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Dez canções para não esquecer Hiroxima

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje 70 anos sobre a manhã em que uma bomba atómica explodiu sobre a cidade japonesa de Hiroxima. Ao longo dos anos a música fez questão de nunca votar esse dia ao silêncio. Pode ouvir aqui algumas dessas canções.

Há canções que, como outras formas de expressão artística, fixam momentos, que guardam retratos e acabam por ser tão importantes no contar da história como os relatos e conclusões que podemos retirar de documentos, de entrevistas, de velhos livros… Afinal podem ser expressões de factos, juntando a carga interpretativa e emocional com que os podemos lembrar. E a objetividade do contar dos tempos não deve esquecer estas formas de relatar ou assimilar o que aconteceu. Não se conta a batalha de Hastings sem falar na tapeçaria de Bayeux. Assim como não se evoca Hiroxima sem lembrar, por exemplo, os Secos e Molhados… E Vinicius, claro.

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
(excerto de Rosa de Hiroshima)

O poema de Vinicius de Moraes, com música de Gerson Conrad, surgiu em 1973 no alinhamento do álbum de estreia dos Secos & Molhados, trio no qual militavam ainda João Ricardo e Ney Matogrosso, este tendo mantido a canção bem viva em palco mesmo depois de iniciada a sua carreira a solo. Lançada ainda em plena ditadura militar, Rosa de Hiroshima, que se revelou logo a canção mais tocada nas rádios brasileiras no ano em que surgiu, é uma entre a vasta família de hinos pacifistas que nasceram da memória daquela que foi, faz hoje 70 anos, a primeira detonação de uma bomba atómica sobre um alvo em tempo de guerra.

6 de agosto de 1945
Eram 8.15 da manhã, hora japonesa, quando o Enola Gay, um dos aviões B-29 da missão que previa o lançamento de uma primeira bomba nuclear, sobrevoa a cidade de Hiroxima, escolhida como primeiro alvo. Apesar da capitulação alemã na Europa, a guerra continuava no Pacífico, apesar dos avanços recentes da aviação e marinha americanas, que tinham conquistado importantes bases em Okinawa ou Iwo Jima, de onde foram lançadas importantes missões de bombardeamento que haviam devastado várias cidades japonesas nos últimos meses. Numa mesma altura em que se planeava uma invasão por terra – que deveria acontecer em novembro –, os esforços de um grupo liderado por Oppenheimer tinham conduzido a uma primeira explosão bem-sucedida de um engenho atómico no Novo México, onde o programa nuclear americano tinha encontrado a sua sede. Tomada a opção estratégica de avançar com um programa de bombardeamentos atómicos, várias cidades japonesas foram “poupadas” aos raides incendiários que, por exemplo, só na noite de 9 para 10 de março ceifaram cerca de 100 mil vidas em Tóquio, naquele que fora até aí o mais mortífero ataque aéreo da II Guerra Mundial. Cidades como Hiroxima, Quioto, Nagasáqui ou Kokura ficaram de fora do mapa de raides e também dos panfletos que, lançados pelos americanos sobre o Japão, indicavam cidades na mira dos bombardeiros, com uma nota em favor de um pedido de rendição do imperador.

Uma equipa, comandada por Paul Tibbets, tinha efetuado cerca de meia centena de exercícios de lançamento de projéteis sobre alvos a partir de uma grande altitude e estava já estacionada numa base nas ilhas Marianas (que definem os limites Leste do mar das Filipinas), de onde seria lançado o ataque. Ali tinham entretanto chegado as duas primeiras bombas, relativamente diferentes entre si. A Little Boy estava destinada ao primeiro lançamento, a Fat Boy ao segundo. Uma terceira estaria apenas pronta em meados de agosto. E outras mais apenas em setembro e outubro. Debatida e declinada uma proposta de aviso prévio, o bombardeamento avançou a 6 de agosto de 1945, partindo os aviões – o que transportava a bomba e outros dois – da pequena ilha de Tinian, devendo cumprir seis horas de voo até atingir Hiroxima, sobre a qual a meteorologia previa céu limpo ou pouco nublado.

A bomba só foi artilhada em voo, sendo removidos os dispositivos de segurança a 30 minutos do lançamento. Às 8.15, tal e qual previsto, é largada sobre a cidade, explodindo a cerca de 580 metros do solo, após uma queda de 44 segundos durante a qual o Enola Gay se afastou, estando já a 18,5 quilómetros do local quando sentiu as ondas de choque da detonação. Apesar dos relatórios técnicos terem dado a explosão como relativamente “ineficiente”, o raio de destruição e a quantidade de vidas ceifadas representou algo nunca antes visto. Quase 70 por cento das construções na cidade foram devastadas, resistindo apenas algumas estruturas mais fortes, entre elas aquela que hoje se recorda como Genbaku Domu, edifício de 1915 destinado a exposições que ficou a 150 metros do ponto no solo sob o local onde se deu a explosão e que hoje é um monumento com um profundo significado pela paz. O silêncio que se fez alertou não só a rede de emissores de rádio como bases militares na região sul do Japão. A consciência do que se passara chegou apenas quando, após três horas de voo de reconhecimento, um oficial enviado para averiguar o sucedido repara primeiro numa grande nuvem sobre a cidade e, mais perto, as imagens de destruição. Apesar da notícia então dada pelo presidente americano Harry Truman, a confirmação de que se tratara de facto de uma explosão atómica seria confirmada no dia 7 após observações e análises in loco por uma equipa de físicos japoneses.

Três dias depois de Hiroxima, e logo após o início de uma invasão por terra da Manchúria pelo Exército Vermelho, uma segunda explosão causa igual devastação em Nagasáqui, após falhar o alvo, originalmente apontado a Kokura – a troca dando-se por consequência de fumos decorrentes de bombardeamentos na região que então tornavam impossível escolher um alvo no solo. Até então o Japão insistia em termos de rendição já propostos mas recusados. Três dias depois de Nagasáqui o imperador avisa a família que aceita uma nova rendição, mediante apenas o reconhecimento americano de que a soberania se mantém na sua mão. E no dia 15 a capitulação é transmitida pela rádio numa mensagem na sua voz gravada na véspera.

O debate ético não ficou contudo abafado pelo ponto final a seis anos de conflito militar à escala planetária. Uma primeira reportagem é feita in loco por um jornalista britânico que chega com o primeiro contingente militar a solo japonês. Publicada a 2 de setembro no Daily Express, será a primeira de muitas outras que darão conta não apenas dos efeitos de destruição imediata sobre estruturas e vidas, mas também os efeitos que, nos anos seguintes, se continuarão a registar sobre os sobreviventes.

A dificuldade em identificar quantos ali estariam naquelas duas manhãs dá um cálculo de, no mínimo, 129 mil mortos entre as duas explosões, os números na verdade podendo chegar quase ao dobro.

Para não fazer silêncio
Os livros, os filmes e também a música não fizeram silêncio. E a Rosa de Hiroshima é apenas uma entre as muitas canções que, desde aquela manhã de há 70 anos, se encarregaram de não deixar esta memória – e a de Nagasáqui – ser esquecida, inevitavelmente transportando ecos de uma voz pacifista. Hiroshima, que podemos escutar no álbum de 1972 de Georges Moustaki (que cantaria Nagasáqui em Demain), é um exemplo. Outro, mais perto de nós, será a Cantata da Paz de Francisco Fanhais, sobre um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, incluída no álbum de 1970 Canções da Cidade Nova. Em Cuckooland, em 2003, Robert Wyatt lembra, pela força do som das palavras, as duas cidades japonesas devastadas há 70 anos em Foreign Accents.

Se Bob Dylan cantou pela paz e pelo receio de um conflito nuclear em algumas trovas fulcrais que dele fizeram uma das vozes “de protesto” da América de 60, tanto Pete Seger (em 1962) como os Byrds (em 67) fizeram de um poema de Nazim Hikmet um hino claro pela memória de Hiroxima em I Come and Stand on Every Door.

A pop também cantou Hiroxima. Enola Gay, single de 1981 dos Orchestral Manouevers in the Dark, recorda os acontecimentos do ponto de vista daqueles que seguiam a bordo do bombardeiro. Os ecos da destruição passam, por exemplo, por Grey Victory, dos 10.000 Manics. Em terreno rock’n’roll, Gray Moore cantou Hiroshima como faixa de abertura do álbum Dirty Fingers em 1983.

Os Kraftwerk, que em 1975 lançaram o álbum Radio-Activity sob uma relação pouco clara se ali se referiam sobretudo à rádio como forma de comunicação ou à radioatividade, passaram a explicitar esta segunda leitura em palco desde os anos 90, referindo claramente Hiroxima na versão que ainda hoje apresentam.

Hiroxima e Nagasáqui também chegaram ao jazz e à música orquestral. John Coltrane compôs Peace on Earth após uma visita ao parque em Nagasáqui que é hoje um memorial pelos que morreram naquele dia. O polaco Kryzstof Penderecki compôs em 1960 Tren Ofiariom Hyroszimy – Tren, uma obra para 53 instrumentos de cordas que anos mais tarde Kubrick usaria na banda sonora de The Shining. Mais recente, estreada em 2005, a ópera Doctor Atomic, de John Adams, foca atenções na figura de Oppenheimer na véspera do primeiro teste em Los Alamos, que precedeu a luz verde para os lançamentos sobre Hiroxima e Nagasáqui.

Uma seleção de nove destas destas canções pode escutar-se aqui:

 

E como um panorama de canções evocativas do bombardeamento de Hiroxima não podia esquecer a música japonesa, fazemos do número dez desta lista o tema Ippon No Empistu, que a cantora Hibari Misora apresentou em 1974 no primeiro festival de paz em Hiroxima e no qual canta que, se tivesse um lápis, escreveria “vida humana”, lembrando explicitamente a data de 6 de agosto.

Podem ouvir aqui:

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