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Três filmes para evocar a guerra no Pacífico

Texto: NUNO GALOPIM

70 anos depois do dia em que uma mensagem do imperador Hiroito foi transmitida na rádio, assumindo a rendição do Japão, recordamos três filmes que tiveram por cenário momentos da guerra no Pacífico.

A 14 de agosto de 1945 a transmissão pela rádio de uma mensagem de rendição lida pela imperador japonês Hiroito assinalava o principio do fim da guerra no Pacífico e o desfecho definitivo da II Guerra Mundial. Pouco desejada por muitos militares, a mensagem, escrita e lida poucos dias após os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui, não teve uma história pacífica. Foi gravada no Palácio Imperial na véspera da sua transmissão, representando a primeira alocução via rádio do soberano. Centenas de militares tentaram invadir o palácio na véspera, em busca do registo, procurando assim impedir a sua transmissão e consequente pedido de rendição. A geometria difícil do conjunto de construções e jardins dificultou a localização da gravação, que chegaria à estação de rádio transportada escondida entre um cesto de roupa. Depois de transmitida a gravação original desapareceu, cabendo à iniciativa de um operador, que a copiara entretanto, a existência no presente desse registo do qual foi divulgada no passado dia um uma nova versão remasterizada, em suporte digital.

A transmissão abriu caminho à rendição japonesa. Mas houve focos de combate acesos ainda durante alguns dias. E antes da assinatura formal da rendição, que seria apenas feita a 2 de setembro, houve ainda movimentações russas no norte da Coreia, a retomada de Hong Kong pelos ingleses e, a 29 de agosto, a chegada a Tóquio do exército americano de ocupação.

Apesar de não tantas vezes representados no cinema como os cenários de guerra em solo europeu e norte de África, os focos de guerra no Pacífico geraram uma filmografia igualmente vasta e variada, somando mesmo vários pontos de vista (como por exemplo podemos recordar num díptico assinado por Clint Eastwood) e ensaiando até mesmo o registo da comédia (como em 1941, de Spielberg). Em tempo de lembrar o fim do conflito, fica a sugestão de três grandes filmes que lembram aqueles tempos e lugares, todos eles sobretudo atentos aqueles que combateram.

“Feliz Natal Mr Lawrence”
de Nagisa Oshima (1982)

Um dos mais impressionantes olhares japoneses sobre o conflito tem por cenário o espaço de um campo de prisioneiros de guerra. Baseado numa memória de Laurens Van der Post, o filme explora sobretudo o relacionamento entre um oficial neozelandês (interpretado por David Bowie, naquele que é talvez o seu mais importante papel no cinema), um oficial britânico que residira no Japão (Tom Conti), o comandante do campo (Ryuichi Sakamoto) e o seu impiedoso sargento (Takeshi Kitano). Culpa, vergonha e desejo corroem ali tanto quanto o calor e a distância de um quotidiano como o de outrora. Convém não esquecer a espantosa banda sonora, assinada por Sakamoto e na qual colaborou, em Forbidden Colors, David Sylvian.

“A Barreira Invisível”
de Terrence Malick (1998)

Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, representou o regresso de Terrence Malick após longo silêncio de 20 anos (o anterior Dias do Paraíso datava de 1978). O filme que ensaia um modelo narrativo e um registo na montagem e de relacionamento com a música e as vozes em off que atingiria mais tarde a sua expressão maior em A Árvore da Vida, acompanha um contingente de soldados norte-americanos em cenário de batalha na ilha de Guadalcanal (nas Ilhas Salomão) em 1942, tendo por ponto de partida o romance homónimo de James Jones. Mais que a ação Malick procura escutar o que sente quem ali está, contando com um elenco onde se destacam nomes como os de Jim Cavaziel, George Clooney, Adrien Brody, John Cusack, Woody Harrelsson, Nick Nolte ou Jared Leto. Nota ainda para a banda sonora, que entre as várias contribuições e recolhas integra um conjunto de gravações de canções de povos das ilhas da região.

“Cartas de Iwo Jima”
de Clint Eastwood (2009)

Há sempre dois lados numa guerra. E no díptico As Bandeiras dos Nossos Pais / Cartas de Iwo Jima Clint Eastwood vinca claramente essa mesma realidade ao olhar um mesmo momento na história, num mesmo local, mas de pontos diferentes, no primeiro dos dois filmes olhando o lado americano, no segundo o japonês, havendo mesmo a dado momento um instante no qual se abre uma janela em que um filme comunica diretamente com ações e consequências diretas que vemos no outro. Com a importante Batalha de Iwo Jima (em fereveiro e março de 1945) como cenário, os dois filmes são assim um dos mais completos olhares sobre um instante do conflito, tendo o segundo um elenco todo ele japonês.

1 Comment on Três filmes para evocar a guerra no Pacífico

  1. Enorme, estratosférico e brilhante, o Thin Red Line.

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