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A grande ilusão

Texto: NUNO CARVALHO

Refletindo as experiências de Ingmar Bergman como encenador, “O Rosto” (1958) é uma metáfora da criação artística e de como tudo na vida se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão. Um dos grandes filmes menos conhecidos do mestre sueco.

A verdade é triste. A verdade é um lago escuro e morto. A verdade corre o risco de não existir, e o universo de ser uma espécie de cebola cósmica que, em última instância, se descascada camada a camada, revelará a sua derradeira face, ou seja, o Nada. Por isso, porque tudo se sustenta pela crença e pela ilusão, podemos dizer que, de certo modo, todas as ideias são delirantes, na medida em que a realidade objetiva (a “coisa em si” kantiana) não pode ser conhecida, está-nos vedada, apenas podendo nós dela ter representações mentais. Mas a mente faz jus ao seu nome, isto é, mente-nos. No limite, e como advogam as filosofias hinduístas, a realidade é maya (ilusão), um manto de ilusões que cobre o “deserto do real”. Em traços gerais, é este o foco temático de O Rosto (1958), de Ingmar Bergman, que, como o cineasta refere no livro autobiográfico Images – My Life in Film, reflete as suas experiências como encenador no Malmö City Theatre entre 1952 e 1959.

Se podemos encontrar neste filme alguma verdade, essa verdade remete precisamente para o universo artístico e para a natureza do artista. Através da história de uma trupe itinerante de artistas de números “esotéricos” que é submetida a uma avaliação por parte de um pequeno colégio de autoridades da cidade sob acusação de charlatanismo, Bergman elabora uma metáfora sobre a natureza falsa e impostora da criação artística, em que o criador surge como uma espécie de embusteiro que cobre com sucessivas máscaras sedutoras e enganadoras a cruel e desoladora verdade do seu próprio rosto. Como se todos os homens fossem chamados a ser atores no teatro da existência humana, e como se ser e existir passasse sempre por uma mediação teatral da verdade, por uma tradução embelezada, civilizada e artificiosa de uma realidade que precisa de maquilhagem e acabamentos para não surgir em toda a sua chocante e vulnerável nudez.

A grande questão que atravessa este filme que na versão norte-americana conheceu o título The Magician é a da religião. Neste caso, a religião como véu protetor contra um universo ameaçador e sem uma entidade divina que confira um sentido maior à vida humana e, sobretudo, à morte. Albert Vogler (Max von Sydow), o mágico que lidera a trupe, e cujos “inexplicáveis poderes” são postos à prova diante dos seus céticos avaliadores, é um homem que perdeu a fé mas que, apesar de morto de cansaço existencial, continua a repetir o seu número desprovido de sentido, qual padre que repetisse um ritual litúrgico cujo simbolismo se tivesse esvaziado. Perante o Dr. Vergerus (Gunnar Björnstrand), que, no seu materialismo científico, acredita que tudo é mensurável e explicável, e que declara que o seu único interesse seria dissecá-lo e compreender a fisiolgia do prestidigitador, Vogler montará uma farsa que provará ter a capacidade de assombrar o cínico doutor. Bergman institui-se assim como o mágico que cria um espetáculo entusiasmante e assombrante mas que é de alto a baixo uma mentira, um truque, um jogo de espelhos (“smoke and mirrors”). Uma metáfora perfeita de como tudo na vida, começando pela própria ficção, se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão. O Rosto ganhou o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes de 1959.

“O Rosto” passa hoje e amanhã no Espaço Nimas, em Lisboa, integrado no ciclo Bergman Inesgotável

“O Rosto”
Realização: Ingmar Bergman
Elenco: Max von Sydow, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Naima Wifstrand, Bibi Andersson

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