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Desesperadamente à procura de Orlando

Texto: VÂNIA MAIA

A partir do livro de Virginia Woolf, Sara Carinhas e Victor Hugo Pontes tomaram Orlando e fizeram-no seu. Os quatro elementos reunidos numa ode ao nascimento e à morte, sem medo de renascer

Foto: José Caldeira

O pequeno Éden improvisado em cena não é habitado por um homem e uma mulher, antes por um ser andrógino que oscila entre ambos. Sara Carinhas dá-lhe vida não só através das palavras de Virginia Woolf – que escreveu Orlando em 1928, quando interrompeu a escrita de As Ondas – mas também através do que da leitura do romance ressoou na atriz e no coautor e encenador da peça, Victor Hugo Pontes. Além das palavras, o movimento atribui uma dimensão profundamente corpórea a este Orlando, sugando-o para a realidade: “Será que eu existo ou foi ela que me inventou?”, questiona a personagem, a dado momento.

Depois da estreia em abril no Teatro Municipal do Porto Rivoli, Orlando teve duas apresentações em Lisboa, na pequena sala de ensaio do CCB, nos dias 29 e 30 de maio. O romance de Virginia Woolf conta a história de um jovem do séc. XVI que vive quatrocentos anos na plenitude da sua juventude e que um dia se transforma em mulher. O género faz, por isso, parte das interrogações do espetáculo. Se, à primeira vista, questionar a obrigatoriedade das mulheres usarem saias compridas nos poderá parecer anacrónico, a mensagem torna-se mais evidente quando se questionam outros espartilhos das convenções sociais. Afinal, seremos nós que usamos a roupa ou a roupa que nos usa a nós? Seremos nós que escolhemos livremente o que vestimos em harmonia com a nossa identidade? Ou será que o que vestimos é que determina quem podemos ser, pelo menos aos olhos dos outros? Teremos direito a renascer?

A presença dos quatro elementos é notória. A terra do jardim, de onde é possível desenterrar os ossos de uma mão (“Será que precisamos de tomar pequenos pedaços de morte para conseguir viver a vida?”), a água de um lago de infância longínquo, o fogo do livro que, literalmente, arde em palco e o ar que a dança inevitavelmente desloca. Como lembra Pedro Sobrado no texto que escreveu sobre o espetáculo “a dança é uma linguagem de uma poderosa incerteza”.

Aqui, o corpo funciona como elo entre literatura, teatro, honestidade e as emoções que se querem preservar, como um coração congelado.

Em semana de dupla premiação (Globo de Ouro e Prémio Autores de Melhor Atriz de Teatro pela peça A Farsa), Sara Carinhas é sublime, mas não ao ponto de ser “tão brilhante que perderia a realidade”, como é dito a dado momento acerca das cartas de amor. O tédio da perfeição.

“Vida, literatura. Converter uma na outra é monstruosamente difícil”, como é dito quase no fim do espetáculo. Orlando, escrito, dito e dançado, consegue-o, mais longe da perfeição do que da honestidade.

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