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A alta cultura chegou ao Brasil com Maria Leopoldina

Entrevista por NUNO GALOPIM

Mulher de D. Pedro (IV de Portugal e primeiro imperador do Brasil), D. Leopoldina desempenhou, segundo o autor de uma biografia sua, um papel fundamental pela manutenção da integridade do território brasileiro depois de 1822.

Autor de biografias de D. Teresa a primeira rainha portuguesa) e D. Carlota Joaquina, Marsilio Cassotti estudou ciências políticas na Universidade Católica de Buenos Aires e línguas no Instituto Católico de Paris. No seu mais recente livro foca atenções em Maria Leopoldina da Áustria (1979-1826), irmã da imperatriz francesa Maria Luisa, sobrinha da rainha francesa Maria Antonieta e mulher do rei português D. Pedro IV que foi também o primeiro imperador do brasil. De passagem por Lisboa falou à Máquina de Escrever…

Onde surge este seu interesse por D. Leopoldina?
Fiz uma biografia sobre Carlota Joaquina, que tinha uma personalidade dominadora, agressiva, castelhana, impositiva. Quando Leopoldina parte para o Rio de Janeiro em 1817 e se encontra com a sua sogra já conhecia o seu carácter. Tinham-na avisado. Mas Carlota Joaquina não atua diretamente sobre Leopoldina e dá conta que sob uma aparência doce e suave havia uma mulher decidida e não lhe convinha ser dominadora para não sofrer consequências. Leopoldina era uma mulher de carácter. E estudando as cartas que trocava com a sua irmã Maria Luísa, mulher de Napoleão, fica clara essa personalidade forte, de alguém com ideias firmes.

Além dessas cartas a que fontes recorreu para fazer esta biografia?
Há dois registos de cartas entre as que enviava a figuras importantes da Europa, assim como à sua família. Há as cartas formais, numa linguagem diplomática, pelas quais passa muita informação. As que envia ao embaixador português em Paris continham pedidos de livros e por elas ficamos a saber o seu gosto. Não pedia apenas romances, mas também livros de economia, de ciências. Tinha gostos sofisticados para uma mulher da época. Depois há as cartas à irmã, mais sinceras… E nelas diz outras coisas porque refere mesmo numa delas que sabe que mais ninguém lerá aquelas palavras. E aí confessa tudo o que sente, seja com a corte portuguesa, seja mesmo com D. Pedro que lhe causa tantas infidelidades. É assim uma mulher sofredora, mas que sofre como uma cristã com uma missão a cumprir. Esse sofrimento promoverá uma evolução do carácter e que terá um papel político, sobretudo na independência do Brasil. É monárquica mas, ao invés da sua tia Maria Antonieta, crê que a monarquia tem de estar mais perto do povo. Há uma carta ao pai na qual diz que é necessário ter em conta o espírito do povo para salvar a monarquia.

Estava assim em sintonia com D. Pedro…
Nesse sentido os dois admiravam muito Napoleão. Eram filhos das mudanças da revolução francesa e das heranças do império napoleónico.

Mesmo tendo a tia Maria Antonieta entre as vítimas da revolução?
Exatamente. Aprendeu com a experiência do terror que vitimou Maria Antonieta. O tema da república estava na ordem do dia e ela queria sobretudo salvar a monarquia. Mas dando ao povo motivos para que apoiassem o monarca. Foi sábia nesse sentido de dar a entender que não eram precisas revoluções, mas antes salvar o que pudesse ser salvo. Sendo mulher, proveniente de uma monarquia conservadora, revelou-se uma mulher bem interessante.

É ela quem leva o amarelo à bandeira do Brasil?
Sim, porque é a cor dos Habsburgos. A bandeira uniu o verde, português, ao amarelo. Houve pessoas com quem trabalhei na preparação que me disseram que na escola tinham aprendido que o verde provinha dos bosques e o amarelo das minas. Mas não. São as cores heráldicas das duas famílias.

Antes do casamento, não era desejado para D. Pedro que se unisse a uma mulher de origem austríaca…
Se fosse espanhola ou portuguesa haveria mais formas de poder ser controlada. Como era austríaca e, juntamente com a Grã Bretanha, essas eram as duas maiores potências no mundo, ela era assim não apenas poderosa mas alguém que vinha de fora. Carlota Joaquina, que era Bourbon, tinha como inimigos históricos os Habsburgos via-a como adversária. E ter uma inimiga em casa não seria fácil. Mas sendo uma inimiga trata-a com respeito.

Foi rainha de Portugal por um período muito curto.
Foram cem dias. D. Pedro jogava nos dois lados. Era imperador do Brasil e depois rei de Portugal e decide que a filha D. Maria se casaria com o seu irmão D. Miguel. Isto causa um choque em Leopoldina, que não estava habituada a uma tradição cultural na qual um tio se podia casar com uma sobrinha. Já tinha acontecido em Portugal… Mas Leopoldina achava que isso podia afetar a reprodução, mas Miguel era também uma personagem especial. Tinha todos os defeitos de D. Pedro, mas sem as virtudes e isso depois manifestou-se. Leopoldina tinha receio que uma rapariga acabasse nas mãos de um homem como D. Miguel que podia ser perigoso, com historial de violência e que estava exilado. E era mais reacionário… Ela luta para que Maria não se comprometa com Miguel. E quando vê que não pode fazer nada pede à família austríaca para que vigie Miguel em Viena. Para que Maria não sofra consequências do seu carácter.

Mas Leopoldina morre cedo. E acaba por não ter uma ação direta na monarquia portuguesa…
Indiretamente tem quando, depois da sua morte, nenhuma das casas reinantes quer que nenhuma das suas filhas se case com D. Pedro. Porque se havia difundido a ideia de que ele havia sido violento com ela, Leopoldina. E D. Pedro não tem senão como casar com Amélia, que não é de uma família muito antiga. Essa escolha foi assim condicionada. Leopoldina viveu pouco tempo com Maria, mas orientou a sua educação nos primeiros anos. E Maria foi liberal por influência do carácter da mãe. Nas cartas Leopoldina diz ainda que Maria se parece fisicamente consigo mas que tem a personalidade do pai. Mas acho que ela puxou também à mãe. Maria tinha o carácter dominante de D. Pedro. Mas tinha também um lado Habsburgo, mais próximo da mãe.

O Brasil tem contudo maior relação com D. Leopoldina?
Quando se casou foi para o Brasil com um grupo não apenas de cortesãos nobres, mas também cientistas e músicos, pintores e outros artistas. Foram as primeiras figuras da alta cultura a chegar ao Brasil. Fundaram a sua base de alta cultura. Ela tem assim uma grande influência intelectual na história do Brasil. Em termos políticos tem uma influência sobre D. Pedro. Para mim ele é mais português do que brasileiro e não estava assim tão convencido sobre a separação. E como o pai fazia os dois jogos… E não lhe faltavam razões. Mas Leopoldina estava mais determinada na separação e, conhecendo a personalidade do marido, vai convencendo-o pouco a pouco nas cartas. A 12 de setembro de 1822, a cinco dias da declaração, ela diz-lhe que o Brasil é um vulcão e que no palácio há revolucionários, até mesmo portugueses. E que, se ele não faz a independência, eles, republicanos, tomam o poder… E ele sente-se obrigado… É claro que ele teria também as suas ideias. Mas é interessante ver que ele recebeu a carta de Leopoldina que pedia a separação, pouco depois de lida a de D. João e a do embaixador inglês que pedia para que não se separasse. Mas ele decide separar-se. Que influência ela deixou então no Brasil? A independência. Em 1997, quando se celebraram os 200 anos do seu nascimento, no Museu Imperial em Petropolis, houve uma exposição especial sobre Maria Leopoldina. E antes da entrada foi exposto um tabuleiro de xadrez. Porque numa carta à irmã Maria Luísa, escrita quando tinha 20 anos, Leopoldina afirma que elas, princesas da casa austríaca, são como peças de xadrez que jogam com outros seres ainda mais poderosos, ou seja, a política internacional. E diz que devem ter cuidado para que não lhes comam as outras peças… É uma expressão de inteligência para alguém com aquela idade!

Podemos dizer que a independência do Brasil nasce de ecos da revolução francesa?
Sim, e é uma consequência humana do medo que a dinastia de Habsburgo podia ter depois da morte de Maria Antonieta. Eles não queriam perder o poder. Mas também não queriam perder a vida. E uma revolução republicana no Rio de Janeiro podia provocar violência…

Houve revoluções republicanas nas outras colónias sul-americanas…
Sim, estamos em 1822. E outros estados que antes eram espanhóis se tinham proclamado repúblicas. E isso podia contagiar… É pela declaração da independência e com o império que se manteve a integridade do território. Se fosse declarada a república é provável que cada região tivesse proclamado uma república independente. O império dura até 1889 e por essa altura a ideia da separação já tinha passado.

A ideia do império como identidade multicultural era já clara?
A emigração alemã surge então. É ela quem manda contratar soldados alemães, mas ao mesmo tempo faz chegar ao Brasil camponeses alemães e suíços.

Há mais figuras da história de Portugal que lhe chamem atenção para um futuro trabalho?
Interessam-me figuras de mulheres portuguesas entre a monarquia e a república. Estou a estudar esse período, mas na sua relação com a América.

O livro “Imperatriz D. Leopoldina” de Marsilio Cassotti, em tradução de Sandra Marta Dolinsky. está publicado pela Manuscrito, numa edição de 269 páginas com ISBN 978 8818 03 4. 

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