Últimas notícias

Quem Tem Medo de Palmer Eldritch?

Texto: ISILDA SANCHES

Publicado há 50 anos, “Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch” é um dos livros mais inquietantes de K. Dick. Mistura drogas e religião e antecipa muito do mundo em que vivemos

Em Janeiro de 1964, Philip K. Dick, que no ano anterior tinha ganho o Hugo Award com O Homem do Castelo Alto, foi batizado. Tinha 36 anos, fê-lo por opção própria, talvez sem convicção, mas com curiosidade. E terror. Uns meses antes começara a ser assombrado por um rosto robótico e ameaçador no céu, reminiscência da máscara de gás da I Guerra Mundial que o pai lhe mostrara em criança e que acabaria por ganhar proporções épicas e sobrenaturais na sua vida. K. Dick tentou livrar-se do rosto metálico através da psiquiatria. O médico perguntou-lhe se tomava, ou queria tomar LSD (era normal na época, consta que Cary Grant não só o fazia, como recomendava). Dick, apesar da reputação de junkie supremo, não estava muito interessado nisso. Terá tomado o alucinogénio uma vez mas o que passou foi tão terrível que não repetiu a experiência. As outras drogas que usava, sobretudo anfetaminas para assegurar um bom ritmo de escrita, também não explicavam a cara metálica no céu. Perante a veemência de Dick na sua visão, o psiquiatra ter-lhe-á perguntado se achava que tinha visto Deus. Talvez por isso, no regresso a casa, Dick tenha passado por uma Igreja Episcopal para se confessar. O padre ouviu-o e disse-lhe que tinha visto o Diabo. Nesse momento, Dick decidiu batizar-se. Queria ter proteção contra a máscara. O seu processo de preparação para o sacramento religioso corresponde mais ou menos à escrita de Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch, um dos seus primeiros livros com temática religiosa, também uma das suas obras mais estranhas e alucinadas, no sentido narcótico da coisa, e um dos livros preferidos pelo próprio K. Dick (embora a opinião sobre os seus próprios livros fosse inconstante).

A religião e as drogas são os pilares de Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch mas a sua génese é mais inocente. Dick começou os primeiros esboços depois de uma das filhas ter recebido o casal Barbie & Ken como prenda de Natal. Ele gostava de brinquedos, já havia alguns nas suas histórias, por isso transformou Barbie em Perky Pat e Ken no seu namorado, Walt, e colocou os colonos de Marte a viver outras vidas através deles. Para isso, no entanto, era preciso um ativador, uma droga chamada Can D, proibida na Terra mas vendida aos colonos com conivência da ONU, que controlava o processo de colonização da galáxia. O negócio dos bonecos, tal como o da Barbie, desenvolveu-se como um verdadeiro império. Miniaturas de objetos e roupas, escolhidas por precogs (recorrentes nas histórias de Dick), ajudavam a compor o universo para onde os colonos escapavam durante o transe, assumindo as personalidades de Perky Pat e Walt, vivendo nas “suas” casas, com as “suas” coisas, viajando em descapotável sob o sol de Los Angeles (embora, na época em que a ação decorre, temperaturas acima dos 70 graus tornem impossível andar na rua), partilhando alucinações e criando laços, encontrando temporariamente o Paraíso. Até que chega Palmer Eldritch e promete a vida eterna.

Eldritch é um ser quase mitológico com braços artificiais, dentes metálicos e olhos eletrónicos (os 3 Estigmas). A máscara que assombrava Dick. Ele controla uma nova droga, a Chew Z, muito mais potente do que a Can D, capaz de criar uma alucinação tão poderosa que se sobrepõe a tudo e agrega todos, um universo paralelo dominado pelo próprio Palmer Eldritch, que é tudo e está em toda a parte, como Deus. Ou O Diabo.

Conhecendo a história do batismo de K. Dick e as razões que o motivaram (esmiuçadas no livro I Am Alive and you Are Dead, biografia/ensaio de Emmanuel Carrère sobre Dick), é difícil não ver na toma, tanto de Can D, como de Chew Z, uma alegoria da comunhão durante a cerimónia religiosa, o que se torna ainda mais pertinente no contexto sociocultural da altura, com o LSD como chave das portas da perceção e todo o culto em redor dos estados alterados de consciência. Nesse aspeto, o livro é um retrato inteligente, negro e distópico da época em que foi escrito, do seu desconforto social, busca espiritual e fascínio pelas drogas. Integra-se numa corrente de pensamento que não se limitou à ficção científica mas foi particularmente evidente nela. Um ano antes da sua edição, William Burroughs tinha publicado Naked Lunch, é fácil encontrar ligações entre os 2 livros.

A questão de K Dick é sempre a mesma: O que é a realidade? Mas em Os 3 Estigmas…, um dos primeiros livros em que o autor se entrega à interrogação religiosa, começa a colocar outra dúvida fundamental: o que é Deus? Estas perguntas, interligadas, iriam ocupar Dick o resto da vida, tornando-se cada vez mais profundas e esotéricas com o passar dos anos, resultado de investigação teológica mais ou menos obsessiva que atingiu o auge em livros como A Transmigração de Timothy Archer (inspirado no bispo episcopal James Pike que discursou com Martin Luther King em Selma e era amigo pessoal de K. Dick mas que acabaria por ser renegado pela Igreja devido às atividades espíritas em que se envolveu depois do suicídio do filho) e Valis, ou no diário filosófico Exegesis, que escreveu freneticamente entre 1974 (um evento conhecido como 2-3-74) e 1982, ano em que morreu.

Dick era paranoico, sem dúvida. Na época em que escreveu este livro mandou internar a então mulher Anne R. Dick (que escreveu a biografia The Search For Philip K. Dick) por achar que o queria matar. Ao longo da vida, entre outras coisas, acreditou que era perseguido pelo FBI, vigiado pelos russos e que vivíamos numa projeção criada pelo Império Romano. Mas a forma como transportou a sua psicose para os livros reflete algumas das inquietações fundamentais do ser humano e coloca-o num patamar que transcende a ficção científica. A sua escrita, embora fluida e interessante, com ritmo, humor e clareza, não era suficientemente rica ou literária para se impor como original, Dick de resto tinha alguns problemas com isso e sofria por não ser levado a sério pela comunidade intelectual, mas as suas ideias sempre foram fortes e inquietantes de um ponto de vista social e metafisico e brilham hoje com uma intensidade profética. Passado no inicio do séc. XXI, Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch mostra um planeta onde os oceanos evaporaram, a Antártica é uma colónia de férias, há quem se submeta a intervenções grotescas de engenharia genética para “evoluir” e as grandes corporações dominam o planeta e galáxia, narcotizando os seus habitantes com simulacros do real. Chega a ser suspeita a forma como algumas das previsões de Dick se tornaram realidade e isso é válido para todos os seus livros. Talvez por isso, o seu nome, tal como o de Kafka, tenha sido promovido a adjetivo. O mundo em que vivemos aliás, tornou-se bastante kafkiano e dickiano.

Escrito em 1964, publicado em 1965, Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch é um livro desconcertante que coloca tudo em causa e não oferece, de facto, redenção final. Assustador e desafiante, mantém-se como uma das obras mais importantes do autor e um livro de leitura fundamental. Não tenham medo de Palmer Eldritch.

1 Trackback / Pingback

  1. Maio de 2015 | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: