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Slow sci-fi

Texto: NUNO GALOPIM

“Silent Running”, de Douglas Trumbull, ficou de fora do Top 10 que aqui apresentámos há poucas semanas, mas é um caso notável na história do cinema de ficção científica. Uma recente edição em Blu-ray permite um bom reencontro com o filme.

O cinema de ficção científica, mesmo procurando muitas vezes uma projecção de ideias e narrativas no futuro, não deixa nunca de ser expressão das realidades do seu tempo. E Silent Running (1972) – que entre nós passou pelas salas de cinema como O Cosmonauta Perdido -,  é um belo exemplo de como os ares e os olhares de inícios dos setentas se projectam numa história apontada a outro tempo e outro lugar. Em tempo de protestos pacifistas (com a ameaça nuclear sob crítica) e de um despertar de uma cultura ecologista, o filme transporta alguma dessa inquietude para bordo de um cargueiro do futuro que a bordo leva o que resta da flora da Terra (cujo ar se tornara coisa irrespirável), aguardando um tempo para uma eventual reflorestação quando o ambiente estiver mais favorável. E andam eles pelos lados de Saturno quando chegam ordens de quem gere a frota para que destruam os módulos em forma de cúpula com as plantas, devolvendo assim as naves às suas tarefas comerciais… É aí que um botânico inofensivo (interpretado por Bruce Dern) decide agir, matando os demais elementos da tripulação, fugindo pelo Espaço, levando consigo o que resta das florestas, mais três pequenos robots (a quem ensina a jogar cartas e a tratar das plantas… o que se revelará opção útil a dada altura da narrativa)… A pose algo hippie abraçada pelo botânico solitário, mais as canções (muito datadas) de Joan Baez aprofundam ainda mais a relação do filme com as marcas do seu tempo, que se notam a olhos vistos agora, a quase 40 anos de distância.

Outra das interessantes marcas “de época” ganha forma na direcção artística que transporta algumas ideias de design e arquitectura do seu tempo (vejam-se algumas peças do mobiliário, adereços e mesmo as formas das cúpulas florestais), a equipa tendo visitado a Expo de Osaka, no Japão, em busca de inspiração, entre os pavilhões tendo encontrado ideias que usou no filme.

O tom minimalista da história foi apontado por Duncan Jones como uma das fontes de inspiração para o seu brilhante Moon (onde, contudo, serve a narrativa com um argumento bem mais nutrido que a escrita de dieta sobre a qual Trumbull trabalha em Silent Running). A relação de Trumbull com Kubrick e Malick justifica também a curiosidade de novos espectadores. Que não esperem, contudo, mais que uma curiosidade ímpar numa etapa em que, depois da era de baixos orçamentos dos anos 50 e 60, a ficção científica procurava novos caminhos depois das visões entretanto lançadas por Planeta Proíbido e, sobretudo, 2001: Odisseia no Espaço.

A recente edição em Blu Ray é contudo exemplar. Não só pela soberba transcrição digital do filme como pelos conteúdos adicionais (entre os quais um extenso documentário criado na época da estreia sobre os bastidores da rodagem e mostra como de um porta aviões real, a caminho da sucata, nasceu um cargueiro espacial do futuro), um booklet de 48 páginas juntando fotos e esboços criados durante a produção, com textos que enquadram a criação do filme no seu tempo.

Muito citado quando Moon, de Duncan Jones chegou aos ecrãs, novamente referenciado por ocasião de Gravidade, de Alfonso Cuarón, em Silent Running devemos reconhecer também um paradigma fundador de uma noção de “slow cinema” de uma certa ficção científica.

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