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Estamos todos neste filme

Texto: NUNO GALOPIM

A primeira parte de “As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes dá-nos um retrato de nós mesmos e do país que temos num percurso que dilui documentarismo e ficção a bem de um retrato atual com um ponto de vista crítico.

Poucas vezes saímos da sala de cinema com a sensação de que o que acabámos de ver no ecrã fomos nós e não um qualquer outro. As histórias de desemprego contadas, sem maquilhagem, na primeira pessoa, os relatos in loco e na hora do encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo ou, mesmo em sátira ficcionada com vernáculo q.b., as negociações da dívida com a troika, não esquecendo a história do galo que incomodou uma povoação por cantar fora de horas (e por isso ocupou mais tempo de antena que outros assuntos nesses dias), habitam o tutano da primeira parte de um tríptico que, como fica expresso nas palavras do próprio realizador, é um filme ativista. E que, bem mais do que uma qualquer atualização para 2015 de uma trama lisboeta dos anos 40, traduz de facto a gente que somos, o momento que vivemos e o país que temos.

A ideia de esbatimento entre os planos da realidade e os da criação artística, os do documentarismo e os da ficção, é ponto de partida evidente e arrumado logo desde o prólogo que nos explica onde e quando vivemos aquelas imagens e histórias. Houve, como é já sobejamente sabido, um método. Durante um ano um comité de jornalistas selecionou e trabalhou histórias, cabendo depois ao realizador e equipa técnica e de atores (profissionais e locais) respirar os seus lugares e protagonistas logo que possível, a vertigem do acontecimento aproximando-se do que o jornalismo procura, o cinema propondo depois aquilo que os jornais e telejornais não podem fazer, procurando pontos de vista e chegando mesmo mais longe. Ou, pelo menos, alcançando a realidade por outros caminhos.

Estreado sob aclamação em Cannes, o tríptico As Mil e Uma Noites traz neste seu primeiro capítulo retratos de um Portugal sovado e frio. Tempo cinzento (na meteorologia, na economia e na alma dos cidadãos). E num ágil percurso entre factos e visões, entre instantes que documentam situações e vivências factuais, nasce uma unidade coesa e com sentido, que encontra na estrutura das Mil e Uma Noites um fio condutor que organiza ideias e nos faz depois querer esperar pela história seguinte.

As Mil e Uma Noites – Volume 1, O Inquieto é um retrato de um país que chega a quente (mesmo mostrando as imagens situações onde o frio domina). Usa a sátira e o nonsense como catalisadores que amplificam as intenções de mostrar a realidade. Não a ofuscando. Mas, e como o humor (bem feito) o sabe fazer, usando as armas da crítica com mais precisa pontaria. Na mouche Miguel. Na mouche!

Este é o filme que os portugueses deviam ver neste momento. Há um tempo de reflexão que nos acompanha ao sair da sala escura. E, neste caso, as passadas de regresso a casa transportam-nos do filme ao mundo real do qual ele nasce e ao qual nos faz regressar com mais viva e crítica consciência. Porque mesmo usando a fantasia e as ferramentas da ficção, há uma matéria prima real que pulsa a cada imagem ou fala. E poucas vezes o cinema a assimilou tão bem e na hora certa.

“As Mil e uma Noites – Volume 1, O Inquieto”, de Miguel Gomes, com Maria Rueff, Crista Alfaiate, Adriano Luz, Américo Silva, Rogério Samora, Carloto Cotta e Dinarte Branco, está em exibição nas salas portuguesas. A segunda parte estreia a 24 de setembro.

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