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Conto de verão

Texto: NUNO GALOPIM

“Alamar”, que andou pelos festivais há uns quatro anos, é mais uma contribuição para o repensar das linguagens do cinema documental

Há duas maneiras bem distintas para vermos Alamar, documentário de Pedro González-Rubio que correu o circuito de festivais entre 2009 e 2010. Ou limitando-nos a contemplar o espaço de fuga e liberdade que as imagens colocam pela nossa frente, saboreando-as quase como um manifesto idílico como a ficção poderia imaginar. Ou procurando saber afinal quem são aquelas pessoas, o que as levou até ali e o que as experiências que vivem à nossa frente representarão depois de lido “The End” quando chegar a hora dos créditos finais.

Na verdade pouco ficamos a saber para lá do que vemos. E o que vemos? Vemos um casal que teve uma breve relação da qual nasceu um filho. Ela vive num apartamento em Roma. Ele numa cabana sobre estacas (e com as ondas a passar por baixo) num atol a 35 quilómetros da costa mexicana, já em pleno mar das Caraíbas. O pequeno Natan vai passar uns tempos com o pai. Durante um verão acorda com o mar e os animais por perto, respira o calor sobre as águas do recife, vive da pesca (com o pai e o avô), come a barracuda e a lagosta que apanham…

Sob um registo documental, acompanhando todavia bem de perto as várias figuras em cujas vidas entramos momentaneamente, Alamar vive na fronteira entre uma noção de retrato de realidade e a construção de uma narrativa que, pela presença da câmara (que parece invisível), necessariamente ganha contornos de construção narrativa.

Se nos deixarmos encantar pela sucessão de quadros visuais, naquele ritmo lento como o do marulhar das ondas que deixam a rebentação para lá do recife e não chegam à ilhota no centro do atol onde vive o pai de Natan, então Alamar é uma experiência de tranquila libertação (sobretudo para nós, encaixados nas rotinas de vivências urbanas), o olhar sobre o paraíso perdido que é o Banco Chinchorro podendo até levantar um debate social e ecológico sobre até onde devemos agir quanto ao estado semi-selvagem em que a vida ali se faz. A placidez da relação que se estabelece entre pai e filho, o aprender dos modos da vida longe da cidade, a facilidade com que o pequeno fala espanhol e a beleza pura de uma paisagem naturalmente desarrumada e arrebatadora são argumentos que conquistam o olhar. É certo que nunca ficaremos a saber mais sobre a relação entre o pai e a mãe do pequeno protagonista, que visita afinal é esta, se foi experiência pontual ou se repetirá no futuro e de que forma agirá no pequeno ao regressar a Roma… Confesso que, mesmo sem saber quase nada, a contemplação dos raros episódios de liberdade e o fulgor tranquilo das imagens que envolvem as personagens foram suficientes para fazer de Alamar uma bela experiência de cinema. No fundo, não poderemos, mesmo perante um documentário, imaginar nós mesmos o que falta à história tal como fazemos em tantos filmes de ficção?

“Alamar” está disponível em DVD em edição pela New Wave Films

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