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O estúdio em vez de um futuro no estádio

Texto: PEDRO PRIMO FIGUEIREDO

“Currents”, acabado de editar, é o terceiro álbum dos australianos Tame Impala. Disco de rutura com o passado, promete zangar boa gente mas seduzir novos apoiantes. Este já não é o próximo grande coletivo de estádio, é antes a atual grande banda de estúdio.

Dois álbuns – Innerspeaker, em 2010; Lonerism, dois anos depois – chegaram para fazer dos Tame Impala caso sério de popularidade (à escala alternativa) e apreço crítico. Tidos como porta-vozes de uma nova geração de bandas recheadas de discos de rock psicadélico dos anos 1960 em casa, os Tame Impala e o seu líder, Kevin Parker, construíram em poucos anos uma reputação invejável: revitalizaram o rock, deram-lhe cor, tomaram as drogas certas e embrulharam todo um manancial de referências estéticas e musicais numa obra focada nas seis cordas. Obra essa, lá está, amplificada e ampla, de vistas largas, rock não de massas mas com massa para chegar ao estádio. E que fez Kevin Parker em 2015? Ignorou os estádios e fechou-se no estúdio. E fez um disco só ao alcance dos grandes artesãos pop.

Currents é um disco difícil de engolir para quem via nos Tame Impala uma banda meramente voltada para o rock e para as guitarras. Eles eram abrasivos, continuarão a sê-lo, mas trazem na novidade um renovado imaginário que não tem medo de misturar cordas com eletrónicas meio caminho entre o foleiro e o glorioso – felizmente mais a pender para o segundo lado da moeda. Há palmas aqui e ali a acompanhar o ritmo, elementos funk, zero receios de desiludir os fãs e todas as certezas do mundo de que este é o caminho para os Tame Impala em 2015: fazer música pop, aqui e ali dançante, mas sempre elegante, recheada de subtilezas e minuciosa, trabalho de um homem que trata o estúdio como família.

E as canções? Let it Happen, o primeiro tema revelado da empreitada, é a ponte perfeita entre o passado e o hoje: faixa longa e de transição, serpenteia, surpreende e vicia. Reality in Motion é outro dos amores imediatos de Currents, e entrega-nos lá para o final uma das poucas evidentes guitarras do disco. Cause I’m a Man é um tema glorioso, meio caminho entre Michael Jackson e Tame Impala, Yes I’m Changing tem uns arranjos mais duvidosos – mas ninguém morre por isso – e Love/Paranoia é um bocado o retrato do disco e, talvez, de Parker: meio caminho entre o amor, o desamor e a paranóia e obsessão pelo perfeito andará por estes dias (desde sempre?) a mente deste talentoso australiano ainda não entrado nos 30 anos.

Sucesso global de vendas na primeira semana de comercialização e elogiado um pouco por toda a crítica, Currents vai marcar a carreira dos Tame Impala. Kevin Parker vai perder devotos, mas mesmo estes não deixarão de seguir os próximos tomos do grupo. Vai ser o disco de transição para um futuro ainda incerto mas as expectativas, amores e ódios gerados por esta tropa indiciam estarmos na presença de uma grande banda. Enquanto em estúdio continuarem assim, o estádio pode esperar.

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