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Ladies and gentlemen… Miss Grace Jones

Texto: NUNO GALOPIM

Uma reedição do álbum “Slave to The Rhythm” e uma caixa que junta o tríptico ‘disco’ que editou em finais dos anos 70 devolvem atenções a Grace Jones, um dos primeiros grande ícones pop da “club culture”.

Uma única canção para o alinhamento de um álbum? Ou, para sermos mais precisos, um álbum inteiro feito de variações de uma mesma canção? Essa era a ideia e assim se materializou Slave To The Rhythm, álbum de 1985 que partilha com o brilhante Nightclubbing, de 1981, o estatuto de ser referência maior na discografia de Grace Jones.

A ideia na verdade nascera para os Frankie Goes To Hollywood na sequência de Relax. E podemos aqui recordar que tanto esse single como o seguinte, Two Tribes, conheceram também versões e variações que sugeriam já uma possível abordagem deste teor entre o espaço de desafio pelo qual a ZTT, editora então fundada pelo produtor Trevor Horn e pelo jornalista Paul Morley e nessa altura dava também já que falar pelos discos dos Art of Noise e Propaganda.

Depois de um primeiro tríptico disco lançado em finais dos anos 70 (já lá regressaremos) e de um segundo registado nos Compass Point Studios nas Bahamas, no qual experimentou com sucesso uma nova relação com os espaços do reggae, o dub, o funk e as electrónicas, Grace Jones tinha alcançado um novo patamar de visibilidade no cinema com papéis de algum relevo na sequela de Conan, O Bárbaro e 007: Alvo em Movimento, o filme da série James Bond que teve canção assinada pelos Duran Duran (ou seja, A View To a Kill). Foi de resto dessa vivência que terá eventualmente nascido a colaboração com o projeto Arcadia no single Election Day.

É assim, no auge da fama, que Grace Jones se alia à equipa de Trevor Horn para criar Slave To The Rhythm, uma sinfonia pop em oito andamentos – ou oito canções, se preferirem – entre elas surgindo excertos de uma entrevista conduzida por Morley na qual a cantora, atriz e modelo passa por memórias. A mesma voz surge depois em variações possíveis dos mesmos versos, entre abordagens instrumentais distintas promovidas como mais que simples manobras de remistura ou novos arranjos. Há de facto em Slave to The Rhythm uma busca de caminhos possíveis tendo por ponto de partida uma canção pop – a que dá título ao disco – moldadas e unidas entre si pela a produção de fôlego épico de Trevor Horn. É depois impossível não referir igualmente o brilhante trabalho gráfico concebido a partir da manipulação, pela fragmentação e repetição, de uma foto de Jean Paul Goode, que definiu uma das mais icónicas imagens de Grace Jones. No fundo a imagem acolhia as mesmas sugestões de multiplicidade de visões e leituras que o álbum revelava a partir de um elemento inicial comum.

Trinta anos depois aquele que se revelaria como o maior sucesso de Grace Jones regressa numa reedição que retoma a integridade do alinhamento original. Nos escaparates está entretanto, há já algumas semanas, a caixa The Disco Years, que propõe um reencontro com a etapa talvez mais vezes esquecida da obra da cantora, tantas que são as ocasiões em que a visita à sua discografia dos anos 70 acaba reduzida à (belíssima) versão de La Vie en Rose. Esse foi na verdade um single-chave em toda esta história, mas é apenas um momento de um percurso que resultaria na gravação – em Filadélfia – dos álbuns Portfolio (1977), Fame (1978) e Muse (1979), com Tom Moulton como produtor, versões (algumas de canções da Broadway) e alguns inéditos (entre eles I Need a Man) como matéria prima e o disco sound por ambiente. Não são discos de todo comparáveis a momentos maiores e de personalidade mais vincada como os que emergiriam mais tarde quer na trilogia criada nas Bahamas ou em discos como Slave to The Rhythm ou no mais recente Hurricane (2008). Junta contudo notas a uma etapa de descoberta da voz, de caminhos e afinidades e de uma relação com a música de dança que faria de Grace Jones mais que uma modelo que desfila criações dos outros, uma referência de personalidade reconhecida.

A caixa “The Disco Years” está disponível em CD e LP em lançamento pela Commercial Marketing. A Collector’s Edition de “Slave To The Rhythm” (em CD) é lançada dia 24 pela Culture Factory.

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