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A marcha laboral de Little Boots

Texto: ANDRÉ LOPES

Ao terceiro disco, o projeto de Victoria Hesketh troca a dancepop e as melodias açucaradas das suas primeiras composições, por um sentido de unidade que carece de precisão.

Ao figurar no topo da tabela da BBC Sound of 2009, Little Boots começou por cativar atenções no virar da década, pela forma descomplexada como alinhava dinâmicas de sintetizadores com refrães difíceis de esquecer. A estreia em álbum feita com Hands (2009) apresentara um conjunto de ideias maioritariamente assentes em sonoridades mainstream, ainda que exploradas de acordo com uma perspetiva (ainda embrionária) de formulações mais aventureiras. Com Nocturnes (2013) surgira a oportunidade para interiorizar as possibilidades da deep house enquanto ferramenta de apoio a canções que se mantinham apelativas, mas que começavam a perder o foco. Agora, Working Girl traz-nos novidades.

Longe vão os sinais das restrições impostas por uma editora responsável pela limitação do terreno criativo do disco de estreia e esse é um aspeto que Victoria Hesketh não só sinaliza, como cimenta como um dos principais chavões deste álbum: com modos simplistas, ensaia-se aqui uma ode à figura feminina enquanto elemento profissional, tão possível quanto válido. Não será um disco estritamente conceptual, contudo, o exercício de problematizar a existência da mulher no contexto laboral (ou produtivista?) é explicitado, servindo muitas vezes de metáfora para relações interpessoais.

Em termos sonoros, dá-se finalmente uma despreocupação por parte de Little Boots no que toca à necessidade de construir canções presas aos modelos do típico single pop. A evidência da crescente afinidade com os ritmos menos gritantes da disco ou do synthpop garante momentos como a faixa homónima ou No Pressure, ambas situadas algures entre as ocasiões mais simplistas de uns Saint Etienne e as panorâmicas rítmicas dos Pet Shop Boys.

Evitando canções preenchidas em demasia, são várias as fases do alinhamento em que o recurso a um enquadramento de música disco se alia ao minimalismo de um certo território techno. O ritmo de Real Girl, a deep house de Heroine ou o baixo pujante de The Game são alguns dos elementos utilizados para atingir uma diversificação de som capaz de prender a atenção de quem escuta, mas que não deixa de espelhar o facto da tarefa de produção do álbum ter sido partilhada por várias figuras. Ao mesmo tempo, é perdida coesão, em especial nos momentos em que as canções se tentam levar demasiado a sério.

Ao longo do alinhamento de Working Girl é tornado evidente – pela escrita das canções e pelas escolhas em termos de produção – que este é um álbum que assinala em especial, a maturidade de um projeto que ao terceiro registo longa-duração, parece ter encontrado o meio ideal para desenvolver e explorar a sua potencialidade criativa, sem restrições ou preocupações comerciais.

O álbum “Working Girl” de Little Boots foi editado em vinil e CD pela On Repeat e está disponível nas plataformas digitais de streaming e download.

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