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O regresso do Mal

Texto: NUNO CARVALHO

Realizado dois anos após o influente “Halloween”, “O Nevoeiro” (1980) é um “thriller” sobrenatural a que o engenho de John Carpenter conseguiu dar uma espessura metafórica para lá da simples história de fantasmas à moda antiga.

Tal como George A. Romero criou um modelo de filme de zombies, apesar de essa tradição cinematográfica remontar já a obras como, por exemplo, White Zombie (1932), também John Carpenter cunhou um género (o slasher) em Halloween (1978), filme que gerou uma multidão de descendências (mas também muitas degenerescências). De resto, é hoje consensual a ideia de que gerou até mais degenerescências do que dignas descendências. Se o cinema de terror é hoje um género maioritariamente formatado e quase inteiramente dominado por filmes de má qualidade, então nem valerá a pena falar do subgénero slasher, completamente saturado. Mas se o slasher movie sempre foi um género pouco interessante e muito dirigido a um público pubescente, convém não esquecer que teve como principal “pai fundador” um cineasta como John Carpenter (que, na nossa opinião, e corroborando a perceção que dele se tem no continente europeu, é um autor estimulante e vibrante, como o considera aliás boa parte da crítica francesa, e não um “vagabundo sem préstimo” como o próprio diz ser visto nos Estados Unidos). De resto, é curioso verificar que, dois anos após realizar o já citado e influente Halloween, Carpenter assinava um outro filme que, apesar de fazer bons números de bilheteira (embora não muito bem recebido pela generalidade da crítica), foi ainda assim batido no box-office por um slasher muito menos inventivo e ousado como Sexta-Feira 13, de Sean S. Cunningham. Falamos de O Nevoeiro (1980), um thriller que, um pouco à semelhança do que sucedeu com The Shining, de Stanley Kubrick (produção do mesmo ano), teve fraca receção crítica mas que é hoje, 35 anos volvidos sobre a data da sua estreia, considerado um clássico do género.

O grande engenho de Carpenter em O Nevoeiro é conseguir dar espessura metafórica àquilo que, sem essa dimensão, não seria mais do que uma história de fantasmas à moda antiga. E se é difícil ou mesmo impossível, pelo menos sem suspensão da descrença, acreditar ou levar a sério os fantasmas literais escondidos na bruma, esse problema é resolvido através da forma como o realizador insufla neste thriller sobrenatural um nível mais profundo de leitura. A história do filme é simples e assenta no conceito bíblico de maldição hereditária. Na noite em que se celebra o centenário da fundação de Antonio Bay, uma pequena comunidade costeira da Califórnia, um estranho e luminescente nevoeiro invade progressivamente a vila. Porém, não se trata de um nevoeiro qualquer, mas sim de uma bruma cerradíssima e amaldiçoada, com vida própria, e que esconde no seu interior fantasmas da tripulação de uma embarcação malograda que espalham a morte e que vêm cobrar uma dívida moral e vital contraída pelos fundadores da povoação que contra ela conspiraram e a empurraram para um destino fatídico.

Na verdade, o que distancia O Nevoeiro de um vulgar slasher é não só o facto de o realizador acreditar que “menos é mais”, nunca objetivando inteiramente a ameaça que alastra e que cria um cerco asfixiante às personagens, mas também o modo como se demarca e distingue da moralidade que domina esse tipo de filmes (que é extremamente conservadora e que de uma forma geral se reduz ao primarismo da punição violenta de adolescentes que se comportam mal ou que fazem o que os autores desses filmes acham que eles não deviam fazer – sendo o interdito merecedor do castigo mortal quase invariavelmente de natureza sexual). Felizmente, no filme de Carpenter não há nem adolescentes nem noções pedestres de moralidade. Antes pelo contrário, a visão de mundo implícita em O Nevoeiro é bastante amoral e secularista. Se bem que a história possa parecer um típico conto de vingança e “amortização” (ou “mortalização”) de pesadas dívidas morais, depressa percebemos, pelas vítimas aleatórias e pacatas que as criaturas do além “sacrificam”, que, tal como Richard Dawkins se refere à seleção natural como “o relojoeiro cego” (porque não planeia efeitos nem tem um propósito em vista), este nevoeiro também é cego, uma força sem limites que, assim como um furacão ou uma violenta tempestade, ceifa cega e brutalmente quem apanha pela frente. No entanto, se há moral terrena discernível neste thriller atmosférico que aposta numa metafísica do terror, essa moral é personificada pela protagonista, Stevie Wayne, uma radialista e mãe solteira com um espírito independente que acaba por ser o posto avançado de vigia (uma condição ao mesmo tempo vulnerável e corajosa) que dá o alerta para a “realidade” do Mal. Carpenter parece, na verdade, não embarcar na conversa fiada de líricos ingénuos e de românticos desavisados de que o “Mal é insubstancial”. Neste filme, o nevoeiro tem uma aparência insubstancial e fantasmática, mas o seu poder letal é bastante real. There’s something in the fog

“O Nevoeiro”
Realização: John Carpenter
Elenco: Adrienne Barbeau, Jamie Lee Curtis, Janet Leigh, Hal Holbrook, John Houseman
DVD NOS Audiovisuais

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