2015: os melhores filmes do primeiro semestre
Escolhas e textos de: NUNO GALOPIM, NUNO CARVALHO, JOÃO LOPES, RUI ALVES DE SOUSA e DIOGO SENO
NUNO GALOPIM:
Entre os festivais de cinema e o que vai chegando a sala, o primeiro semestre não teve colheita pode não ter sido tão farta (até aqui) como em anos anteriores. Mas há já títulos suficientes para deixar na história de 2015 alguns títulos de primeira água. A definitiva confirmação do russo Andrei Zvyagintsev como um dos grandes cineastas do nosso tempo ganhou forma em Leviatã, aquele que foi o melhor filme a ter estreia portuguesa em sala neste semestre. Uma história atual, sobre corrupção, que observa com olhar crítico o “polvo” que une os poderosos (na política e religião) e retrata a Rússia do presente à luz de heranças diretas de hábitos de outrora, é um exemplo magnífico de como o realismo pode acolher as marcas de assinatura de um autor. Desta primeira colheita há que registar ainda entre os melhores O País das Maravilhas, um dos mais belos hinos dos nossos tempos sobre os valores (tão na ordem do dia) da liberdade. Da Berlinale trouxe a experiência de um novo – e sublime – Malick em Knight of Cups, que o leva a ambiente urbano e a uma história entre gentes do cinema e o magnífico Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto, outro exemplo de como a alma de quem faz cinema olha a realidade sob um cunho pessoal. De Cannes há a assinalar um magnífico ensaio sobre a eutanásia – com um saber raro no dosear do drama e momentos de comédia – em La Vanité, de Lionel Baier, uma espécie de versão turca e atual de As Virgens Suicidas em Mustang, de Deniz Gamze Erguven e um ensaio diferente sobre a luta entre a razão e a crença num cenário de guerra em Ni Le Ciel Ni La Terre, de Clément Cogitoire. No Indie revelou-se o universo em volta de Edwyn Collins num dos mais belos documentários sobre músicos que vi nos últimos tempos.
Em sala:
“Leviatã”, de Andrei Zvyagintsev
“O País das Maravilhas”, de Alice Rohrwacher
“A Vingança de Michael Kohlaas”, de Arnaud des Pallières
“O Grande Museu”, de Hans Holzhausen
“O Homem Decente”, de Vanessa Lapa
“Olhos Grandes”, de Tim Burton
Nos festivais:
“Knight of Cups”, de Terrence Malick
“Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto
“La Vanité”, de Lionel Baier
“Ni Le Ciel Ni La Terre”, de Clément Cogitoire
“The Possibilities are Endless”, de James Hall e Edgar Lovelace
“Mustang”, de Deniz Gamze Erguven
NUNO CARVALHO:
Até agora, este ano está a revelar-se pouco interessante no que toca a estreias de cinema. Com semanas em que se estreiam catadupas de filmes mas em que por vezes não se aproveita um único, aqui ficam algumas preciosas gotas de água no meio do considerável deserto de qualidade que tem sido a colheita deste primeiro semestre de 2015.
“A Jaula de Ouro”, de Diego Quemada-Díez
“As Nuvens de Sils Maria”, de Olivier Assayas
“Christmas, Again”, de Charles Poekel
“Leviatã”, de Andrei Zvyagintsev
“O País das Maravilhas”, de Alice Rohrwacher
“Um Ano Muito Violento”, de J.C. Chandor
JOÃO LOPES:
Onde está o real? Eis a primitiva questão que regressa, não apenas à margem da mais forte mediatização do cinema, mas também contra ela. Afinal de contas, depois das maravilhas do espectáculo maior que a vida, onde chegaram os “blockbusters”? Tornaram-se meros gadgets de um marketing que mais não visa do que produzir um colectivo instantâneo, efémero e sem memória. Passei mesmo a reconhecer um novo modelo de espectador: é o que vai ver tudo o que tenha campanhas fortes, depois se confessa agastado e, na campanha seguinte, volta ao local do crime… Crise da crítica? Não — crise do espectador.
“Adeus à Linguagem”, de Jean-Luc Godard
“Vício Intrínseco”, de Paul Thomas Anderson
“O Olhar do Silêncio”, de Joshua Oppenheimer
“Sniper Americano”, de Clint Eastwood
“Sono de Inverno”, de Nuri Bilge Ceylan
“National Gallery”, de Frederick Wiseman
RUI ALVES DE SOUSA:
2015 está a ser um ano fortíssimo para o cinema de animação no mercado português, especialmente porque finalmente se estrearam As Asas do Vento e O Conto da Princesa Kaguya, dois filmes que pertencem a 2013 e a 2014 respetivamente. E porque a PIXAR regressou à ribalta com aquele que é, provavelmente, o seu melhor filme. Além dos bonecos, e passando para o cinema de “carne e osso”, Christian Petzold voltou às salas portuguesas com um drama belo e profundo sobre as consequências da II Guerra Mundial. Noutra guerra, mais atual e mais “subtil”, toca Leviatã, reflexão irónica sobre o poder e a corrupção na Rússia que gerou um mal-estar entre os governantes do país, mas que chamou a atenção do resto do mundo para os problemas do sistema de Putin. E os outros dois filmes que compõem a minha seleção são produções americanas que marcaram pela diferença: o realizador em ascensão J.C. Chandor (que poderá vir a tornar-se num dos maiores e mais versáteis artistas da sua geração) compõe uma homenagem ao cinema americano dos anos 70, com o drama Um Ano Muito Violento, e Damien Chazelle propôs uma outra visão dos bastidores da música (que não depende da credibilidade dos métodos utilizados para provocar o espectador) em Whiplash – Nos Limites. Os próximos meses prometem, e iremos encontrar outros grandes filmes dignos de nota. Mas por agora, estes são os seis filmes mais marcantes da primeira metade de 2015.
“As Asas do Vento”, Hayao Miyazaki
“Divertida-Mente”, Pete Docter
“Phoenix”, Christian Petzold
“Leviatã”, Andrei Zvyagintsev
“Um Ano Muito Violento”, J.C. Chandor
“Whiplash – Nos Limites”, Damien Chazelle
DIOGO SENO:
2015 já trouxe pelo menos um filme maior. O conto de Takahata, com raízes no folclore japonês é não só uma maravilha estética, mas o triunfo de uma visão, poética e radicalmente pessoal. Um filme de uma imaginação miraculosa, que menoriza a narrativa a favor da liberdade de um artista no apogeu da sua mestria. Em Leviatã, Zvyangintsev cria um panorama pungente da Rússia contemporânea, que ecoa porque assente em personagens bem construídas e numa câmara que explora subtilmente a teia criada pela narrativa. Alex Garland reapresenta algumas questões já exploradas pela ficção científica (humano vs máquina, consciência, género, Deus), mas com um espírito provocador, todo superfícies e reflexos. Les Combattants é um pequeno filme desarmante, que reinventa a comédia romântica e o coming-of-age, criando pelo caminho duas personagens inesquecíveis (e que fantásticos actores!). Mad Max: Estrada Furiosa demonstra que é possível continuar sagas, mas que os ingredientes fundamentais são o que falta quase sempre: a paixão e a imaginação. Imaginação também é o segredo da última maravilha da Pixar, uma obra de animação corajosa e sofisticada, que desenvolve um universo espantoso na sua dimensão e ressonância emocional.
“O Conto da Princesa Kaguya”, Isao Takahata
“Leviatã”, Andrei Zvyangintsev
“Ex Machina”, Alex Garland
“Les Combattants”, Thomas Cailley
“Mad Max: Estrada da Fúria”, George Miller
“Divertida-Mente”, Pete Docter

Mad Max: Estrada da Fúria: 4*
O filme tem efeitos visuais bastante bons e competentes, mas peca por ser grande demais.
Cumprimentos.
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