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As cores de Jamie XX

Texto: ANDRÉ LOPES

Há muito esperado, o disco de estreia de Jamie XX surge como uma ode à noite londrina, mas traduz-se em elementos que reconhecemos também de outros enquadramentos.

Sendo um dos membros fundadores dos The XX e tendo editando singles em nome próprio desde 2010, Jamie XX assinara já também um ambicioso projeto de remistura de I’m New Here, o último disco de Gil Scott-Heron. Cinco anos depois, o seu álbum de estreia vê finalmente a luz do dia, num clima de alta expectativa. Algo que se deverá tanto à forma como habitualmente as suas produções estabelecem uma relação muito peculiar com o silêncio enquanto instrumento de trabalho, quer pelo modo como as pulsões dos ritmos que habitualmente cria pensam a pista de dança como, primeiro que tudo, uma arena para a introspeção.

A primeira faixa deste conjunto de canções vê a sua progressão ter lugar com recurso à manipulação mais ou menos dinâmica de samples, algo que não é de todo inédito, mas que marca um falso arranque para o álbum, que só a partir daí começa a revelar um espaço de conflito permanente entre a eletrónica downbeat e territórios lounge que recordam – a grande distância – fórmulas de pensar o ritmo muito típicas do trip-hop.

E é nesse impasse, nessa indecisão de catálogo que a música de Jamie XX mais bem respira, sendo capaz de proporcionar momentos de envolvimento maior, sendo disso exemplo as faixas Sleep Sound e Girl. Importa perceber que este não é portanto um disco de música eletrónica que se constrói a partir de ideias particularmente inovadoras; nada aqui é suficientemente robusto para chegar, por exemplo, perto da monumentalidade pós-melódica que Andy Stott conseguiu nos momentos mais fraturantes de Faith in Strangers (2014) ou de ƒIN (2012), o único registo longa-duração de John Talabot. Com este último, Jamie XX partilhou espaços de digressão e as influências do produtor espanhol deixam-se sentir facilmente.

Porém, o autor de In Colour insiste na ideia de que este é um trabalho inspirado pela cena noturna de Londres. Contudo, o que se escuta em disco vive para lá de uma dimensão contextual presa a geografias. Mantendo um cariz bastante cerebral ao longo da primeira metade do alinhamento, Oliver e Romy (colegas de banda nos The XX) surgem para emprestar a voz a alguns dos temas. No registo que já lhes é habitual, o sussurro sempre tão íntimo ajuda o ouvinte menos habituado a discos de eletrónica instrumental a absorver alguma melodia extra.

Hold Tight vive de uma interessante manipulação de ritmos que prontamente dão lugar a uma quebra brusca no andamento do disco com Loud Places e I Know There’s Gonna Be (Good Times), dois momentos em que Jamie XX se esquece do clube noturno e opta pelos ambientes radiantes do pôr do sol, onde ainda há demasiada luz… e demasiado rap, com Young Thug e Popcaan a surgirem do modo mais descontextualizado possível. Tudo isto, talvez em busca de um qualquer angariar de ouvintes vindos de outras frequências.

Felizmente, esses dois momentos não apagam o restante alinhamento, no qual podemos escutar um conjunto de ideias que, sem rodeios, mostram como Jamie XX solidificou o seu papel de produtor e no qual, sim, existe uma identidade criativa digna de atenção e mérito.

Jamie XX
“In Colour”
Young turks
4/5

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