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Uma tarde entre discos de vinil (veja aqui as escolhas)

Textos de: ISILDA SANCHES, JOÃO LOPES, JOÃO MORGADO FERNANDES, MARIA JOÃO CAETANO e NUNO GALOPIM

Na tarde de domingo a Máquina de Escrever esteve na Fnac Chiado a passar discos e falar sobre eles. A ementa fez-se exclusivamente em vinil. E aqui fica a lista dos discos que ali tocámos.

A Máquina de Escrever esteve no passado domingo no auditório da Fnac Chiado para falar sobre (e tocar) discos em vinil. E aqui ficam as nossas escolhas…

Sufjan Stevens “Carrie & Lowell” (2015)
Foi a banda sonora de abertura e um belo exemplo para mostrar quão importante é saber escolher um bom gira-discos (não se chama leitor de vinil, ok?)… O disco é, até ver, a grande obra-prima do ano e assinala da melhor forma o reencontro do norte-americano Sufjan Stevens com a alma folk que está na base das suas referências musicais. Um disco dedicado à sua mãe e uma das mais belas obras do nosso tempo. – N.G.

Arthur Russell “The World Of Arthur Russell” (2004)
Apesar de hoje ser reconhecido como um dos nomes fulcrais da cena pós punk Americana, isso só foi “público” com esta coletânea da Soul Jazz que aglomerou peças dispersas e fez o adequado enquadramento. Russell tinha formação clássica, era um extraordinário violoncelista, colaborou com Philip Glass e Talking Heads, fez disco, punk funk…a sua atitude foi simultaneamente de inclusão e rutura. Recusou o que foi preciso na ortodoxia para mergulhar na cultura disco e transformá-la. Escolhi passar Wax the Van (assinado como Lola) porque é das minhas favoritas, é dub, disco e funky, tem piano e até tem algum rap. Mostra bem como um músico “sério” encontra a sua natureza na pista de dança. – I.S.

Neil Young, A Letter Home (2014)
A canções de Tim Hardin, Phil Ochs, Gordon Lightfoot, ou Bruce Springsteen, em versões gravadas no Voice-o-Graph, uma espécie de cabine telefónica em que, nos anos 50/60, qualquer um podia gravar um disco de vinil para oferecer. No caso, Neil Young envia uma bem humorada carta à mãe, falecido há 30 anos. A apologia da baixa fidelidade. – J.M.F.

The Beatles, “The Beatles” (1968)
Os Beatles como inventores do twist “à la carte”, She Loves You & etc?… Não simplifiquemos. Depois de Sgt. Pepper’s… e antes de Abbey Road, o lendário álbum branco constitui a montra fascinante de uma pluralidade criativa que vai da balada nostálgica dos anos 50 até às mais insólitas experimentações electrónicas — assim se faz um clássico. – J.L.

The Beatles “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967)
Se não fosse por mais nada, este disco valeria a pena pela capa. Ringo Starr, John Lennon, Paul Mc Cartney e George Harrison estão vestidos com os uniformes militares coloridos da “banda do sargento pimenta” e rodeados por imagens de gente famosa, de Edgar Allan Poe a Mae West, Lawrence da Arabia, Marilyn Monroe, Fred Astaire ou Karl Marx. Para além da capa, a música. Lançado em 1967, este disco junta uma verdadeira mixórdia de influências e géneros musicais, às vezes até na mesma canção (ouça-se A Day in a Life). É incrível como os Beatles conseguem ter num só disco a ingenuidade de When I’m Sixty-Four, o misticismo de Within You Without You, o optimismo de With a Little Help From My Friends e a tristeza de She’s Leaving Home. E já nem falamos dos múltiplos sentidos que todas aquelas letras podem ter e de que o exemplo mais famoso é Lucy in the Sky With Diamonds. – M.J.C.

Kraftwerk “Radio-Activity” (1975)
Faz em 2015 40 anos que os Kraftwerk lançaram o álbum que, depois das visões de Autobahn, levou ainda mais adiante a ideia de fazer canções com identidade pop usando electrónicas. Falámos na sessão sobre as duas leituras possíveis do sentido do disco, seja via rádio (como comunicação) ou focando a radioactividade, pela qual acabariam por vincar mais tarde as intenções do tema-título. Do disco escutámos Antenna. – N.G.

The Smiths “Hatful Of Hollow” (1984)
Os Smiths foram uma das referências da minha adolescência. Achava, como muita gente por esse mundo fora, que as palavras de Morrissey falavam por mim, ou eram para mim. Não se estranhe por isso que tenha comprado este disco por causa de How Soon Is Now (aquela parte do “and there’s a pub where you’d like to go, you could meet someone who really loves you, so you go and you stand alone, and you leave on your own and you go home and you cry and you want to die”, pode ser muito poderosa em qualquer fase da vida mas Morrissey soava terrivelmente dramático em pleno drama adolescente). Continua a ser a minha canção favorita dos Smiths (e acho que é a mais longa…) – I.S.

Jack White, Lazaretto (2014)
O som típico de Jack White, num disco Ultra LP, com o qual se pode brincar quase infinitamente: um lado que roda ao contrário, uma faixa a 45 rpm e outra a 78, ainda outra com duas entradas diferentes conforme o local em que cai a agulha e, pasmai, o holograma de um anjo que a luz faz saltar do centro do disco. O vinil a reinventar-se. – J.M.F.

“Ein Heldenleben” (Richard Strauss), por Herbert Von Karajan (1959)
Juntamente com Gustav Mahler, Richard Strauss é um compositor que nos ajuda a compreender o paradoxo (continuidade & ruptura) que liga a herança clássica e romântica do séc. XIX com as convulsões do séc. XX. Este poema sinfónico, concluído em 1898, pertence à respectiva fronteira, sendo Karajan, com a Filarmónica de Berlim, um dos seus mais sofisticados intérpretes.- J.L.

The Human League “Dare!” (1981)
Uma das bandas mais interessantes – e ainda hoje sobreviventes – da primeira geração da pop electrónica britânica, os Human League passaram pela tarde de escuta de discos com o seu mais importante álbum: Dare! E dele escutámos aquele que, ao contrário do que foi a tendência internacional (que elegeu Don’t You Want Me) foi o grande êxito no Portugal de 1981: Open Your Heart. – N.G.

Tia Maria Produções “Tá Tipo Já Não Vamos Morrer” (2014)
A Principe Discos tem feito um trabalho incrível na divulgação de jovens produtores de eletrónica dos arredores de Lisboa que reinventam, sem saber, as fórmulas da música de dança. Com louvores e consenso que ninguém se atreveria a adivinhar, a Príncipe é hoje a editora portuguesa mais conhecida internacionalmente (e parte disso tem a ver o magnífico artwork de Marcio Matos que pinta todas as capas à mão!). Os nomes mais conhecidos serão DJ Marfox (foi o primeiro a ser descoberto e quem foi apresentando nomes novos à editora, tocou o ano passado no MoMa, em Nova Iorque, fez recentemente uma remistura para Panda Bear) e DJ Nigga Fox (é quem tem perfil internacional mais forte, Flying Lotus estreou uma faixa sua no programa que tem na BBC Radio One), mas escolhi o EP de Tia Maria Produções por causa do título e porque tem a minha faixa favorita na Príncipe: O Tempo da Vida de DJ Lycox-. I.S.

Chet Baker, Chet (1959, reedição de 2015)
A reedição de um clássico instrumental de Chet Baker, muito bem acompanhado (Bill Evans, por exemplo). Há discos, como este, que exigem o cerimonial do vinil: a capa em grande formato, o intervalo entre cada lado, os breves segundos no início, mesmo algum estalido motivado pelo uso. Ouvir vinil é uma coisa romântica. – J.M.F.

Madonna, “I’m Breathless” (1990)
Antes houve Like a Prayer (1989), depois Erotica (1992). No meio, as canções do filme Dick Tracy, de e com Warren Beatty, representam uma fascinante derivação criativa em que, além do mais, Madonna ousa lidar com a infinita complexidade das canções de Stephen Sondheim. O lugar-comum garante que Madonna não tem história cinematográfica… Como? Importa-se de repetir? – J.L.

Philip Glass “Heroes Symphony” (1993)
Como juntar no mesmo disco Philip Glass, David Bowie e Brian Eno? A reposta está não apenas nesta sinfonia – que este ano teve finalmente edição em vinil – mas também numa outra que, em 1991, tomou o álbum Low como ponto de partida para a primeira experiência sinfónica do compositor norte-americano. – N.G.

Donna Summer “I Feel Love” (1977)
Foi uma compra dos últimos 10 anos, altura em que descobri o prazer de procurar discos em feiras. Como boa fã de Smiths e Nick Cave (que fui) não quis prestar muita atenção à música negra e de dança, por isso, e porque o dinheiro era pouco e havia muitos outros discos na lista de prioridades, “desprezei” durante algum tempo coisas extraordinárias como esta. I Feel Love, produzido em 1977 por Giorgio Moroder e Pete Bellotte é o clássico dos clássicos do disco eletrónico e, mesmo nos 3.45 que tem esta versão single (pouco mais de 1/3 da extended version), é intenso e, para o contexto da época, bastante revolucionário. – I.S.

“AM-FM”, The Gift (2004)
Se há uma história específica da pop portuguesa, The Gift constituem um dos seus mais legítimos, elaborados e coerentes testemunhos, ao longo dos anos consolidado através de uma crescente sofisticação de palco. Por alguma razão, temas como Driving You Slow adquiriram o valor de hinos de um genuíno conceito de performance e espectáculo.- J.L.

Norberto Lobo “Fornalha” (2014)
Um dos argumentos que muitas vezes explicam porque gostamos mais dos álbuns em vinil do que dos CD pode ter exemplo na capa deste que é o mais recente álbum de Norberto Lobo. A foto, nesta dimensão, vibra de outra maneira. Mas depois há também a música. E este foi mesmo o melhor disco português que ouvi em 2014. Passámos Pen Ward. – N.G.

Imagination “Just An Illusion” Lindstrom vocal mix (2007)
A cultura de reedits e a cena nu-disco dos últimos 12 anos fizeram muito pelo renascer do interesse no vinil, com sucessivas edições de máxis, nem sempre com créditos atribuídos, que recuperavam êxitos e fórmulas dos anos 70. O norueguês Lindstrom foi dos produtores que melhor reinterpretou as premissas do disco original e esta revisão do clássico dos Imagination mostra bem como consegue fazê-lo com o máximo de eficácia em pista usando o mínimo de teor de azeite (que nem era assim tanto neste caso, convenhamos). Tirou-nos das cadeiras para terminar a tarde a dançar. – I.S.

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