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Na esquina da rua 72

Texto: NUNO GALOPIM

Há roteiros para fãs dos Beatles em cidades como Liverpool (onde nasceram) ou Hamburgo (onde conquistraram experiência). Mas em Nova Iorque há lugares de romagem que um admirador dos ‘fab four’ não pode perder.

Foto: N.G.

Há roteiros “turísticos” para fãs dos Beatles. Naturalmente com Liverpool à cabeça das sugestões, tantos que são os lugares da cidade que acolheram episódios nas vidas dos músicos como os recantos que acabaram retratados em canções, de Penny Lane aos Strawberry Fields… Hamburgo é passagem fundamental em turismo beatlesco, podendo-se passar pela zona em volta da Reeperbahn e ainda hoje ver palcos como o Indra Club (no número 64 da Grosse Freiheit) ou o Keiserkeller (no número 38 da mesma rua), que acolheram, em finais dos anos 50 e inícios de 60, actuações que então ainda não adivinhavam a história que se seguiria à edição de Love Me Do… Londres é destino certo para o turista beatlesco, com paragens obrigatórias nos estúdios Abbey Road (com caneta nas mãos para pintalgar o muro com mais um autógrafo na melhor tradição “eu estive aqui”) ou frente ao número 3 de Saville Rd, junto à velha sede da Apple em cujo telhado o grupo deu aquele que foi o seu último “concerto” ao vivo, em Janeiro de 1969.

Mas estamos desta vez em Nova Iorque, outra das quatro cidades fundamentais no mapa-mundo do turismo para fãs dos Beatles. E não faltam aqui lugares para peregrinação…

Dos estúdios da CBS (na 5ª avenida) onde Ed Sullivan acolheu as míticas primeiras actuações televisivas do grupo nos EUA, em Fevereiro de 1964, ao Shea Stadium em Queens (a “casa” dos New York Mets) onde os Beatles deram um dos mais míticos dos seus concertos, em 1965, perante 55 mil fãs, o roteiro é vasto e, está visto, vai além de Manhattan.

Um dos ‘fab four’ fez de Nova Iorque a sua casa. E, mais que revisitar os lugares de passagens dos Beatles, muitos dos admiradores do grupo que visitam a cidade procuram os lugares onde Lennon viveu a maior parte dos seus dias depois da separação do grupo. Mas quando se fala em visitar a “casa” de Lennon e Yoko Ono em Nova Iorque, poucos imaginarão que se poderá estar a falar de um pequeno edifício, de porta discreta e poucos andares, no número 105 de Bank Street… É uma rua com trânsito de sentido único, em pleno Greenwich Village, o seu nome decorrendo do facto de ali ter existido, em finais do século XVIII, uma sucursal de um banco com sede em Wall Street. Pois esta foi a primeira casa de Lennon em Nova Iorque. Menos vistosa (e certamente mais económica) que aquela que, todos os dias, é visita de muitos que passam pela cidade: o Dakota…

É um prédio de apartamentos de luxo, exactamente na esquina de Central Park West com a rua 72. Foi mesmo o primeiro prédio de apartamentos de luxo da cidade e, quando inaugurou, não havia quase nada à sua volta…

É imponente. E nem só da memória de John Lennon vive a sua história, uma vez que desde que foi construído, em 1884, ali moraram, entre outras, figuras como Leonard Bernstein, Judy Garland, Boris Karloff ou Laureen Bacall. O edifício foi já celebrado pela literatura e cinema, as suas paredes surgindo, por exemplo, em Rosemary’s Baby de Roman Polanski ou Vanilla Sky, de Cameron Crowe.

Não é difícil “dar” com o Dakota. Há uma paragem de metro mesmo ali ao lado. E as características arquitectónicas não o permitem confundir com mais nenhum outro edifício nas imediações. E se ainda faltarem dívidas, basta olhar para a concentração de almas de máquina fotográfica apontada às suas paredes e janelas.

Era daquele lado… Não, era nos andares de cima… Ouvi dizer que tinham mais que um apartamento… As opiniões são muitas, as certezas nem por isso… Bom, Lennon morava no sétimo andar… E tinha cinco apartamentos no edifício (um residencial, um feito escritório, outro para convidados e dois para arrumações).

Mas é possível imaginar. Sobretudo o episódio que colocou o Dakota na história da música popular. Não como a mais célebre morada de Lennon em Nova Iorque. Mas como o lugar onde Mark Chapman o alvejou a 6 de Dezembro de 1980, vindo o músico a morrer não muito depois, já no Roosevelt Hospital, na rua 59 com a 10ª avenida.

A recriação que J.P. Schaefer dirigiu no algo ignorado Chapter 27 imagina de forma espantosa e clara a sucessão dos factos, colocando-nos no espaço de Chapman (aqui magistralmente interpretado por um Jared Leto que foi forçado a bizarra dieta para engordar, de facto, os valentes quilos que o papel lhe pedia)… O nome do filme, já agora, sugere uma ligação directa a Catcher In The Rhye, o livro de Salinger que Chapman tinha no bolso nesse dia e, tudo indica, terá moldado a sua atitude numa assimilação de ideias com o desfecho que todos conhecemos.

Com as memórias da história que a imprensa tantas vezes relatou desde esse já longínquo Dezembro de 1980 e as imagens de Chapter 27, uma passagem pela esquina da rua 72 com Central Park West transforma-se num instante carregado de sentidos. Olhamos para as janelas, tentando adivinhar em quais delas estaria o quarto onde, horas antes de alvejado, Lennon e Ono haviam sido fotografados por Annie Leibovitz. O olhar desvia-se então para o portão, já em plena rua 72. O mesmo junto ao qual Chapman tinha passado aquela manhã, com o recentemente editado Double Fantasy na mão, pedindo um autógrafo ao ex-Beatle. É aterradora a fotografia (que existe) onde se vê Lennon a dar o autógrafo.

Foi em torno do Dakota que, na manhã seguinte, se juntou, em sua memória, a primeira multidão de admiradores de Lennon. Não há dia em que não passe ali quem olhe para aquelas paredes e recorde esta história. E muitos são os que, depois do Dakota, entram pelo Central Park pelo caminho directamente em frente à rua 72, procurando o “memorial” que desde 1985 ali celebra a vida e obra do ilustre vizinho que ali vivera. Muitas vezes o “memorial”, numa zona do parque entretanto rebatizada como Strawberry Field, é descrito como um “mosaico” inspirado pelos de Pompeia, com a palavra ‘Imagine’ ao centro. O “imagine” lá está, de facto, no centro de uma rosácea. Mas na verdade o memorial foi feito por portugueses. Pompeia não parece morar nesta história… Acontece que pelos livros editados pelo mundo hora deve haver mais imagens dos mosaicos da cidade que o Vesúvio apagou do mapa no ano 79 que fotos das calçadas de Lisboa… Pompeia é mais mainstream que Lisboa, assim sendo… Talvez a nova vaga de turismo para estes lados mude a coisa.

Como explicam Luís Pinheiro de Almeida e a Teresa Lage no livro Beatles em Portugal, a ideia partiu de um português que viveu no mesmo andar de Yoko e Sean Lennon no Dakota. Basalto e calcário arranjavam-se por ali. De Lisboa partiram dois calceteiros que, em duas semanas, terminaram a obra. E está ali, numa “lágrima” do parque onde Lennon e Yoko por vezes passavam…  Mesmo ao lado do Dakota. Num lugar tranquilo e discreto, mas onde todos os dias não faltam visitantes. Ou seja, quem lidar mal com a planta com os caminhos e lagos do Central Park, não tem mais do que fazer senão seguir a multidão que for entrando entre o arvoredo ao lado do Dakota. Em menos de um minuto estarão em Strawberry Fields.

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