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Cidade sob auscultação

Texto: NUNO GALOPIM

‘The Wire’ nunca venceu grandes prémios mas é uma das melhores ficções televisivas de todos os tempos. A série completa tem agora uma edição em Blu-ray.

Podíamos começar por pensar sobre para que servem afinal os prémios. Sim, os grandes prémios… Um filme de Stanley Kubrick nunca recebeu um Óscar de Melhor Filme, por exemplo. 2001: Odisseia no Espaço nem sequer foi nomeado nessa categoria. Talvez porque, em analogia com o chegou a ser explicado num artigo da Variety em 2005, o tema do filme não se relaciona muito com o universo californiano de quem vota nestas “academias”… Savana africana há 10.000 anos? Lua? Naves a caminho de Júpiter?… Pois, fica longe. Na verdade o artigo a que me refiro procurava justificar porque escapara então a The Wire a votação favorável na hora de escolher as melhores séries televisivas do ano através dos Emmys. Baltimore não é Los Angeles de facto. Os temas eram descritos como lúgubres, tensos… A ação era apontada como complexa. Mostravam-se ruas repletas de junkies. Usavam-se muitos palavrões. E com a as cenas rodas em Baltimore, os atores não andavam ali perto a promover a série… Ok, Hollywood tantas vezes faz ainda bem “pior”. Mas a verdade é que, em cinco anos de produção, nunca a série The Wire – entre nós exibida como A Escuta – ganhou um prémio de primeira linha. E dos de segunda foram até poucos, contrastando com o aplauso crítico generalizado, cativando até figuras como Barack Obama (que a descreveu como a melhor série de TV) ou do anterior autarca de Reykjavik, que chegou a afirmar que não se coligaria com alguém que não tivesse visto a série. O tempo mostrou que a caução dos prémios não abraçou The Wire como o fez com muitas outras séries menores. A verdade é que, sete anos depois de ter terminado a sua vida de cinco épocas (e 60 episódios), esta pode mesmo ser recordara como uma das melhores experiências de ficção televisiva de todos os tempos.

The Wire não é uma série policial como muitas outras. O seu objeto não é a luta do gato e do rato, dos polícias contra os ladrões. É antes um olhar sobre a cidade e as suas instituições, com um realismo que ultrapassa maniqueísmos de bons e maus para compreender as teias de interesses e jogos de poder que, afinal, fazem a coisa mexer. Corrupção, abuso de poder, subornos, as diferenças entre autoridade e autoritarismo, a crise de valores no jornalismo, o sistema de ensino (visto como uma mera ferramenta política para exibir números em tempo de campanha eleitoral), o tráfico de drogas (com ramificações em muitos níveis) e as consequências do seu consumo.

Escrita por um antigo jornalista criminal, The Wire tem entre os seus 60 episódios uma ideia de continuidade quase como se de um extensíssimo filme se tratasse, dividindo contudo em ciclos menores – um por época – os arcos narrativos que assim acompanhamos (sem nunca perder a dimensão “macro” da coisa porque, afinal, a cidade não para). Em cada um destes ciclos narrativos (épocas) há uma realidade ou uma instituição maior no centro das atenções: o tráfico de drogas (primeira época), o sistema portuário (segunda), a corrupção na política local (terceira), o sistema de ensino (quarta) e a imprensa escrita (quinta). À deslocação do foco das narrativas por estes cenários maiores responde um corpo de personagens que se mantém fixo, juntando sempre ocasionais figuras específicas para cada nova realidade retratada, estabelecendo assim a lógica de continuidade que une o todo. A música serve também para definir essa noção de coesão, escolhendo os realizadores uma lógica de utilização de música sempre como elementos da ação (diegética), salvo nas montagens finais de cada época, com uma canção que faz de banda sonora a um olhar de síntese sobre o que sucedeu entretanto. Cada época tem um tema diferente no genérico, convocando ali nomes como os de Tom Waits, os Neville Brothers ou Steve Earle.

Realismo é a palavra chave que aqui tudo faz mover. Um realismo cru e violento não apenas no tratamento da imagem e da construção narrativa mas também na forma desencantada de observar a cidade que se escuta. Mas não é coisa sisuda. Há até espaço para o humor. E muito…

As “escutas” que dão título à série são, em concreto, usadas como ferramenta de investigação, mas estão longe de afogar o corso da ação. É a escutar – com olhos e ouvidos – a cidade que The Wire se faz um retrato da multiculturalidade americana do pós-milénio. Sem clichés nem quotas, há aqui mais negros que brancos, há homens e mulheres, há tempo para escutar as personagens identificando entre umas e outras marcas de identidade (de género, de sexualidade, de ética, de formação) que rompem com uma lógica de ingredientes e vinca o sentido de verdade que se quis mostrar.

Talvez não fosse “californiamente correto” para ter prémios. Mas foi uma das mais importantes contribuições para um recentrar de atenções na ficção televisiva, mostrando como por vezes há ali mais cinema que no grande ecrã.

“The Wire – The Complete Season 1-5” acaba de ser lançado numa caixa com 20 Blu-ray pela Warner Home Video no Reino Unido. Uma caixa com a totalidade das cinco épocas de ‘The Wire’ está disponível em formato de DVD entre nós.

 

PS. Para os interessados, em viagem por Baltimore, aqui fica um guia “turístico” da cidade, segundo os lugares que a série retratou. Da esquina de Bodie ao parque onde Marlo reunia os seus, ficam aqui sugestões de… visita.

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