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Da Escócia ao “Mainstream”

Texto: NUNO GALOPIM

Uma caixa antológica recorda a obra da banda com a qual Lloyd Cole se afirmou como um dos mais importantes escritores de canções nascidos no mapa da música pop britânica dos anos 80.

Há histórias que devem ser contadas desde antes mesmo do momento em que nascem perante todos nós. E a dos Lloyd Cole and The Commotions, que agora é possível de revisitar de fio a pavio numa caixa integral, deve começar não pelas canções do single que os revelou em maio de 1984, mas pelas gravações anteriores de um outro que acabou arquivado assim que o contrato com a editora foi assinado e um rumo encontrado para a sua carreira. Ao pegar na caixa nada como avançarmos logo até ao CD que guarda as maquetes e raridades. E, aí escutar Down At The Mission. Gravado em finais de 1983, estava na calha para representar a estreia em single da banda. E caso o tivesse sido deixaria desde logo bem evidente que, na pré-história do grupo, os gostos formadores de parte dos seus elementos – e muito particularmente o próprio Lloyd Cole – passavam sobretudo por referências clássicas do R&B, de Isaac Hayes aos Booker T & The MG’s ou James Brown. Mas não seria esse o seu caminho (nem mesmo com um teclista que, quando se juntara ao grupo, deixara claro que estava mais perto dos Steely Dan, Kraftwerk e Vangelis que dos Television ou Talking Heads mencionados no pequeno anúncio que haviam colocado na sala de estudantes da universidade que era então o centro do seu mundo). E ao escolher Perfect Skin como cartão de visita – tema que Lloyd Cole confessaria não ter sido possível ter escrito se não tivesse escutado e assimilado Subterranean Homesick Blues de Bob Dylan – o seu caminho e impacte revelou-se completamente diferente (mesmo tendo Brand New Friend, mais tarde, tornado óbvia a busca por uma matriz R&B nas linhas vocais e My Bag deixado explícito um fulgor inspirado em sonhos funk que só ali se materializaria).

Para contar a história de Lloyd Cole e da banda com que gravou os seus três primeiros álbuns – e cujos demais músicos tiveram relevância criativa, no terceiro disco os temas surgindo mesmo assinados coletivamente – é preciso por um lado lembrar que, depois das visões libertadoras do pós-punk, da euforia “futurista” e de uma produção atenta às novas potencialidades das electrónicas que dominara muita da pop britânica de inícios dos anos 80, um ressurgimento de outros valores mais “clássicos” emergia através de nomes como os The Smiths, Prefab Sprout ou até mesmo uns Echo & The Bunnymen, a atingir então o seu momento de maior inspiração. Ao mesmo tempo, e depois de focos de atenção essencialmente centrados entre Londres e Manchester, sem esquecer o pólo industrial de Sheffield, aquele era um momento particularmente vibrante mais a norte, com bandas nascidas na Escócia, como os Orange Juice (que Lloyd Cole admirava profundamente) ou Aztec Camera, a fazer-se escutar mais longe. E o grupo, que nascera na universidade em Glasgow, onde Lloyd Cole se destacara desde logo pela aparência e modos invulgares e onde estudava filosofia, encaixava em ambas as tendências.

O melhor de dois mundos
No texto que Pete Paphides inclui no livro que integra esta edição antológica recorda-se que, por aquela altura, um A&R de uma qualquer grande editora, teria de ir uma vez por semana a Glasgow ou Edimburgo para ouvir e, se possível, assinar o que lhe soasse com potencial discográfico. Procurando, no fundo, ora propostas mais arty ora aventuras pop. As canções dos Lloyd Cole and The Commotions também aqui integravam o melhor desses dois mundos. Não foi preciso esperar muito para que alguém reparasse. E em inícios de 1984 tinham assinado pela Polydor, surgindo desde logo como primeiro passo o travar da edição iminente de um single de estreia que estava gravado e prestes a ser editado. Era preciso mudar azimutes. E na canção do lado B, Are You Ready To Be Heartbroken?, estava claramente indicado o caminho a seguir.

Entram então em estúdio com Phil Hardiman, que tinha trabalhado recentemente com os The The em Soul Mining. Em maio Perfect Skin dá-lhes um cativante e promissor single de estreia, garantindo-lhes uma passagem pelo Top of The Pops (num mesmo programa em que era convidado Elvis Costello), um número 26 no Reino Unido e vendas na ordem dos 200 mil (é verdade, vendiam-se muitos singles por aqueles dias). O mesmo produtor voltou a juntar-se ao grupo para, então, criar um primeiro álbum. Como matéria prima tinham um corpo de canções com as quais tinham trabalhado nos últimos meses, muitas delas tendo contudo ganho forma nas semanas que precederam a gravação. Como local de trabalho contaram com os estúdios The Garden, do ex-Ultravox John Foxx. E como rotina definiram uma agenda tranquila e bem disposta, com horário das dez da manhã às seis da tarde, apenas tendo necessitado de uma sessão noturna para terminar um dos temas. O diálogo entre uma música que tem nos diálogos da voz com a guitarra a sua espinha dorsal, mas que aceita um trabalho de arranjos de boa carpintaria (e no qual não faltaram mesmo as cordas, sob colaboração de Ann Dudley) definiu em pouco tempo um álbum robusto mas fresco. As letras, nas quais surgem marcas claras de uma certa intelectualidade universitária, com doses reforçadas de name dropping – que Lloyd Cole comentaria como coisa algo ingénua algum tempo depois – deixavam clara a vontade de contar histórias e refletir sobre relacionamentos.

Rattlesnakes surgiu nos escaparates em outubro de 1984 e foi imediatamente acolhido com entusiasmo tanto entre quem assinava textos críticos como junto do público e até mesmo entre pares (Morrissey visitou-os no camarim após um concerto no Dominion Theatre, em Londres). Era um tempo de descoberta e novidade para a banda. E quando passaram pela primeira vez pela Alemanha viveram sob ansiedade uma atuação na qual ninguém batia palmas entre canções, chegando os aplausos apenas no fim (era então prática naqueles lados, um pouco como expressão em sala pop de um hábito das plateias da música clássica).

Dos tiros aos enganos
O impacte de Rattlesnakes – que teve ainda como singles de sucesso o tema-título e o velho Are You Ready To Be Heartbroken? – acendeu as luzes de ambição nos escritórios da editora. Surge desde logo a sugestão de um segundo álbum, algo que não parecia morar na agenda dos desejos da banda que, depois de um intenso trabalho com o disco de estreia projetava uma pausa… Era contudo norma naqueles tempos um ritmo de lançamentos anual. Sem canções escritas na estrada houve que preparar todo um novo corpo de trabalho. Mas o problema maior surgiu com a escolha de parceiro de trabalho em estúdio, com a editora a optar por uma nova equipa para alcançar um outro patamar de sucesso.

Lawrence Donegan, o baixista, explica no livro que acompanha esta caixa que, com a nova equipa, era esperado que fossem elevados de um “nível B – que é o de bandas credíveis para um NME com vendas moderadas – para vendas um nível A, que é o dos Madness… Mas nós não éramos os Madness”… Clive Langer e Alan Winstanley, que com os Dexys Midnight Runners, os Teradrop Explodes ou mesmo os Madness tinham afinado uma ideia de som mais polido e brilhante, foram todavia os escolhidos. O grupo reconheceria, mais tarde, que deveria ter mantido as coisas mais… sombrias. Em estúdio, contudo, parecem intimidados – pelo menos é o que sugerem as declarações que o novo livro recolhe. E a coisa avançou…

Quando chegou às lojas, em novembro de 1985, Easy Pieces vendeu logo na primeira semana o mesmo que Rattlesnakes tinha vendido ao longo de um ano. Os singles Brand New Friend e Lost Weekend chegavam ambos ao Top 20 no Reino Unido… Com entusiasmos de vento em popa, um álbum com canções a que a produção puxou mais o brilho – mas a cujo alinhamento não faltam bons momentos – e um estatuto reforçado, o grupo parecia lançado para voos ainda mais altos. E é ao pensar na eventualidade de um caminho que os levasse ao grupo mais restrito das bandas de primeira liga com dimensão para encher arenas que partem para a composição e gravação de um terceiro álbum. Porém, nem só faltam as ideias como a escolha de produtor se revela ainda mais equívoca que no disco de 1985.

Andaram de produtor em produtor até fazer a escolha e, pelo caminho, passaram pelo estúdio de Stewart Copeland (o ex-Police), com o qual chegaram mesmo assim a gravar um tema. Acabariam contudo a trabalhar com Ian Stanley (que tinha sido um dos responsáveis pelo som imaculadamente polido de Songs From The Big Chair dos Tears For Fears). O processo de gravação foi tão moroso que, como os músicos agora lembram, não só se perdeu o sentido da intenção de criar um álbum que os levasse às grandes arenas, como no fim acabaram a reconhecer que nem sequer tinham uma real direção para o disco. Dividem-se contudo na forma de contar o fim. Lloyd Cole diz que foi a meio das gravações que juntou a banda para dizer que faria uma pausa depois. O grupo, que já se começara a fragmentar, diz que este encontro terá sido no fim das sessões.

Mainstream, terceiro e último álbum de estúdio da banda, sai em outubro de 1987 e nem só o álbum atinge as vendas na ordem do milhão necessárias para cobrir os elevadíssimos custos de estúdio como os singles – entre os quais o belíssimo From The Hip – ficam aquém do sucesso esperado. A separação definitiva fica contudo adiada para depois de uma digressão, para a qual partem contudo já com a ideia do ponto final. Em 1989 um best of arrumava a casa, antes de Lloyd Cole partir para um caminho a solo no qual contou (desde sempre) com a contribuição do guitarrista Neil Clark e, nos dois primeiros álbuns, com o teclista Blair Cowan. Donegan, o baixista, enveredara já, antes de Mainstream, por uma carreira no jornalismo, tendo entretanto assinado alguns livros. E o baterista Stephen Irvine, além de trabalhar com os Del Amitri, Etienne Daho e Sarah Cracknell, tem desenvolvido sobretudo uma atividade na área do management.

A caixa que agora conta a história de Lloyd Cole e dos Commotions junta aos três álbuns de estúdio Rattlesnakes (1984), Easy Pieces (1985) e Mainstream (1987) um disco com lados B (com dois inéditos) e ainda um CD extra com maquetes e raridades, todas delas nunca editadas antes. Um DVD recorda depois a história dos dez telediscos criados para as canções da banda e uma seleção de registos de atuações em programas da BBC entre 1984 e 1987. Sem este acervo não se conta a história da música pop que se fez nos anos 80. E apesar da mais vasta extensão da obra a solo de Lloyd Cole, o melhor da sua discografia está por aqui.

A caixa “Lloyd Cole and The Commotions – Collected Recordings 1983-1989”, que inclui 5 CD, um DVD, um livro, um conjunto de três reproduções de fotos a preto e branco e um poster, está editada entre nós pela Universal.

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