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A sátira política, segundo Steinbeck

Texto: NUNO GALOPIM

Não é um dos títulos centrais do “cânone”, mas “O Breve Reinado de Pepino IV”, originalmente publicado em 1957, não deixa de ser um dos títulos mais interessantes da obra de John Steinbeck.

É natural que ao falar de John Steinbeck façamos imediatamente associações a títulos da sua obra como As Vinhas da Ira, A Leste do Paraíso ou A Um Deus Desconhecido… Por elas todas passam importantes retratos e reflexões sobre a América, representando a sua obra de resto uma das mais representativas da cultura americana do século XX. Mas há mais do que apenas América na obra de Steinbeck, e não é preciso passar pelas memórias e experiências vividas durante a II Guerra Mundial para na sua escrita encontrar outros azimutes e destinos. E a pequena sátira política, que em 1957 publicou como O Breve Reinado de Pepino IV é um belo exemplo do que há a (re)descobrir em Steinbeck para lá do que o “cânone” habitualmente vai citando.

Num tempo de descontentamento generalizado dos cidadãos perante os políticos, este pequeno romance imagina uma crise política na França do pós-guerra, mas num tempo em que ainda não se vislumbravam os acontecimentos do Maio de 68.

A incapacidade dos representantes parlamentares em encontrar uma solução de governo no quadro do regime vigente faz com que alguém surgira: e porque não a restauração da monarquia? Uma sugestão que poderia parecer a menos provável de ter consequência no país que vivera já duas revoluções republicanas – uma eclodida em 1789, a outra tendo acontecido em 1848 – e que, desde a derrota de 1870 e da consequente queda de Napoleão III , não conhecia senão um regime chefiado por um Presidente eleito. A verdade é que entre todos os partidos nasce uma estranha unanimidade ao fim de uma reunião quase sem fim que decorrera no Eliseu. Os radicais conservadores, os conservadores radicais, os realistas, os centro-direita, os centro-esquerda, os ateus-cristãos, os cristãos-cristãos, os comunistas cristãos, os proto-comunistas, os neo-comunistas, os socialistas e os comunistas… Todos eles, após três dias de discussão, uns dormindo nos sofás de brocado do grande salão de festas, comendo pão com queijo e vinho da Argélia, dado pelo Presidente, optam pela restauração da monarquia.

O passo seguinte, igualmente delicado, era o que pontaria à escolha da casa real? Quem ocuparia o trono? Um descendente dos Bonaparte? Dos Bourbons? Dos Orleans?… Ou a opção recuaria mais ainda, rumo ao passado, procurando descendentes de Vércingetorix, dos Merovíngios, dos Carolíngios… E a discussão estala. Afinal era tão difícil escolher um rei como um governo.

A escolha acaba por incidir dobre Pepino Arnuf Héristal, descendente de Carlos Magno, mas com tudo na vida menos um horizonte político. Astrónomo amador, Pepino estava na realidade mais preocupado em garantir o registo de mais uma acontecimento no cosmos e a forma de pagar uma nova câmara, às escondidas da mulher, era a mais política das jogadas estratégias que os seus planos poderiam imaginar. Ei-lo que é aclamado, coroado, e dá por si a viver em Versalhes, juntamente com a mulher, Marie. O novo estatuto de Pepino deu também visibilidade maior à filha Clotilde que bem jovem tinha assinado um best seller entretanto levado ao cinema, tinha já viajado à América e de lá trazido um novo look usando blue jeans, depois disso tendo-se filiado no Partido Comunista e participado em piquetes de greve. A nova família real incluía ainda o tio Carlos Martel, um antiquário que não perdia oportunidade para vender o que dizia serem obras de grandes mestres, mas sem assinatura.

Incomodado com o “desconforto” do palácio e com saudades do seu telescópio, Pepino ganha o hábito de sair de Verlsalhes “à paisana”, passeando por Paris sem que ninguém o reconheça. O clima de crise contudo não se apaga e a solução monárquica, que chegara a ser tida como a salvação, em pouco tempo gera anti-corpos, uma vez mais caindo sobre um rei francês o risco de uma revolução.

Apesar dos vários momentos de sátira ideológica (mais que um debate sobre a monarquia é das diferenças de opinião entre os partidos e os grupos de interesse que vivem os conflitos aqui espelhados) e da janela de reflexão social que se abre no momento em que Pepino IV discursa no parlamento, Steinbeck não deixa nunca de fazer das personagens e da trama que as envolve o fio de prumo deste magnífico pequeno livro.

“O Breve Reinado de Pepino IV”, de John Steinbeck, está disponível numa edição pela Livros do Brasil, com tradução de José Carlos González.

1 Comment on A sátira política, segundo Steinbeck

  1. Também fora do cânone mas essencial é “Cannery row” (em Portugal traduzido como “Bairro da lata”). Na mesma linha, “Tortilla flat”.

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