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Ric Hochet não podia ficar a descansar…

Texto: NUNO GALOPIM

O já veterano argumentista Zidrou juntou-se a Simon Van Liemt para assinar o 79º álbum de aventuras do jovem repórter, que reativa agora a sua vida editorial cinco anos após a morte de Tibet, o seu criador. A revista “dBD” dedica-lhe uma edição especial.

A maior parte dos grandes heróis nascidos na banda desenhada franco-belga entre os anos 40 e 70 do século XX estão ainda hoje vivos, embora entregues a outras mãos. Em alguns casos, como entre Michel Vaillant ou Astérix, a passagem de testemunho foi diretamente supervisionada por pelo menos um dos seus criadores originais, se bem que num modelo diferente daquele como, ao longo dos seus últimos anos de trabalho e vida, Jacques Martin foi progressivamente delegando em outros a condução dos destinos das várias figuras que foi criando. Ric Hochet, o jovem jornalista com queda particular para tramas que o colocam no caminho de grandes vilões, é mais um nome a juntar a esta geração de ícones vivos. Mas, tal como sucedeu com Blake & Mortimer, a sua segunda vida surge após um hiato inesperadamente ditado pela morte de quem lhe dera vida.

Nascido em 1931 em Marselha, mas tendo depois crescido na Bélgica (apesar de nunca se ter dado bem com o ensino do flamengo, obrigatório na escola), Gilbert Gaspard – mais conhecido como Tibet – lia em pequeno os jornais desenhados, desde cedo mostrando uma admiração pela figura de Tintin. De resto é a Hergé que, ainda cedo, mostra alguns dos seus primeiros desenhos, dele recebendo depois alguns conselhos. Mal imaginava que, depois de primeiros anos de trabalho entre outras publicações, acabaria no staff da revista Tintin, revelando ali, em pequenas histórias (apresentadas na forma de enigmas) ainda em finais dos anos 50, as figuras do comissário Bourdon e de Ric Hochet. Uma primeira narrativa, Signé Caméléon (desde logo com argumento de André-Paul Duchâteau), surgiria naquelas mesmas páginas em 1963 e, em 1964, um primeiro álbum dava-lhes vida independente, somando depois uma sucessão de aventuras e publicações, somando um total de 78 volumes quando, em 2010, a morte de Tibet deixa inacabado – um pouco como acontecera com Tintin e a Alph-Art de Hergé – A la Poursuite du Griffon d’Or.

Cinco anos depois o renascimento faz-se sob a condução de uma nova dupla criativa, juntando o desenho (de recorte clássico) de Simon Van Liemt a uma narrativa de Zidrou que, mesmo trazendo sinais de novidade (e modernidade) à personagem, não a retira do seu registo clássico, apontando de resto a ação aos tempos de confronto com o histórico Camaleão, figura que recordamos logo das primeiras aventuras de Ric Hochet, nos anos 60. A expressão de um certo classicismo que dialoga com as frestas de renovação entre as páginas de Descansa em Paz, Ric Hochet, deve muito também à atitude old school do desenho de Van Liemet, adepto do traço a cem por cento manual.

Rejuvenescido, mas com a carga de um veterano, o Ric Hochet de 2015 não se afasta portanto da figura que, quando surgiu entre os primeiros pequenos enigmas na revista Tintin e as primeiras aventuras depois também lançadas em álbum, cruzava a essência da alma da BD franco-belga com alguma contaminação dos comics americanos dos anos 40 e 50, entre a sua genética havendo algumas heranças do Maigret de Simenon (via comissário Bourdon) e do James Bond de Flemming (que então chegava ao cinema).

A história coloca Ric Hochet num inesperado confronto com um velho rival, munido desta vez de um plano pelo qual procura tomar ele mesmo o lugar do jovem repórter e, depois, apontar segunda mira a Bourdon. Entre os pormenores de uma cuidada reconstrução de cenários da França dos anos 60, note-se uma discreta presença da emblemática Paris Match numa mesa, logo na prancha de abertura.

Zidrou mostrou o texto a Duchâteau, que já tem mais de de 90 anos e que, na verdade, só lhe corrigiu dois pormenores linguísticos do francês. E depois do bom acolhimento que este regresso justificadamente recebeu, juntamente com Van Liemet o argumentista assinará em breve aquele que será o número 80 da lista de álbuns de Ric Hochet.

O regresso de Ric Hochet é assinalado por uma edição especial da revista dBD que junta a uma longa entrevista de arquivo com Tibet uma série de novas conversas, escutando os novos criadores da série, a viúva e filho daquele que imaginou a personagem, pequenos ensaios críticos sobre pranchas de vários álbuns e um encontro entre Duchâteau e Zidrou. Não falta, inevitavelmente, o cartoon de Vuillemin a abrir.

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  1. Junho de 2015 | Rascunhos

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