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Uma noite luminosa

Texto: DANIEL BARRADAS

Pela mão da impecável editora Rune Grammofon, chega-nos da Noruega um álbum intrigante, que namora com a pop, o jazz, a folk e a música erudita, sem se comprometer com nenhum estilo. Há que parar para o ouvir.

A artista norueguesa Ingvild Langgård formou-se em artes visuais mas é também uma compositora multifacetada, seja a trabalhar para os seus vídeos, instalações e performances, seja em bandas sonoras para filmes e dança. Com o nome de projecto Phaedra, acaba de lançar o seu segundo album, Blackwinged night. A artista anuncia-o como fazendo parte de uma trilogia intitulada “mar-luz-noite”, correspondendo este à parte “noite”, sendo que o seu primeiro álbum The Sea era obviamente a etapa marítima. Agora esperamos pela “Luz”.

Se há elogio que se possa fazer a um disco nos dias que correm é chamar-lhe “intrigante”. Quando os serviços de streaming nos permitem saltitar a nosso bel-prazer do entre o que nos apetece e “desapetece”, é de valor encontrar música que nos faz parar e tentar perceber o que é que se passa ali.

A música de Phaedra soa-nos sempre a qualquer coisa já ouvida mas fascina porque nunca chega a caber bem no molde. O álbum abre com Lightbeam, que começa por soar a canção de embalar com letra de oração (“Little lighbeam in the dark, lead me by your glowing spark…”), mas logo se transforma em algo que nos lembra a folk celta. Poderíamos até falar em semelhanças com alguns momentos da Banda do Casaco (!). À segunda canção já estamos em qualquer coisa que poderia ter saído de um álbum de Siouxie, e depois lá mais para diante aparecem os dois longos momentos do disco, Blackwinged night e Mend me que quebram com o formato canção e seguem a sua própria lógica. Chamemos para estes as referências de Anna Von Hausswolff e William Ryan Fritch.

O fio condutor capaz de nos guiar por este labirinto de espelhos é a voz segura, luminosa e cristalina de Ingvild, acompanhada por orquestrações inteligentes em que os instrumentos dialogam entre si, surpreendendo-nos a cada momento. Destaque-se o final, Finally unfolding, em que a secção de cordas e os sopros se entrelaçam maravilhosamente.

Este é um disco que embora seja artisticamente programático nunca descura a beleza simples da melodia e resulta tão orgânico que mesmo nos seus momentos mais Frankenstein não se notam as suturas. Vale bem a pena dar-lhe tempo e deixar que se nos entranhe até que soe perfeitamente natural.

Phaedra
“Blackwinged night”
Rune Grammofon, 2015
4 / 5
http://phaedrasongs.com

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