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Uma visita ao Palácio de Queluz

Texto: NUNO GALOPIM

As paredes dominadas pelo azul cobalto que regressou às fachadas voltadas para os jardins representa um dos muitos motivos para ali regressar

Foto: Wilson Pereira

O azul cobalto, com pontuados de amarelo e molduras que durante anos o estuque escondera acolhem neste momento quem olhar para as fachadas voltadas para os jardins do Palácio de Queluz. O cor-de-rosa que aqueles paredes mostraram durante largas décadas (e que persiste por enquanto na fachada exterior, a recuperar e pintar numa próxima campanha) cede assim a vez aquela que foi a cor original do edifício, baseando-se esta decisão numa série de provas físicas e documentais que têm vindo a ser recolhidas, tendo os trabalhos de recuperação das paredes comprovado, em estuques e pigmentos anteriores e até aqui escondidos, que o que hoje ali vemos está mais perto do que conheceram aqueles que habitaram e passaram pelo edifício nos tempos de D. Pedro III e D. Maria I e, mais tarde, ainda durante os reinados de D. João VI, D. Pedro IV e D. Miguel, durante os quais o palácio foi habitualmente habitado. De então para cá, salvo pontuais temporadas de D. Luís e de D. Carlos, ficou votado a um espaço relativamente mais discreto, cabendo a D. Manuel II a doação da propriedade ao Estado.

A história do Palácio de Queluz precede a residência real que ali surgiu sob a condução de D. Pedro III e das equipas que ali chamou. Com um núcleo antigo correspondente a um palácio dos marqueses de Castelo Rodrigo (confiscado em 1642 pelas ligações da família ao regime dos Filipes e entregue por D. João IV à Casa do Infantado quando a cria em 1654), o palácio começou por emergir com novas formas para acolher D. Pedro III e D. Maria I, com uma primeira campanha de obras a partir de 1747, interrompida em parte pelo desvio de pessoal para a reconstrução de Lisboa algum tempo depois do terramoto. Sob a orientação do francês Jean-Baptiste Robillon uma nova extensa campanha acaba por dar ao palácio a sua forma mais elegante com que seria fixada a sua imagem, dotando-o ainda de algumas salas maiores para grandes eventos (não previstas no plano original), uma vez que aquela passou a dada a altura a ser a residência real principal, o que acontece sobretudo após a destruição da Real Barraca da Ajuda. Há ainda uma terceira fase de construção, no reinado de D. Maria I, que corresponde ao pavilhão (não visitável) que hoje acolhe os chefes de estado em visita a Portugal, e que ocupa o espaço que outrora acolhera uma Casa da Ópera que então seria demolida. A música não desapareceu nunca (nem hoje mesmo) de Queluz, e uma das maiores salas do edifício é-lhe dedicada.

Uma visita aos interiores começa pela imponente Sala do Trono, dominada pelos espelhos e dourados e pela Sala da Música que se segue. Uma sala de transição – a do Lanternim, dominada por um grande retrato de D. Miguel – permite o acesso não só à capela, como à sucessão de salas que fazem os aposentos de D. Maria Francisca Benedita, irmã mais nova de D. Maria I e viúva do príncipe herdeiro D. José morto aos 26 anos com varíola. Um pouco mais adiante, já a caminho da Sala dos Embaixadores, vale a pena olhar com alguma atenção um quarto em que as madeiras escuras dominam o mobiliário – como era frequente no mobiliário português dos tempos de D. José – e se pode ver um retrato do príncipe herdeiro atrás referido.

Antes de visitar o Pavilhão Robillon, que encerra o percurso, a Sala dos Embaixadores revela o gosto pela chamada chinoiserie muito característico da época e mostra-se de recheio algo minimalista, que corresponde de facto ao que quase sempre terá sido esta sala que recebeu festas, música e audiências. A entrada no Pavilhão Robillon (que nas fachadas exteriores apresenta os motivos escultóricos mais elaborados do edifício) faz-se pela Sala do Depacho, que abre depois caminho a uma zona de aposentos reais com o Toucador e Quarto da rainha Carlota Joaquina (que aqui viveu, antes e depois da etapa no Brasil), a bela Sala das Merendas (cujas pinturas, alusivas às quatro estações do ano, foram poupadas ao incêndio de 1934 porque dali tinham saído para restauro) e o quarto do rei – a Sala D. Quixote – que neste momento acolhe uma bem interessante exposição alusiva a D. Pedro IV, que ali nasceu e morreu, e que inclui algnus objetos pessoais, entre os quais um caderno-agenda com anotações do que fazer ao longo da semana em curso.

Um percurso por Queluz pede tempo. Não apenas para uma tranquila visita às salas, como pelos jardins que revelam em várias áreas soluções de arranjo bem distintas. O canal e a escadaria que Robillon criou para resolver o desnivelamento de terreno na traseira do pavilhão que ficou com o seu nome são elementos igualmente centrais na construção de um espaço que, protegido pela relativa austeridade da fachada exterior, não fazia supor, a não ser a quem ali entrasse, o que aconteceria do outro lado daquelas estruturas.

Depois de uma campanha de intervenção nas coberturas e da recuperação (agora concluída) das fachadas voltadas para os jardins, o Palácio de Queluz prepara-se para abrir no início do Outono uma nova cafetaria e uma zona para apresentação de eventos no piso inferior do Pavilhão Robillon.

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