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E agora, Frank Underwood?

Texto: NUNO GALOPIM

A terceira temporada de “House of Cards” deu a entender que a figura criada por Kevin Spacey é mais a de um lutador de bastidores que a de um governante. Felizmente a equipa descobriu a “avaria” a tempo de a reparar.

Nos momentos finais do último episódio da segunda temporada de House of Cards víamos Frank Underwood a proferir os votos que oficializam a tomada de posse do presidente dos EUA. E agora? Iria House of Cards viver do jogo de cintura do casal presidencial face à multidão de ações menos recomendáveis que lhes permitiram chegar à Casa Branca, tentando abafar e resolver as pontas soltas dos muitos novelos que tinham enleado ao longo dos anos? Ou rumaria a série para uma solução mais próxima de West Wing (que entre nós passou como Os Homens do Presidente), focando atenções nos bastidores do poder e no que até aí o ambicioso e vingativo antigo whip da maioria no Congresso ainda não tinha feito, ou seja, governar…

Ao ver os 13 episódios que fazem a terceira temporada de House of Cards, que acaba de ter edição entre nós em DVD, fica claro que as opções da equipa de argumentistas olhou mais para a segunda que a primeira das duas mais óbvias opções. A escolha seria à partida a mais recomendável. Até que, a optar pela outra solução, a série passaria a viver de ecos e consequências do que vinha de trás, fechando espaço narrativo às muitas situações que, com escritório agora na Sala Oval, o protagonista interpretado por Kevin Spacey poderia enfrentar. Porém a narrativa revela-se algo perdida entre o novo espaço e funções durante uma mão-cheia de episódios, e até as novas funções a dada altura atribuídas à nova primeira-dama (Robin Wright), que poderão ter consequências numa quarta temporada, às tantas mais não parecem senão uma frustrante tentativa de ensaio e erro de novos desafios para a personagem. Só na reta final a série parece acordar do torpor em que a terceira época navegara durante mais de metade dos episódios. E perante o desafio de uma forte e honesta concorrência (embora, como veremos, capaz de se deixar também seduzir pelos jogos do poder) e um desfecho do derradeiro episódio como manda a regra de um bom cliffhanger, House of Cards lá acaba por reencontrar a essência da sua identidade, devolvendo o protagonista ao estilo que dele fez um dos heróis-vilões mais marcantes da história recente da ficção televisiva e um dos papéis de referência na obra de Kevin Spacey.

Sem a liberdade de movimentos de outrora, o agora presidente Underwood não pode usar as táticas de outros tempos. E pela porta da Sala Oval entram todos os dias novos conflitos e situações que urge resolver. Há uma visita de um presidente russo que pisca o olho ao atual inquilino do Kremlin, a dada altura havendo mesmo um cameo com elementos das Pussy Riot a garantir um dos vários cruzamentos da ficção com a realidade, como que em busca de um sentido realista que se manifesta não apenas no rigor da representação dos espaços da Casa Branca e a presença frequente de jornalistas e figuras reais do mundo televisivo em vários momentos da série. Uma entrevista com Stephen Colbert nada favorável a Underwood ou um debate televisivo moderado por John King (uma das figuras de referência da equipa política da CNN em hora de cobertura de eleições nos EUA) são exemplos desta busca de ligações ao mundo real.

Porém, o quotidiano na Casa Branca – quer no plano político entre a equipa governativa e de comunicação e o espaço de vida familiar – é de magra expressão quando comparado com a maior riqueza da escrita e do conjunto de personagens de West Wing. Falta aqui um Aaron Sorkin para habitar a casa com maior fôlego nas ideias e até mesmo situações. Frank Underwood era nas duas primeiras temporadas uma personagem de ação rápida e de pensada ginástica de planos de bastidores. Ao dar por si na Casa Branca sentiu-se um estranho em terra estranha e perdeu um viço que, nesta terceira época, leva episódios a reativar.

No plano da política nacional a série quase não nota acontecimentos de relevância maior. E o “caso” internacional que gera grande parte da narrativa não é nem surpreendente nem motor de possíveis grandes jogadas a la Underwood. Só com a aproximação das eleições é que o peixe regressa às suas águas: as da luta por um lugar de poder. Esse é, afinal, o terreno de House of Cards. E a não ter conflitos nesse departamento durante grande parte desta temporada a coisa desceu ao nível morno, sobrevivendo apenas pelo rigor que a direção artística mantém como exigência irrevogável (aqui, contudo, para cumprir), as qualidades reconhecidas de um elenco de excelência e um estilo visual que nunca contrariou as “normas” que David Fincher definiu nos episódios de arranque da primeira temporada que deram assim o tom e o ritmo para toda a série.

Um admirador na Sala Oval
Um dos mais entusiastas entre os seguidores de House of Cards conhece melhor do que Frank Underwood os recantos da Casa Branca e há já alguns anos tem mesmo como espaço de trabalho a (verdadeira) Sala Oval. Chama-se Barack Obama e fez notícia há cerca de dois anos o facto de ter pedido para ver, mal estivessem prontos, os episódios da segunda temporada, comentando com aquele humor que lhe conhecemos de tantas situações – e que recentemente voltou a demonstrar em mais uma passagem pelo programa de Jon Stewart – que seria bom se as coisas fossem assim “tão impiedosamente eficientes”, observando ainda como “este tipo”, ou seja, Underwood, “consegue que as coisas aconteçam”. Com um Congresso com maioria republicana desde 2010, convenhamos que sabe do que fala. O que terá dito da terceira época, que levou ficcionalmente o mesmo Underwood à sua mesma sala de trabalho?

O sucesso de House of Cards não é um fenómeno nascido do nada nem da surpresa. Apesar de uma origem britânica – e já lá iremos –, a série é mais uma a surgir num tempo em que o espaço político não só ganhou uma dinâmica diferente no jornalismo televisivo (e aqui vale a pena lembrar uma vez mais o fulgor do trabalho da equipa política da CNN nas noites eleitorais) como tem gerado matéria-prima para várias aventuras de ficção criadas para o pequeno ecrã. Dois dos maiores exemplos desse filão encontram-se entre West Wing e Newsroom, ambas com a escrita de Aaron Sorkin como base de trabalho, esta segunda partindo frequentemente de situações reais que cruza com as personagens de ficção que habitam a redação de um telejornal e refletindo frequentemente sobre a essência conservadora do Partido Republicano, num tempo de ascensão mediática e política da fação mais conservadora e populista do Tea Party. No caso de West Wing, delícia absoluta para quem gosta de ficção política, a série acabou a dada altura por sugerir um efeito de contraste face à realidade, já que os últimos cinco dos seus sete anos de produção ocorreram sob a administração de George W. Bush, revelando os episódios um presidente democrata e, inclusivamente, a eleição de um sucessor (do mesmo partido) de origem latina, antecipando aí os acontecimentos do mundo real que, só em 2008, assistiria à eleição para a Casa Branca do primeiro presidente de uma minoria étnica norte-americana.

A estas duas (muito recomendáveis) séries o mapa político da ficção televisiva recente mostrou ainda as situações enfrentadas por uma vice-presidente desinformada em Veep (efeito Sarah Palin?) ou os bastidores de uma grande autarquia em Boss. Mais próximos da realidade há a juntar a este corpo de produções dois telefilmes de Jay Roach para a HBO, ambos próximos do registo docudrama e baseados em casos levantados em eleições norte-americanas. Recount (2008) recordava a recontagem de votos na Florida em 2000 (que atribuiria a vitória a George W. Bush) e Game Change (2012) mostrava, com Julianne Moore no papel de Sarah Palin, os bastidores da escolha e campanha da companheira de ticket de John McCain em 2008.

House of Cards, apesar das ligações à realidade por via de cameos e pequenos papéis e da busca de realismo no rigor dos décors e de alguns dos protocolos retratados, vive contudo num espaço alargado à ficção. E, ao contrário de todas estas outras séries e telefilmes, tem uma origem exterior aos EUA. E, curiosamente, numa família política diferente da de Frank Underwood.

De Dobbs a Fincher
A ideia materializou-se pela primeira vez num livro de Michael Dobbs, figura com algum peso no Partido Conservador britânico nos tempos de Magaret Thatcher, que chegou mesmo a integrar a direção dos tories de John Major. O protagonista não está assim à partida no Capitólio, mas no Parlamento londrino, mas tem uma agenda e modus operandi que seguem no fundo o que conhecemos do Underwood recriado por Kevin Spacey. Depois de House of Cards, publicado em 1989, seguiram-se To Play the King em 1992 e The Final Cut em 1994, tendo os três volumes inspirado uma primeira série televisiva com o título House of Cards e o ator Ian Richardson como Francis Urquhart, maquinando manobras de bastidores, embora com uma eficiência maior e sem o humor que lembramos de Jim Hacker e do seu adjuvante Sir Humphrey em Yes Minister.

Foram estas pistas britânicas que chegaram à atenção de David Fincher numa altura em que o realizador trabalhava no filme A Rede Social. Descobre então que os direitos de House of Cards tinham sido já adquiridos, faltando encontrar uma estação televisiva que pudesse produzir uma adaptação norte-americana da série. O entusiasmo mais visível chegou através do serviço Netflix, que queria começar a produzir conteúdos próprios. Entra então em cena Beau Willimon, que tinha integrado os staffs do senador nova-iorquino Chuck Schummer, do governador do Vermont Howard Dean e de Hillary Clinton, todos eles do Partido Democrata. A sua experiência seria fundamental para que o realismo não fugisse no transporte de uma ideia com berço britânico para um novo cenário americano. Kevin Spacey chegou pouco depois, não apenas para vestir a pele do protagonista, mas também para desempenhar um papel relevante na produção. A versão americana de House of Cards chegou assim às nossas casas num tempo em que a cultura televisiva levou os espaços e os protagonistas da política a um patamar de exposição maior do que nunca. Um tempo que é também um caldo perfeito para a gestação de teorias da conspiração que são reflexo de novas lógicas de comunicação e comentário que floresceram sobretudo nas redes sociais.

Depois de duas excecionais temporadas de apresentação centradas numa escalada de Underwood do Congresso à presidência e de uma terceira que verificou que esta é uma personagem para o combate pelo poder e não um protagonista numa trama sobre a governação, esperamos agora que a quarta, que está já em produção, encontre no combate eleitoral que se segue o terreno para que a figura criada por Kevin Spacey reencontre o fulgor que já teve. E em Claire poderemos ter surpresas. Por aqui ficaremos atentos às cenas dos próximos capítulos…

A terceira temporada de “House of Cards” está editada em DVD pela Sony Pictures.

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