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Três boas surpresas de Cannes

Texto: NUNO GALOPIM, em Cannes

Sem a mediatização dos títulos que integram a Seleção Oficial, houve entre algumas secções paralelas momentos que vale a pena reter entre o que de melhor se viu na 68ª edição do Festival de Cannes.

"Ni le Ciel ni la Terre"

“Mustang”, de Deniz Gamze Erguven

Uma das boas surpresas da programação da Quinzena dos Realizadores – a mesma que acolheu as Mil e Uma Noites de Miguel Gomes – chegou da Turquia. Primeira longa-metragem de Deniz Gamze Erguven, Mustang não evita contudo fazer um flirt às plateias ocidentais, o que talvez se explique pelo facto da realizadora ter crescido em França e de contar, na escrita do argumento, com a colaboração da francesa Alice Wincour.

Esta é contudo uma história da Turquia do nosso tempo. Uma história no feminino, vivida entre cinco jovens irmãs que habitam numa casa nas imediações de uma povoação na costa do Mar Negro e cuja liberdade e sensualidade é vetada e abafada por uma moral castradora que dita as regras pelas quais a comunidade vive um quotidiano de repressão.

Os olhares de uma vizinha – que nunca são apenas olhares, mas logo comentários, relatos e queixas – dão conta de que estavam na praia com colegas, rapazes, depois do último dia de escola. É o ponto de partida para uma espiral de atitudes castradoras do tio e avó (mais o primeiro que a segunda), que as educam, fechando-as em casa, obrigando-as a usar vestidos neutros e compridos, ensinando-lhes culinária e outras artes da lida doméstica. O futuro imagina-as casadas e iguais às outras vizinhas. Uma a uma são pedidas em casamento. Até que a revolta estala, mostrando sobretudo a mais nova das cinco irmãs uma vontade determinada em não ceder a uma ordem à qual não se quer sujeitar.

Há aqui alguns paralelos possíveis com o que há uns anos vimos em As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola que nos mostrava sinais igualmente castradores e violentos numa sociedade bem distinta mas onde uma certa pulsão moralista acaba por ter contornos algo semelhantes. Luminoso (tanto na fotografia como na caracterização das cinco irmãs), Mustang mostra como, mesmo numa sociedade dominada por regras anacrónicas, a força que questiona velhas ordens acaba mais tarde ou mais cedo por emergir.

 

“Degradé”, de Arab e Tarzan Nasser 

Apresentado na Semana da Crítica, Degradé, dos irmãos gémeos palestinianos Arab e Tarzan Nasser representa outro invulgar olhar sobre tempos de guerra. Tal e qual explicaram antes da exibição do filme, mostrado em estreia mundial, o eclodir de novos focos de luta em 2014 fez com que os pedidos que lhes endossaram para que concentrassem o filme no conflito armado os fez manter-se todavia fiéis a uma vontade de mostrar outros aspetos da vida e não apenas da morte em Gaza, sublinhando contudo que, como o filme mostra, o contexto afinal não deixa de estar presente.

Degradé é um huis clos, fechando a narrativa num salão de cabeleireiro onde, ao mesmo tempo que na rua se desencadeia e intensifica um tiroteio – como resposta ao roubo, por uma família, de um leão no jardim zoológico local que serve de gatilho para ajustes de outras contas –, um grupo de mulheres espera a sua vez de ser atendida por uma emigrante russa e uma ajudante local. É entre os diálogos e a caracterização deste grupo de mulheres que os irmãos Nasser encontram a pulsão de vida que nos transporta assim ao outro lado do que contam as notícias. Muito diferentes entre si, representando várias formas de estar na sociedade (e na sua relação com a religião), as clientes dão voz distinta, mas não distante nem indiferente, ao mundo protagonizado por homens que naquele momento luta na rua e chegará depois, pelos jornais, até mais longe. O dispositivo tem algo de teatral na forma como as dispõe no espaço e valoriza diálogos que ocasionalmente sugerem alguns instantes de comédia. Os enquadramentos que muitas vezes se socorrem dos espelhos para ver detalhes ou acompanhar reações e olhares, o tratamento da cor por uma direção de fotografia que garante coesão sóbria a todo aquele espaço e o trabalho de som que sublinha a tensão do que sucede fora de campo são valores acrescentados de uma estreia deste par de realizadores que é nome a juntar em lugar de destaque à história – em curso – do cinema palestiniano.

 

“Ni Le Ciel Ni La Terre”, de Clément Cogitoire

O esbatimento entre o que poderiam ser as fronteiras entre o realismo e a fantasia, entre a razão e a fé, entre os factos e os mitos, habita a alma de um dos mais interessantes entre os filmes que integram a seleção apresentada este ano pela Semana da Crítica, secção paralela do Festival de Cannes com uma história que remonta a 1962. Primeira longa-metragem do francês Clément Cogitoire, Ni Le Ciel Ni La Terre coloca-nos numa zona de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão numa altura em que os contingentes militares ocidentais estão em processo de retirada. Mas contra o que poderíamos esperar de um filme de guerra num cenário recente com o qual talhámos um relacionamento através dos noticiários, a visão deste realizador com algum trabalho já antes feito no cinema documental não podia ser mais inesperada e desconcertante face ao que se foi contando entre os ecrãs de televisão e as páginas dos jornais. No fundo, talvez para nos lembrar de quão absurda a guerra pode ser.

Apesar do evidente protagonismo de um capitão francês (interpretado por Jéremie Renier), o corpo de militares estacionados naquele posto fronteiriço surge como um sujeito coletivo que nos coloca no local, do seu dia a dia de vigilância e da sua interação com as tribos locais – em registo claro de poder exercido do ocupante sobre o ocupado – nascendo o retrato do pouco que acontece onde não parece haver mais senão montanhas, poeira, homens e ovelhas. O desaparecimento inexplicado de vários homens ao longo de algumas noites, que afinal sucede também do lado dos talibã que tentam impedir que cruzem aqueles caminhos, lança-os numa busca tanto pelos soldados desaparecidos como pela possível explicação do sucedido. As palavras de um rapazito, que interrogam, alertam para o facto de aquela ser uma região sagrada, na qual se diz que quem adormece sobre o chão dali é retirado.

O debate entre a razão e a crença ganha corpo e domina depois o filme. O capitão, decidido a encontrar motivos, métodos e até mesmo os desaparecidos (até porque há justificações a prestar oficialmente aos superiores e famílias), arregaça as mangas e chega mesmo a dialogar com o inimigo. Ambos perderam gente nas suas fileiras. Mas cada um o explica de modo diferente. Como diferentes são também os medos que ali enfrentam.
Sob uma narrativa bem construída Clément Cogitoire faz de uma impressionante dieta de recursos um filme capaz de suportar de fio a pavio todos estes jogos de tensão. Rodado em Marrocos – na impossibilidade de um orçamento que os transportasse mais perto do local “real” – Ni Le Ciel Ni La Terre tem em Restrepo, de Sebastien Junger e Tim Hetherington (documentário de 2010 sobre a presença militar precisamente em cenário agefão) uma referência maior. Mas é no minimalismo de elementos, na nudez do cenário de montanha e na concentração de atenções nas atitudes, gestos e olhares que o realizador conduz um filme que não tem muitos instantes de distração. O choque entre uma situação que parece transcender a razão e o realismo dos comportamentos e imagens é valor que argumento e realização seguram com rara solidez para uma primeira obra. E pode agradecer parte dos louros à boa direção de fotografia de Sylvain Verdet e à opção de, nas cenas noturnas, usar câmaras de vigilância e de sensibilidade térmica que sublinham mais ainda a força de carne e osso real de uma história cujas explicações podem ir para lá do nosso plano de existência.

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