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O passado também habita o presente

Texto: NUNO GALOPIM

Um quarto de século após “Fakebook” os Yo La Tengo voltam a apresentar um disco dominado por versões, desta vez revisitando os The Cure ou Hank Williams e até mesmo algumas das suas próprias canções.

A vontade natural com que em várias frentes da criação se vive o pensar do “novo” não obriga a que se faça uma revolução a cada 15 dias. E algumas das que assim se apresentam, julgando que o são, acabam muitas vezes esquecidas na quinzena seguinte. A busca do novo não vive por isso permanentemente no limite da invenção nem tem de ser programa obrigatório para um artista 24 horas por dia, a sete dias por semana… Além disso nem todas as carreiras são capazes de desafiar as formas a ponto de dar seguros e cosequentes novos passos adiante a cada novo disco (isto falando já concretamente da música). Parar para pensar o presente habita naturalmente a alma de quem cria, e olhar para trás também não faz mal a ninguém, só não sendo coisa entusiasmante aquela rendição ao jeito “dantes é que era bom” que pode conduzir a caminhos feitos de costas voltadas para o hoje e o amanhã, encurralando as obras (e quem as escuta), nos pântanos pouco criativos da nostalgia que se fecha em si mesma sem mais consequências senão a contemplação do que antes já se fez. Olhar para trás ou refletir sobre o presente não implica necessariamente que se esgote a criação consequente na repetição. Repare-se até como, após uma sucessão de discos visionários, o regresso de Sufjan Stevens a uma simplicidade folksy que vivera em tempos idos lhe deu um dos melhores discos da sua obra onde, “de novo” apresenta mesmo um olhar mais franco que nunca sobre espaços mais próximos de si.

O que os Yo La Tengo nos trazem em Stuff Like That There é uma outra forma possível de parar para refletir sobre o que se é e o que antes se foi para depois, quem sabe, ensaiar nova caminhada. Não é a primeira vez que o fazem neste quadro de ideias. Formados em Hoboken (New Jersey) em 1984, tinham já em 1990 mostrado em Fakebook (sem relação possível com o nome de redes sociais, já que até nem Internet havia nesses dias) uma coleção de revisitações de canções de autores como Daniel Johnson, Cat Stevens ou John Cale, a elas juntando cinco originais. 25 anos depois, o novo disco sugere um segundo volume de versões, juntando uma vez mais autores admirados às composições do próprio grupo, desta vez contudo acrescentando a alguns inéditos um trio de remakes de temas do seu próprio catálogo. E aos mais de 30 anos de carreira, porque não assinar outras perspetivas sobre si mesmos (coisa que os Sparks tão bem fizeram, em finais dos noventas, em Plagiarism)? E por isso, ao lado de um Someone’s In Love dos Cosmic Rays (numa parceria com a Arkestra de Sun Ra), de I’m So Lonesome I Could Cry de Hank Williams, Butchie’s Tune dos The Lovin’ Spoonful, I Can Feel the Ice Melting dos The Parliaments, My Heart’s Not in It de Darlene McCrea ou Friday I’m In Love dos The Cure (ver vídeo mais abaixo), entre outros mais, escutamos novos olhares sobre canções dos próprios Yo La Tengo como All Your Secrets (do álbum Popular Songs, de 2009) ou Deeper Into Movies (de I can Hear The Heart Beating as One, de 1997).

Stuff Like That There restringe o campo de ação a um registo mais tranquilo, sob brisas americana, ecos de eletricidade e de heranças mais remotas – do classicismo dos sessentas e da face mais suave dos Velvet Underground a ecos da country – cruzando-se para definir um patamar tranquilo onde um punhado de canções constroem um corpo esteticamente uno e consequente. É certo que há espaços da obra (e sonoridade) da obra do grupo que ficam de fora. Mas este é um disco de diálogo com memórias e não um catálogo.

Tal como sucedera em 1990 em Fakebook, o novo disco volta a reunir o guitarrista Dave Schramm aos Yo La Tengo (músico que se afastara após o álbum de estreia Ride The Tiger, de 1986). Um quarteto, pelo menos para esta aventura em estúdio e a digressão que se segue, os Yo La Tengo servem a 2015 uma banda sonora de memórias vivas e transformadas, fiéis à sua identidade e percurso que mostram aqui como ter um ponto de vista sobre referências retro não tem que ser sinónimo de rendição a uma ideia contemplação inerte. Pode não ser um som novo (e as canções novas certamente não são, salvo dois inéditos). Mas “de novo” dão-nos mais um belo disco, sublinhando um estatuto que faz desta banda uma das referências mais sólidas, perenes e com personalidade demarcada do universo do rock alternativo norte-americano.

O álbum “Stuff Like That There” dos Yo La Tengo é editado em LP e CD pela Matador, que está representada entre nós pela Popstock. O disco está disponível nas plataformas digitais de streaming e download.

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