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Num palco de ópera…

Texto: NUNO GALOPIM

Uma ópera dentro de um filme e um filme dentro de uma sala de ópera. Um presente que visita o passado e um passado que afinal se cruza connosco no presente. Uma história de ficção que usa outras ficções como matéria prima. É assim que caminhamos não só entre a música de Mozart, as vozes de alguns nomes de referência do canto lírico da atualidade e um olhar sobre uma figura que o tempo mitificou, retratado todavia para lá dos denominadores comuns com que tantas vezes foi já apresentado. Rodado em grande parte no Teatro Nacional de São Carlos (em Lisboa), Variações de Casanova, de Michael Sturminger, não só é um interessante olhar (diferente) sobre a figura de Giacomo Casanova (aqui interpretado por John Malkovich) como representa mais um momento de diálogo entre os universos do cinema e da ópera.

Uma das mais importantes formas narrativas que a história da música nos deu, a opera cruzou-se já em vários momentos com o cinema. Assim foi, por exemplo, quando Ingmar Bergman filmou uma Flauta Mágica (de Mozart) em 1978 ou Franco Zefirelli, nos deu a sua visão da Traviata (de Verdi) em 1982, isto para não falar das muitas ocasiões em que aqui e ali, tantos realizadores trouxeram excertos já gravados (em disco) de óperas para as bandas sonoras dos seus filmes. De resto, a Cavalgada das Valquírias  (da ópera A Valquíria) e a abertura de O Ouro do Reno, ambas de Wagner, ganharam uma relação difícil de dissociar das sequências em que as escutámos respetivamente em Apocalypse Now de Francis Ford Coppola (a célebre cena do ataque dos helicópteros) ou O Novo Mundo de Terrence Malick (logo na abertura do filme, com os navios a entrar rio acima). Woody Allen, que tantas vezes tomou o jazz como “voz” musical do seu cinema, levou-nos inclusivamente a uma sala de ópera em Match Point a sublinhar que estava então bem longe de Nova Iorque e das suas zonas de conforto habituais. Patrice Chéreau conciliou ao longo de anos o trabalho no cinema com a direção e encenação em salas de teatro, tendo assinado várias (e importantes) produções de ópera. E Philip Glass, nos anos 90, tomou o histórico filme de Jean Cocteau La Belle et la Bête para, em sincronia com a ação (e até mesmo os movimentos dos lábios dos atores) criar uma ópera com o mesmo título…

Michael Sturminger tem uma vida profissional feita entre a música e o cinema, com a ópera muitas vezes por perto. Mas o que nos propõe com Variações de Casanova é algo diferente daquilo que o cinema até aqui experimentara nas suas diversas ocasiões de troca de ideias, espaços e sons com a ópera. Com a História da Minha Vida, de Giacomo Casanova como referência que define a personagem e elementos da narrativa, o filme evoca a figura do “sedutor” mais falado do seu tempo evitando reduzi-lo ao cliché habitual (pelo contrário, vemo-lo como um solitário desencantado) e empregando árias de três óperas de Mozart para “contar” alguns episódios. Em concreto – e tal como acontecera antes em palco – o filme usa momentos de As Bodas de Fígaro, Don Giovanni e Cosí Fan Tutte, precisamente as três óperas que Mozart compôs para libretos de Lorenzo da Ponte, o que faz deste último, de certa maneira, uma das presenças mais influentes na criação do argumento.

O espaço da sala do Teatro São Carlos (dentro do palco, na plateia e camarotes ou bastidores) alterna com o de um velho palácio sugerindo uma coexistência de tempos e lugares distintos numa narrativa que evolui com importantes contribuições de vozes como as de Jonas Kaufman ou Barbara Hanningan (entre muitas mais) que assim se juntam às de atores como Malkovich ou Fanny Ardant e à determinante contribuição do maestro Martin Haselböck (que vemos no fosso da orquestra) para nos contar uma história que, mitificada há muito, é coisa do passado mas que se respira e, afinal, pode contar-se de outros pontos de vista no presente.

As Variações de Casanova, de Michael Sturminger, com John Malkovich, Fanny Ardant, Veronica Ferres, Jonas Kaufman, Barbara Haningan, tem agora edição em DVD pela Leopardo Filmes.

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