disco. Com o título original Kohoutek-Kometenmelodie, numa clara alusão ao cometa identificado em Março de 1973 pelo astrónomo Lubos Khoutek, os Kraftwerk propunham um tema instrumental com uma carga melódica até então nunca vista na sua obra, numa das duas partes do tema chegando mesmo a definir um padrão rítmico insistente. Os dois temas que apresentaram neste single seriam regravados de novo para pouco depois integrar o alinhamento de Autobahn, a maior diferença residindo no facto de terem trocado a ordem da parte mais rápida e mais lenta da composição. Ou seja, enquanto em Autobahn é a parte 2 que revela a luminosidade pop e o suporte rítmico mais insistente, no single essa mesma composição é apresentada como sendo a parte 1, ocupando assim o lado A. Era um single visionário para o seu tempo, mas passou ao lado das atenções. Kommenenmelodie 2 foi mais tarde reeditado como segundo single extraído de Autobahn, não conseguindo contudo repetir os feitos do tema-título do álbum. É, contudo, um interessante pedaço de electrónica visionária, ainda ingénua na melodia, mas firme num desejo de levar a pop a um terreno nunca antes visitado pelo homem. O tempo deu-lhes razão.

Autobahn foi um dos álbuns mais influentes dos anos 70 e teve em David Bowie um dos seus primeiros grandes admiradores.

1 Comment on 1974. Uma autoestrada na cultura pop

  1. Consegui uma copia em vinil (matriz original), lançado aqui no Brasil em 1975. Tem um som deste album que tocava numa “propaganda”, nas olimpiadas de 1984 ou 1988. Ja perdi ate a conta!! Consegui ate uma copia europeia em midia digital (CD). E como ja dizia David Bowie: “Rock é musica para emburrecer as pessoas.”

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