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Primavera Sound Barcelona de A a Z

Texto: PEDRO PRIMO FIGUEIREDO, em Barcelona

A Máquina de Escrever esteve na 15.ª edição do Primavera Sound de Barcelona. Nas vésperas da quarta edição do certame no Porto, ficam alguns relatos, memórias e canções daquele que é um dos mais importantes festivais de música do continente europeu.

Einstuerzende Neubaten - Foto de Dani Canto

Foram mais de 175 mil espectadores que passaram pelo Parc Del Fórum, em Barcelona, para ver ao longo de três dias concertos de colossos alternativos como Belle and Sebastian, Spiritualized ou Antony, mas também de novos talentos de música periférica, seja mais eletrónica ou voltada para as guitarras amplificadas. Antes e depois houve outros momentos de festa, e pela mais de dezena de espaços com música no Parc Del Fórum foram vários os apontamentos de destaque.

O ambiente é também particular: sabiam que o espaço de venda de bebidas é coordenado por uma empresa portuguesa e são cerca de 400 os portugueses a vender cerveja e demais bebidas a melómanos de todo o mundo? E que neste festival é possível circular lado a lado com Ariel Pink, Patrick Carney (The Black Keys) ou Panda Bear enquanto estes se deslocam de forma quase anónima para ver alguns concertos?

Tirámos um retrato do Primavera Sound de Barcelona – e de tudo à sua volta – de A a Z.

Apolo – Sala essencial no centro de Barcelona que acolhe um dia zero e um dia “mais um” do festival. Na quarta-feira, 27 de maio, por lá passaram Viet Cong e Juan Maclean em versão DJ. No domingo, dia 31, coube a Thee Oh Sees e Fucked Up fechar quase uma semana de festa na Catalunha. O Apolo é uma sala única potenciadora de noites únicas – meio caminho entre um Teatro Tivoli e o Coliseu dos Recreios, ambos em Lisboa, recebeu também um concerto especial dos Interpol na tarde de 28 de maio, quinta-feira, espetáculo complementar ao que a banda deu num dos palcos principais do Primavera Sound.

Barts – Sala em frente ao Apolo – é só atravessar a passadeira – onde também decorrem concertos no dia anterior e no seguinte ao da maratona no Parc del Fórum. Benjamin Booker e Torres estiveram por lá. É uma sala francamente bonita também que merece uma visita.

Can Eusebio – Dez cervejas geladas por 12 euros. Imediatamente atrás do Apolo, perfeito estágio para os interessados em dar tudo, ou perto disso, nos concertos de apresentação e despedida do festival. Imperdíveis e baratos calamares, fundamentais e quase oferecidas patatas bravas.

Diagonal – Nome da avenida que vai do centro de Barcelona ao Parc Del Fórum, junto ao mar. São uns bons quilómetros do começo ao fim. Recomendável uso de bons ténis/sapatilhas.

Einstürzende Neubauten – Blixa Bargeld continua uma figura icónica como poucas: quem gosta, adora, quem não conhece é no mínimo surpreendido. Lament é a novidade, registo conceptual sobre a Primeira Guerra Mundial editado no ano passado, e pelo palco passou um vibrador (!), vidros partidos, muito rock e muita catarse.

Futebol – Houve futebol no Primavera Sound. E não nos referimos somente ao concerto dos American Football. No sábado, 30 de maio, a zona da restauração do festival teve milhares de festivaleiros extra que foram alimentar-se de golos – foi noite de final de Taça do Rei em Espanha e o Barcelona levou de vencida o Atlético de Bilbau. Neymar e Messi brilharam em campo e também – de forma mais ou menos acidental – no Primavera Sound.

Giant Sand – Howe Gelb e amigos continuam em boa forma. Talvez não tenham um culto tão simpático em Espanha como em Portugal, mas não foram poucos os que se deixaram enfeitiçar por este rock tão americano quanto certeiro. A rever no Parque da Cidade.

Horses – Álbum clássico apresentado por Patti Smith na íntegra. Com garra e pujança, a veterana saciou os adeptos de sempre com um pedaço de história e conquistou certamente novos fãs entre aqueles mais conhecedores da nova brisa da espuma dos dias e menos da arte tornada história. Horses é um colosso e ao vivo, em 2015, revela-se ainda fundamental.

Interpol – Eficazes e certeiros, embora sem chama – dois grandes álbuns depois e um punhado de singles jeitosos entretanto, ainda não foi desta que nos convenceram totalmente em palco, mesmo colocados como destaque maior do festival. Chegará o dia?

James Blake – James Blake é um ovni. Faz música que ninguém faz, tem uma voz que mais ninguém tem. Ao vivo, tudo isto é maior que em disco: reverberações e canções, momentos para a pista de dança e toadas mais intimistas, e algumas novidades face à última vez que o havíamos visto, na edição do ano passado de Paredes de Coura. 200 Press, EP do ano passado, esteve representado em Barcelona com o seu tema-título, bojarda sonora dançante e ainda mais rija em palco, e houve um novo tema que aponta um caminho luminoso para o futuro disco de originais do músico. Radio Silence, assim se chamará o terceiro álbum de Blake, chega ainda este ano e a primeira amostra é um cruzamento de toda a obra até aqui – o tema ouvido em Barcelona mistura delicadeza e brutalidade dançante e é guiado por um loop de voz belo, quase demasiado belo para ser verdade. Tudo isto é uma maravilha.

Kevin Parker – Não, não houve Tame Impala na edição deste ano do certame – mas há disco novo prestes a sair e não será de estranhar o regresso do grupo a Barcelona em 2016. No ano passado deram um dos melhores concertos do evento e este ano destacaram-se…pela quantidade de melómanos ostentando T-shirts da banda

Last Nite – É talvez a mais reconhecível canção dos The Strokes e não faltou no concerto da banda de Julian Casablancas. Repertório menor em anos recentes não retirou em nada o impacto dos discos iniciais – Is This It, a estreia de 2001, foi tocado praticamente na íntegra e é ainda hoje o mais sólido conjunto de músicas do coletivo. A garra não é muita, a comunicação com o público ainda menos, mas quando as canções são boas, dificilmente um concerto pode ser mau. E o concerto dos The Strokes esteve longe de ser mau.

Mar – E uns banhos de mar ao começo da tarde antes dos concertos da noite? Barcelona, como Lisboa, como o Meco, como a Zambujeira do Mar, tem isso. É só substituir as sardinhas assadas por tapas e pintxos.
Nancy Whang – Outrora dos LCD Soundsystem, foi uma das DJ da “noite zero” do Primavera, no Apolo. Diz quem ficou, que valeu a pena. O forçoso descansar e poupar de pernas para os dias seguintes impediram a total comprovação da coisa.

Oasis – Dada a quantidade de ingleses no recinto, e os concertos emblemáticos em anos recentes de grandes bandas britânicas – Blur, Pulp, The Charlatans – não seria descabido pensar num regresso em força dos irmãos Gallagher. Fica a ideia.

Panda Bear – Auditório Rockdelux lotado para o músico mais próximo de Portugal que a edição deste ano do Primavera Sound viu. Já muitos elogios foram feitos a Noah Lennox este ano…e estes parecem ser sempre poucos. Figura incontornável e omnipresente em Barcelona, seja a solo ou com os Animal Collective (com quem tocou, por exemplo, no ano passado).

Quimet & Quimet – Provavelmente o melhor restaurante de tapas de Barcelona. Este ano não deu para visitar, mas quem gosta de tratar com decência o estômago não pode dispensar um passagem por aqui.

Run the Jewels – Duo marcante do hip hop de anos recentes, funcionam para a edição deste ano do Primavera (quer em Barcelona quer no Porto) como Kendrick Lamar funcionou no ano passado. Em Espanha outras prioridades no cartaz se sobrepuseram, mas na invicta não convém falhar.

Sleater-Kinney – Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss são tipas que sabem o que fazem. As canções das Sleater-Kinney aliam jogos de guitarra a um interligar de vozes – tudo isto é rock, tudo isto é belo, e do simples e despojado se fazem cantigas enérgicas, meio caminho entre a agressividade e a doçura. Sempre com pertinência e vigor. Ao vivo, há muitas do novo No Cities to Love e felizes regressos ao passado. Tudo com um grande som, um pertinente jogo de luzes, e muita, muita pinta. Um dos concertos maiores do festival.

Tori Amos – Presença rara em palcos europeus, era – com toda a justiça – um dos nomes mais esperados. Sozinha, ao piano, voz delicada e pele conservada, sacou um concerto emotivo que agradou a devotos de sempre e curiosos de passagem.

Underworld – E ouvir o clássico Dubnobasswithmyheadman, de 1994, tocado na íntegra pelos Underworld em 2015? Dark & Long primeiro e Mmm…Skyscraper I Love You depois e já a festa se fazia. O concerto foi no último dia e as pernas já não reagiam na plenitude, mas os méritos do duo são hoje, como em 1994, muitos.

Vermut – Vinho aromatizado – sabor entre o Martini e o Licor Beirão – que muitas casas de Barcelona têm. O melhor estará porventura no Electricitat, em Barceloneta, espaço que não deu para visitar porque de forma algo surpreendente esteve fechado durante as três tentativas de visita. Que seja para reabrir rapidamente. Ou, vá lá, até ao Primavera Sound 2016.

Walkin’ With Jesus – E um concerto de Spiritualized a fechar com uma versão de um tema dos emblemáticos Spaceman 3? Jason Pierce continua a fazer das suas. O alinhamento dividiu os fervorosos adeptos, mas o estatuto de ícone alternativo já ninguém tira a Pierce há vários anos.

Xavi – Emblemático jogador do Barcelona relegado esta época para o banco de suplentes. Não foram poucas, todavia, as T-shirts do futebolista que avistámos no recinto – menos contudo que o número de devotos de Messi (caramba, num dia vimos uma tatuagem do argentino nas costas de um adepto mais fervoroso. Valente).

(Anton)Y – Uma pequena batota para meter este Y no final de Antony. Conceptual, com orquestra e respeitador silêncio numa vasta plateia, foi uma das figuras do evento. Sensível e agridoce como sempre, apoiado em canções maiores e num alinhamento certeiro, agarrou os presentes com um espetáculo a que ninguém ficou indiferente.

Zero – Número de bandas portuguesas na edição deste ano do certame. No passado já tivemos PAUS (em dois anos) e Linda Martini.

Faltou referir, por exemplo, a pertinência rude e agressiva (elogio) dos Sleaford Mods, os HEALTH ainda e sempre com fulgor, a pop dançante de Caribou, as boas cantigas de Tobias Jesso Jr., e muito, muito mais.

O NOS Primavera Sound decorre no Parque da Cidade do Porto, de 04 a 06 de junho, entre quinta-feira e sábado, e vai ter, nos quatro palcos do festival, artistas como Interpol, Antony, Belle and Sebastian ou Run The Jewels, todos com passagem por Barcelona. Death Cab for Cutie e FKA Twigs também passam na invicta e são novidades face à edição espanhola. Manel Cruz e Bruno Pernadas representam a seleção nacional.

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