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Mau tempo no canil

Texto: NUNO CARVALHO

Em ‘Deus Branco’, o húngaro Kornél Mundruczó constrói uma parábola sobre a revolta dos injustiçados que, além de uma óbvia dimensão política, se abre também a uma leitura metafísica. O filme acaba de ser lançado em DVD entre nós.

Quando vemos Deus Branco, a sexta longa-metragem do húngaro Kornél Mundruczó, o primeiro termo de comparação cinematográfico que obrigatoriamente nos ocorre é Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. Porque, tal como nesse influente filme do mestre inglês, o que está aqui em causa é a revolta de uma espécie do mundo animal – no caso, a canina – em relação ao homem, ou, mais concretamente, perante quem deveria ser cuidador mas que se tornou abandonante ou agressor, deixando um sentimento ou uma sensação de injustiça (sim, porque os cães também sentem e, ao contrário do que é hábito dizer-se – que são animais irracionais –, têm mesmo a sua forma própria de “racionalidade”). Porém, há um outro filme que pode ser invocado na aproximação a este: Cão Branco (1982), de Samuel Fuller, sobre um homem que tenta “reeducar” um cão treinado para matar negros. Mas se nesse filme baseado no livro homónimo de Romain Gary se tentava reconverter a natureza agressiva de um cão, em Deus Branco passa-se o contrário, ou seja, o protagonista canino, inicialmente meigo e dócil, torna-se violento como resposta à forma como foi destratado.

A história do filme centra-se em Lili (Zsófia Psotta), uma rapariga de 13 anos filha de pais divorciados que passa uma temporada com o pai depois de a mãe a deixar à guarda paterna por motivo de uma viagem de trabalho. A acompanhar Lili vem Hagen, um labrador rafeiro castanho que parece ser o melhor amigo e companhia da miúda. Acontece que Dániel (Sándor Zsótér), o pai, não gosta de cães e não está para pagar uma taxa para tê-lo no apartamento, resultando essa rejeição no abandono do cão no meio da rua. A partir daí a câmara de Mundruczó passa a seguir maioritariamente as desventuras de Hagen e a luta pela sobrevivência de um animal doméstico em condições hostis. Desde a busca solitária por alimento até chegar ao ponto de cair nas mãos de um homem que o treina para com ele ganhar dinheiro em lutas de cães. Até que Hagen vai parar ao canil da cidade, onde se torna o agente de uma tempestade revoltosa dos cães abandonados, maltratados e violentados de Budapeste.

Deus Branco tem uma dimensão obviamente metafórica, constituindo uma parábola fácil de entrever sobre as relações de poder, a hierarquização das espécies, a rebelião e o motim dos injustiçados ou mesmo uma alusão à ideologia fascista e totalitária que considera “lixo” as raças “impuras” (numa altura em que a Hungria é liderada por uma figura como Viktor Orbán esta não deixa de ser uma leitura possível e perturbante). É verdade que esta parábola não é das mais subtis e refinadas, mas não deixa de ser próprio das narrativas alegóricas perceber-se que pretendem aludir ao que aludem, e que muitas delas têm uma carga política cuja mensagem em certas alturas é preciso fazer passar com mão de chumbo. Já a dimensão teológica, que também lá está, é muito mais invisível e subtil, apesar de o título do filme a evidenciar. O “deus branco” pode ser entendido como neutralidade metafísica e silêncio divino perante as clamorosas injustiças do mundo e o sofrimento dos que são contagiados com o vírus do mal. O mesmo silêncio, aliás, que o anterior papa imputou a Deus perante o Holocausto. Talvez Deus seja tão imparcial que não tome partido, mas talvez devesse tomar para evitar o relativismo moral que acaba sempre por conduzir à indiferença e à sensação desesperante de que é tudo igual ao litro. Lars von Trier chegou a dizer em Cannes, há uns anos, para grande escândalo de muitas cabeças bem-pensantes, que compreendia Hitler. Perante o “deus branco” do nosso tempo, na sua indiferença perfeita, também nós compreendemos de certa forma a revolta metafísica que levou o führer a dizer estas palavras: “Nós não capitularemos. Nunca. Podemos perder. Mas levaremos o mundo connosco.”

“Deus Branco”
Realização: Kornél Mundruczó
Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsótér, Lili Horváth
Edição: Alambique
(4/5)

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