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Uma história de violência

Texto: VÂNIA MAIA

A celebração dos 20 anos da Companhia Olga Roriz também se fez com a revisitação das dores do mundo. Propriedade Privada voltou à cena para nos obrigar a enfrentar os nossos pesadelos.

Os corpos dos bailarinos apresentam-se de forma fragmentada, através de braços, pernas, torsos… Que parecem tentar escapar-se pelas janelas claustrofóbicas do cenário, invocando um comboio com destino trágico. Dezanove anos depois, Olga Roriz voltou apresentar Propriedade Privada no CCB, em Lisboa (22 e 23 maio), no mesmo ano em que celebra quatro décadas de carreira e duas da sua companhia de dança. Do elenco original, subiu ao palco Carla Ribeiro, agora com 44 anos, que funcionou como uma espécie de ‘oráculo’, epíteto atribuído pela coreógrafa, no sentido de representar a memória em movimento da peça, assim como o rigor dos gestos exigidos aos novos bailarinos: Beatriz Valadim, Marta Lobato Faria, Sylvia Rijmer, André de Campos, Bruno Alexandre e Bruno Alves.

Inicialmente pensada como uma homenagem aos 100 anos do cinema, esta que é uma das coreografias mais marcantes da história da companhia (e uma das preferidas de Olga Roriz), atravessa as marcas que o cinema deixou na coreógrafa. Agressividade, sofrimento e violência compõem esta história dividida em fragmentos cinematográficos, mas também a História do século XX que perpassa ao longo do espetáculo, na voz off de Paulo Reis, com uma cronologia que lista acontecimentos tão marcantes como a morte de Eça de Queirós, o número de comboios enviados para campos de concentração pelo III Reich, a estreia de Último Tango em Paris ou o assassinato de Yitzhak Rabin.

Quando as simulações de interrogatórios, torturas e violações se aproximam do insuportável, impõe-se o desejo, a sensualidade, que nos dá espaço para uma fuga momentânea, como o belíssimo solo ao som de La Chanson des Vieux Amants, de Jacques Brel. Mas o perigo é iminente. O desejo rapidamente desperta a animalidade do homem. Um equilíbrio instável, como o da bailarina que sobe para o cenário e o percorre em bicos de pés. Afinal, o lado animal do homem é também um dos seus lados humanos, assustadoramente humano, e não o ver é um dos nossos principais problemas, como acredita o filósofo italiano Giorgio Agamben.

O filme de Cronenberg, Uma História de Violência (2005), não era, sequer, uma possível referência à data de estreia do espetáculo, em 1996, no Teatro Nacional de S. João, no Porto, mas a sombra ténue que separa heróis e monstros também está presente em Propriedade Privada.

O som do corpo dos bailarinos a embater no cenário faz parte da banda sonora do espetáculo, juntamente com Gustav Mahler, Harold Budd, Pascal Comelade, ou a canção de Mary Poppins, entoada por Carla Ribeiro, enquanto decorre uma cena de tortura, incómoda e dura, que nos deixa no limbo entre o inferno e o purgatório. Dezanove anos depois da estreia, o corpo, último reduto de ‘propriedade privada’, permanece em perigo. Este ataque profundo mobiliza o corpo por todos os meios, seja pela cirurgia estética, o aperfeiçoamento genético, a flexibilização do trabalho ou a violência, por exemplo, de um naufrágio no Mediterrâneo que rapidamente o transforma em mera carne. Além do Corpo, completam o tríptico a Alma e o Crime: «O crime é esquecer a maldade, a doença e a fome. O crime é vestirmos seda sobre corpos de pedra, é virarmos a cara para não ver. O crime é também não chorar, não sofrer, não ter medo de morrer, de deixar morrer», dizia Olga Roriz à data de estreia.

A peça, que chocou muitos devido às referências ao Holocausto, apresenta-nos um mundo, aparentemente, sem espaço para a redenção. Propriedade Privada voltou, assim, a colocar-nos perante a possibilidade não de redimir o que aconteceu, mas de procurar salvar o que ainda não foi feito.

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