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Dez ‘blockbusters’ nascidos nos anos 80

Seleção e texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Uns venderam mais bilhetes do que outros, uns resistiram melhor à passagem do tempo. Mas todos eles foram filmes que fizeram história nos anos 80. E hoje alguns podem ser já recordados como peças de culto.

Cena de "Blade Runner - Perigo Iminente"

Escolher dez filmes da década de 1980. A tarefa é das mais difíceis que se podem imaginar. E, se excetuarmos académicos ou público mais velho que cresceu com o cinema de outros tempos (como as belas castas das décadas de 1940 e 1970, por exemplo), uma lista inevitavelmente limitada vai sempre deixar muita gente arreliada. Ainda bem. Essa impossibilidade de consenso é saudável e só confirma a importância desta década para a explosão dos grandes estúdios, com a maximização dos cartazes dos filmes de Verão – cada vez maiores, mais espetaculares e coloridos –, a publicidade agressiva às estreias que parecia estar em todo o lado e aumentava a expectativa, uma certa inclusão de várias faixas etárias no público-alvo (a linguagem family frendly e livre de palavrões e a quase ausência de nudez, sem deixar de apelar aos mais exigentes) e a chegada em força do home video, criado no final da década anterior e que aproximou o público do cinema, de certa forma banalizando-o. Em suma, os anos oitenta consolidam o “cinema comercial”, criado para esse conceito fantasma do “grande público” e, por essa razão, de qualidade variável, levando muita gente a recear a morte do cinema de autor. Mas, diria Oscar Wilde, os rumores dessa morte foram manifestamente exagerados. Ao contrário do que vemos acontecer com a profusão de remakes, sequelas e filmes de super-heróis rápida e preocupantemente esvaziados de substância, as obras daquela década marcavam quem as via e ecoavam pelas gerações seguintes. Pela insistência em remakes de filmes de então, parecem continuar a ecoar.

Porque não aproveitar, então, o aniversário (completa 30 anos este mês) de Regresso ao Futuro, primeiro filme da trilogia homónima realizada por Robert Zemeckis, para revisitar os dez melhores blockbusters da década de 1980? Na década da presidência de Ronald Reagan nos Estados Unidos da América, o tema dominante foi mesmo o espaço e o futuro, culminando na promessa quase caricata de Reagan em instalar um sistema de defesa do país na órbita da Terra, que desintegrasse qualquer míssil, projétil, objeto voador ou outra ameaça que viesse dos céus para ameaçar solo americano. Um sistema que, sem coincidências, ficou popularmente conhecido como… Star Wars. O tema das distopias, muitas vezes provocadas na ficção pela mão de ditadores benevolentes ou por um qualquer poder que esmaga a expressão do indivíduo, também foi bastante célebre, sinal dos tempos de afirmação do mercado livre e do exorcismo do fantasma soviético, na reta final da Guerra Fria. O cinema “sério” dos anos setenta, com thrillers políticos magistralmente escritos e filmes policiais emocionantes mas realistas (The French ConnectionOs Incorruptíveis Contra a Droga ou The Seven-UpsO Esquadrão Indomável), deu lugar a filmes em que os bons tendiam a ganhar e as aventuras chegavam a bom porto, em especial quando falamos dos blockbusters da indústria americana.

A seleção é difícil, mas pondo de parte filmes como Os Goonies ou Conta Comigo (que, não obstante, pertencem ao legado sentimental de então), tentámos escolher dez blockbusters que fossem icónicos do espírito da década, assim confirmados quer pela popularidade que conseguiram nos seus primeiros anos, quer pelo impacto que tiveram no cinema e no imaginário coletivo até hoje.

O Império Contra-Ataca (1980), de Irvin Kreshner
Se os anos oitenta foram marcados pela ficção científica e, sobretudo, pelo tema “futuro”, seja ele bom ou mau, há que falar na saga Guerra das Estrelas. Depois do sucesso do primeiro filme, em 1977, George Lucas deu continuidade à odisseia de Luke Skywalker e da princesa Leia, indo buscar inspiração a filmes tão díspares como A Fortaleza Escondida (1958) de Akira Kurosawa ou A Esquadrilha Heróica (The Dam Busters, 1955) para produzir a sua ópera espacial. Este segundo capítulo da trilogia criada por Lucas, com música de John Williams e momentos de tensão (“I am your father”) que se tornaram quase uma private joke dos contemporâneos do filme, é comummente apontado como sendo o melhor da trilogia original e uma das grandes obras da história do cinema.

Os Salteadores da Arca Perdida (1981), de Steven Spielberg
Harrison Ford teve a sua grande oportunidade, como ator principal, em 1977, no primeiro filme da saga Guerra das Estrelas. Bastaria isso para carimbar a sua passagem pelo imaginário dos anos oitenta. Mas em 1981, cavalgando a onda da sua popularidade, aterrou naquele que se tornaria, praticamente, um alter-ego: a personagem de Indiana Jones, em Os Salteadores da Arca Perdida. Escrito por George Lucas e realizado por Steven Spielberg (Ford já era quase “lá de casa”), tornou-se um símbolo da década e do próprio cinema, para além de ter sido a estreia de Spielberg nos filmes de aventuras, que imagina e produz como ninguém.

E.T. – O Extra-Terrestre (1982), de Steven Spielberg
Um jovem e pacífico extraterrestre é deixado para trás acidentalmente, na Califórnia, pelos outros tripulantes da sua nave espacial. Na Terra, estabelece ligação com uma criança que, com a ajuda dos irmãos (a mais nova é Drew Barrymore) e da mãe, o vai proteger dos agentes do governo americano, que se querem apoderar da criatura para experiências, e finalmente devolver à nave, que volta para resgatá-lo. A história, aparentemente mirabolante mas na essência muito simples, é Steven Spielberg vintage. Apesar de ter feito filmes complexos como O Tubarão e Parque Jurássico (que não estão ao mesmo nível), é na simplicidade das relações humanas, e extra-humanas, que Spielberg conquista os espectadores. E.T. não foi exceção. Talvez seja essa a razão que levou o filme a ser, a par de A Guerra das Estrelas, o filme mais rentável da história até à chegada de Titanic (1997), de James Cameron.

Blade Runner: Perigo Iminente (1982), de Ridley Scott
Pouco depois de 1968, o argumentista Hampton Fancher foi uma de entre milhares de pessoas a ler o romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, publicado naquele ano por Philip K. Dick. Inspirado a desenvolver um argumento que recuperasse as personagens e os temas do livro, fez o primeiro rascunho chegar às mãos do produtor Michael Deeley, que foi buscar o britânico Ridley Scott para realizar o filme. Insatisfeito com adaptação, recrutou David Peoples para reescrever partes do argumento, de forma a recuperar não só as personagens, mas os verdadeiros temas-chave do livro. Nascia então aquele que, para muitos, é o melhor filme de ficção científica de sempre. Para outros, é apenas uma obra prima, sem interessar o género. A verdade é que, com o ritmo estonteante das cenas de ação e perseguição, com o contraste de luzes artificiais com um ambiente noir (excelente terreno para fazer de Rick Deckard uma personagem para a história, em mais uma prestação memorável do então ultra-solicitado Harrison Ford) e com o casting perfeito de Rutger Hauer no papel do antagonista, Ridley Scott deu-nos, através de um argumento sobre andróides, um filme sobre aquele que é talvez o tema mais importante para a nossa existência: o que é ser humano.

O Caça Polícias (1984), de Martin Brest
Falar dos êxitos de bilheteira dos anos oitenta sem falar de Eddie Murphy, goste-se ou não da personagem e do tipo de humor histriónico, é qualquer coisa de sacrílego. E, ao falar de Eddie Murphy, é inevitável invocar O Caça Polícias (no original, Beverly Hills Cop). No início da década, atingiu uma popularidade que fez dele o comediante afro-americano mais famoso dos EUA, roubando o trono ao registo neurótico e socialmente crítico de Richard Pryor. Da sua carreira no stand-up comedy e no programa Saturday Night Live, saltou para o cinema com o icónico 48 Horas (1982), ao lado de Nick Nolte, que celebrizou o buddy cop movie no qual os filmes Arma Mortífera se inspirariam. Mas foi este filme de Martin Brest que o confirmou como estrela da indústria.

O Exterminador Implacável (1984), de James Cameron
Um ex-culturista austríaco emigrado nos Estados Unidos tinha interpretado, no início dos anos oitenta, o guerreiro bárbaro Conan em dois filmes homónimos. Mas ficaria famoso apenas enquanto bárbaro (ou como apoiante do Partido Republicano) se James Cameron nunca o tivesse descoberto. Aliou a presença imponente, a eloquência monossilábica e o físico quase desumano a um novo ingrediente: a frieza com que deixava os seus one-liners. Essas frases feitas fizeram escola neste e noutros filmes em que entrou, mas a mais famosa foi mesmo a de O Exterminador Implacável: “I’ll be back”. E voltou. Uma, duas, três, quatro vezes. Como resultado, nunca mais pensámos em “exterminador” como sendo um profissional de desbaratização.

Regresso ao Futuro (1985), de Robert Zemeckis
Por vezes, lemos por aí a velha história, tantas vezes lembrada, de que Marty McFly esteve mesmo para ser interpretado por Eric Stoltz. Aliás, foram mesmo gravadas algumas cenas, até que o realizador de Regresso ao Futuro, Robert Zemeckis, decidiu que Stoltz não tinha o sentido de humor e o carisma natural que a personagem pedia e que a sua primeira escolha – Michael J. Fox – oferecia. Felizmente, Fox libertou-se da sua série Quem Sai aos Seus o tempo suficiente para, ao lado de Christopher Lloyd (que vinha de outra série popular nos EUA, Taxi), interpretar o protagonista deste filme “simples” sobre dois viajantes no tempo em busca da saída de um labirinto temporal criado por eles próprios, ao viajar para 1955 sem saber voltar. O argumento de Zemeckis e Bob Gale dá-nos, afinal de contas, um filme freudiano mas doméstico sobre como, embora seja impossível mudar os outros, podemos sempre procurar o melhor que têm escondido.

O Rei dos Gazeteiros (1986), de John Hughes
Matthew Broderick, o protagonista, chegou a este projeto como um jovem ator com poucas longas-metragens no currículo. Ainda assim, de entre esse lote modesto, saltavam já à vista filmes significativos e populares como Jogos de Guerra (1983, de John Badham) e A Mulher Falcão (1985, realizado por Richard Donner). O ar inocente, desajeitado e levemente maroto estava a fazer escola, como se pode confirmar no sucesso de Ralph Macchio em Momento da Verdade (The Karate Kid, de 1984), mas essa combinação química nunca funcionou tão bem como em O Rei dos Gazeteiros (no título original, intraduzível e genial, Ferris Bueller’s Day Off). Seguindo o dia do estudante de liceu Ferris Bueller, que decide fingir-se doente e ter um dia para fazer o que bem lhe apetecer, o filme, realizado e escrito por John Hughes, é uma obra-prima da comédia, muitos furos acima dos seus contemporâneos, e um hino à resistência à autoridade e à ditadura da responsabilidade (quase um Elogio da Preguiça em forma cinematográfica).

RoboCop – O polícia do futuro (1987), de Paul Verhoeven
Quase se poderia considerar RoboCop como sendo um filho dos filmes de ficção científica da década. Em especial, de Blade Runner e O Exterminador Implacável. Os argumentistas Edward Neumeier e Michael Miner basearam-se, de facto, na premissa do primeiro desses dois filmes para fazer surgir esta ideia de um polícia robô que combate o crime, mas, desta vez, um crime perpetrado por humanos. Por outro lado, a influência dos filmes de Ridley Scott e James Cameron foi tal que as primeiras opções para interpretar o agente robótico foram, nem mais nem menos, Rutger Hauer e Arnold Schwarzenegger. A escolha do protagonista acabou por recair em Peter Weller, que entrara noutro filme sci-fi de culto As Aventuras de Buckaroo Banzai (1984). Já o argumento foi entregue ao realizador holandês Paul Verhoeven, que criou este violento mas excelente filme sobre a prevalência da alma sobre o corpo, seja ele de carne ou de metal.

Assalto ao Arranha-Céus (1988), de John McTiernan
Por fim, violência por violência, acabamos com a cereja no topo do bolo em matéria de experiências de violência controlada (dentro de uma tela). Falamos do filme de John McTiernan, Assalto ao Arranha-Céus (no original, Die Hard, que reflete o espírito da fita). Durante as suas férias de Natal, um detetive de Nova Iorque, interpretado por Bruce Willis, vai visitar e tentar reconciliar-se com a esposa em Los Angeles, decidindo encontrar-se com ela no edifício Nakatomi, um arranha-céus que terá quase tanto protagonismo e influência como as personagens humanas. A visita coincide com uma tentativa de roubo trasvestida de ataque terrorista e, perante a resistência do detetive duro e teimoso, as coisas acabam por correr mal para todos. A escolha de Willis, que estava longe de ser a primeira opção para este papel de ação, trouxe um timing de humor, uma espontaneidade e entrega que serviram de contraponto aos durões frios de Stallone ou Eastwood. Tal como acontecera antes com Harrison Ford nos seus grandes êxitos, foi o ar malicioso e terra-a-terra do ator a potenciar o sucesso do filme, bem como uma das cacofonias mais célebres da história do cinema: “Yippee-ki-yay, motherfuckers!”

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