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Três filmes para recordar Luís XIV

Texto: NUNO GALOPIM

300 anos passados sobre a morte do monarca que reinou em França entre 1643 e 1715, lembramos momentos na história do cinema que evocaram a sua figura e legado.

"La Prise du Pouvoir Par Louis XIV", de Rossellini

A 1 de setembro de 2015 passaram 300 anos sobre o dia em que, ao fim de um longo reinado de 72 anos e 110 dias (o mais extenso de um monarca europeu), Luís XIV morreu no seu quarto, no Palácio de Versalhes. Expressão maior de um modelo de regime assente na autoridade absoluta do próprio rei – que colocou em prática apenas em 1661, após a morte do Cardeal Mazarin, que chefiara até então o seu governo – Luís XIV conheceu um tempo de vários confrontos e guerras. Mas foi no plano cultural que deixou as mais fortes marcas na história da França e da própria identidade europeia, datando do seu reinado a criação de obras marcantes de figuras como as de Molière, La Fontaine, Perraut ou Racine nas letras, nomes como os de Lully ou Marin Marais na música, não esquecendo Le Brun e Rigaud na pintura e, claro, o arquiteto Le Vau e o paisagista Le Nôtre, estes dois últimos intimamente ligados ao maior dos legados do reinado de Luís XIV: o Palácio de Versalhes, que se tornaria símbolo do regime.

Mais do que evocar Luís XIV através das obras destes seus contemporâneos – e na música têm surgido interessantes edições recentes com registos de obras da época – ou de livros e artigos que têm recordado a figura do rei e ecos do seu tempo, a Máquina de Escrever recorda aqui três filmes nos quais a sua personagem tem um papel determinante.

“La Prise du Pouvoir Par Louis XIV” (1966)
de Roberto Rossellini

Como muitas outras das produções de temática e histórica que o realizador italiano criou para a televisão, este filme, mais do que apresentar uma visão ficcionada da personagem e da época, é quase uma lição de histórica, diluindo todo um programa pedagógico numa mise en scène cuidada, procurando assegurar uma representação correta daquele tempo, da arquitetura, das artes decorativas e guarda-roupa. Não se trata de um biopic que evoca uma vida de fio a pavio, mas antes um olhar sobre como, entre a morte de Luis XIII e o assumir do poder absoluto, com a construção de Versalhes como símbolo maior do regime, a figura do monarca arquitetou todo um conjunto de situações e regras que estabeleceram as sólidas bases de um estatuto que, no fim, era incontestadamente seu.

“Le Roi Danse” (2000)
de Gérard Corbiau

A reconhecida admiração de Luís XIV pelas artes, em particular a música e a dança, são o terreno no qual Corbiau cria este retrato do rei (interpretado por Benoît Magimel) nos seus dias de juventude. Baseado no livro Lully ou le Musicien du Soleil (1992), biografia do compositor assinada por Philippe Beaussant, o filme centra atenções na relação de admiração do jovem monarca pela música de Lully e a recíproca dedicação que este lhe vota. O entusiasmo com que o rei abraça o talento de Molière e a má relação que estabelece com o antigo compositor da corte Robert Cambert ajudam a definir o cenário no qual evolui uma trama que se estende ao longo de vários anos, culminando no momento da estreia, em 1671, da ópera Pomonne, deste último.

“Nos Jardins do Rei” (2014)
de Alan Rickman

Naquela que foi a sua segunda experiência na realização, o ator (e realizador) Alan Rickman foca atenções na figura do paisagista Le Nôtre, responsável pelo desenho e construção dos jardins de Versalhes. O filme junta uma personagem ficcionada a um conjunto de figuras reais da época para, em primeiro lugar, discutir a própria essência de uma visão sobre o domínio da natureza pela geometria de desenho humano. Com várias outras histórias no plano humano, o filme tem num momento de solidão e pausa do rei (interpretado pelo próprio Rickman), durante o qual é tomado por um mero jardineiro, um dos seus momentos mais inesquecíveis. Por instantes, o aparato cede aqui ao ser humano e mostra um Luís XIV como habitualmente ele mesmo não se deixava ver.

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