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A maldição húngara

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Com “Béla Guttmann: uma história mundial do futebol”, de Detlev Claussen, a novíssima chancela Edições Paquiderme assume a publicação de uma biografia há muito negligenciada em Portugal, sobre o famoso treinador do Benfica dos idos anos 60.

George Steiner, uma vez, em palestra dedicada ao espírito ou à “ideia” de Europa, apontou os cafés como sendo os locais europeus por excelência. Cada um deles, individualmente, representava uma certa atitude nacional, local ou de um movimento artístico específico, desde os boémios de Praga ao Nicola lisboeta de Fernando Pessoa. Todos juntos desenhavam um mapa da diversidade e do espírito de rivalidade europeus. Enquanto houvesse cafés, afirmava Steiner, haveria Europa.

Não será por acaso, então, que Béla Guttmann, um judeu húngaro filho de professores de dança, que ele próprio praticou e ensinou antes de iniciar a carreira futebolística como médio centro no MTK de Budapeste, tenha entrado na maturidade desportiva ao chegar a Viena em 1922. Apesar de ter sido duas vezes campeão na Hungria, o antissemitismo e as restrições ao profissionalismo dos jogadores tornaram aquele país do Danúbio menos apetecível do que a outra nação independente surgida após o colapso do Império Austro-Húngaro: a Áustria. Poucos anos após o final da Grande Guerra, Guttmann não só chegava a Viena, uma das maiores cidades judaicas de então, como se juntava ao Hakoah, o maior clube desportivo judeu da Europa.

A importância de Viena no crescimento profissional de Guttmann não é de somenos. Era aqui que preponderava, no período entre as guerras, uma importante classe burguesa centro-europeia, que desafiava teorias antigas e propunha modelos novos. Daí que os próprios cafés tenham desempenhado papel importância na evolução das táticas de futebol. Era em redor das mesas de café da capital austríaca que os intelectuais – muito deles judeus – se dedicavam a formular novas funções táticas e a desenhar revolucionárias disposições dos jogadores em campo. É o jornalista inglês Jonathan Wilson, no clássico Inverting the Pyramid, que sublinha a importância destes locais, lembrando mesmo que cada clube ou grupo de adeptos – simultaneamente adstritos a identidades sociais distintas – tinha o seu próprio café: o Áustria de Viena (que então se chamava Wiener Amateur) tinha o Café Parsifal; o Rapid tinha o Café Holub; e por aí fora.

O Hakoah de Viena já era um clube temido no país e no continente, mas ainda se vivia então num clima de “falso amadorismo”, ou seja, com os clubes presos aos velhos ideais britânicos (e elitistas) do sportsmanship, mas com um número crescente de praticantes de classes baixas a precisar de se profissionalizar para obter rendimentos. Por outro lado, havia cada vez mais gente a ir aos estádios. Foi uma questão de tempo. O primeiro campeonato profissional da Europa continental tem lugar, precisamente, na Áustria e é conquistado pelo Hakoah de Béla Guttmann na época de 1924-25, clube que já se orgulhava de ter sido o primeiro a bater uma equipa inglesa – o West Ham United – em Inglaterra. E fê-lo clara e decisivamente, num expressivo 5-0.

Mais era mais do que futebol. O projeto do Hakoah, ainda mais do que outros clubes europeus, ultrapassava largamente os objetivos desportivos. Segundo o biógrafo Detlev Claussen, era “um projeto sionista e nacionalista judaico” e um verdadeiro farol para a cultura deste grupo étnico e social. E esta promoção não se ficava por Viena, tendo o clube feito tournées de grande sucesso em países estrangeiros, conseguindo lucros e aproximando-se das comunidades de judeus pelo mundo fora. A mistura de influências, no entanto, não estava confinada a nenhuma em particular. Era antes uma “mélange bem apimentada de futebol austríaco-húngaro-judaico”, como alguém, citado por Claussen, acertadamente referiu.

Uma das características que viriam a definir Béla Guttmann – e também um dos vários traços de personalidade, e de estilo, que normalmente se consideram comuns entre o treinador húngaro e José Mourinho – foi a sua incapacidade de se manter muito tempo no mesmo local. Na prática, ficava cerca de dois ou três anos num local e viajava para outro sítio. Ao terceiro ano de campanha de uma equipa de sucesso, acreditava, os jogadores tornavam-se complacentes, habituados ao sucesso e sem a fome de vencer que os levara a esse patamar. Foi essa característica que, muito antes de se revelar no treinador, se revelou no jogador, que mudou de clube em 1926, viajando para Nova Iorque, onde alinhou pelos New York Giants. Um êxodo que simultaneamente abriu os Estados Unidos ao futebol mundial (curiosamente, a sua liga profissional era, então, uma das mais sólidas) e desfalcou o futebol centro-europeu, já que vários jogadores austríacos e húngaros se transferiram para clubes norte-americanos.

O êxodo dos craques do Danúbio coincide, no entanto, com mudanças no futebol dos Estados Unidos, e o próprio Guttmann é apanhado na confusão. Sai dos Giants e decide formar uma equipa reminiscente do Hakoah no mesmo país e, certamente devido ao apoio da grande comunidade de judeus nova-iorquinos, na mesma cidade. Já não é a mesma liga, mas volta a vencer troféus nos Estados Unidos com esta reencarnação do Hakoah e, nos anos seguintes, com outros clubes de Nova Iorque. É também no Hakoah, mas no original de Viena, que acaba a sua carreira de jogador.

É a partir do início da sua carreira de treinador que a história de Béla Guttmann se passa a confundir cada vez mais com os tumultos políticos na Europa. Em 1935, após uma breve experiência como jogador-treinador no Hakoah, vai para a Holanda, onde fica aos comandos do Sportclub Enschede (que daria origem ao FC Twente) algum tempo. Daí, volta pra a Áustria, que em 1938 sofre o Anschluss, se une aos nazis e obriga Guttmann a viajar uma vez mais para a Hungria, onde vence tudo com o Újpest: o campeonato, a taça e a Taça Mitropa (uma das primeiras competições oficiais internacionais entre clubes, neste caso dos da Europa Central). A partir daí, não se sabe bem para onde foi. Segundo Detlev Claussen, embora sem certezas, o treinador húngaro terá passado à clandestinidade em Budapeste, onde foi escondido dos fascistas do Partido da Cruz de Flechas por amigos. Nunca viria a falar abertamente desse período da sua vida.

Depois da terrível experiência da II Guerra Mundial (que lhe levou um irmão, morto num campo de concentração), Guttmann volta ao futebol, a um mundo completamente diferente. O governo comunista na Hungria centraliza as várias dimensões da sociedade e da cultura, e o desporto não é exceção. É decidido que as estrelas do campeonato se deveriam concentrar no Újpest, treinado novamente por Guttmann, e no MTK, treinado pelo outro “cérebro” do futebol danubiano, Márton Bukovi. Era a habituação de jogarem juntos e de elevarem o nível técnico uns dos outros em face da sua rivalidade que daria o entrosamento e a experiência necessárias à consolidação da Aranycsapat, a “Equipa de Ouro” da seleção da Hungria, treinada pelo outro grande mestre deste trio que revolucionou o futebol do país e da Europa, Gusztáv Sebes. Neste contexto, “nascerão” os talentos de Ferenc Púskas, Nándor Hidegkuti, József Boszik e Lázsló Kubala (apesar de este último ter fugido do país quando o regime comunista se consolidou).

De certa forma, os comunistas húngaros tinham ido buscar inspiração à grande centralização e aproveitamento político do futebol feito pelos fascistas em Itália e pelos nazis na Alemanha. O mesmo seria repetido em décadas posteriores, na Argentina e no Brasil, na União Soviética, e em muitos outros regimes, que viram neste universo desportivo uma vasta cultura de massas ainda por explorar. Como poderia um evento destes, que reunia centenas de milhares de pessoas num estádio, à volta da rádio ou numa mesa de café a discutir, passar incólume sem ser politizado?

A própria expressão individual de cada um daqueles treinadores se refletirá no seu futuro. Sebes, um homem de esquerda, via na estratégia desportiva seguida pelo governo uma forma de materializar, diz Claussen, um “futebol socialista que traduzisse o potencial criativo das classes oprimidas num jogo de equipa cientificamente planeado”. Bukovi, menos politizado, tinha no entanto a visão mais completa das funções de uma equipa em campo e o conhecimento tático mais profundo, levando ao máximo as potencialidades do sistema WM, ao ensinar os seus jogadores a ocupar diferentes posições dentro dessa formação. Por fim, Guttmann cultivava um estilo individualista e ambicioso mas rigoroso e muito disciplinador, que motivaria, décadas depois, comparações com José Mourinho. Foi esse estilo pessoal que ajudou a definir a força do futebol húngaro das décadas de quarenta e cinquenta. Mas foi, sobretudo, essa sua atitude face ao profissionalismo do desporto que definiria o jogo para o futuro.

Não se deixava pisar por dirigentes num tempo em que as diferenças de classe entre a elite da direção e os jogadores e treinadores, recrutados entre classes modestas. Por essa razão, saiu de vários clubes por impulso, de um minuto para o outro, apenas como resposta às atitudes que considerava desrespeitosas. Fê-lo no Újpest quando um dirigente do clube quis interferir nos treinos (“Meu caro senhor, se está assim tão confiante nas suas capacidades é óbvio que não estou aqui a fazer nada”, disse, antes de sair). Voltará a fazê-lo em Itália, onde virá a treinar o AC Milan, depois de outras experiências. Em todos os clubes italianos, sairá em litígio com as direções.

Entre as suas muitas viagens pelo mundo, ao serviço de futebol, está aquela que o levou ao Brasil, onde contactou com a língua portuguesa. Em 1957, torna-se treinador do São Paulo e altera, para sempre, o futebol brasileiro. Para além das alterações táticas (que terão repercussão na seleção brasileira, que passará a jogar, em finais de da década de cinquenta e durante a de sessenta, num modelo cada vez mais parecido ao de Guttmann), foi importante o seu ensinamento de que o futebolista já não era apenas o praticante de um desporto, mas sim um profissional com enorme responsabilidade. Embora tivesse de “jogar bonito” – e Guttmann manter-se-ia, até à morte, um fã do futebol ofensivo –, cada jogador tinha de treinar intensamente e comportar-se de forma adequada ao seu estatuto, que estava em rápida ascensão. Ou seja, por um lado quis “superar o medo de rematar à baliza”, reduzindo a importância do drible nos noventa minutos do jogo, e, por outro, acabou com as festas noturnas e com os jogos de cartas e distrações por si consideradas inúteis. O futebol não mais seria o mesmo, e o húngaro teve importante papel nessa revolução.

Ao falhar a ida para selecionador austríaco, resolve, no entanto, ficar pela Europa, onde acredita poder vir a ser mais reconhecido. Talvez a língua portuguesa tenha tido influência na sua escolha do FC Porto, em 1958, onde vence logo o campeonato no primeiro e único ano em que treina a equipa (voltaria em 1973, na fase descendente da sua carreira), passando logo, no ano seguinte, para os rivais do Benfica. É aí, na Luz, que conseguirá alguns dos seus maiores feitos individuais, entrando simultaneamente na história do clube. Em 1960, conquista o campeonato português e abre a era dourada do Benfica. Em 1961, vence novamente o campeonato e a primeira Taça dos Campeões Europeus do clube. Contra os seus instintos, fica um terceiro ano – provavelmente porque era o primeiro ano de Eusébio, que descobriu e “roubou” ao rival Sporting – e, apesar de não vencer o campeonato, conquista, para surpresa de todos, a segunda Taça dos Campeões Europeus. Seria a última.

É com Guttmann que surge a superstição do clube da Luz, a “maldição de Guttmann”, que terá entrado em desacordo com os dirigentes do Benfica nas negociações para a renovação do contrato. Chocado com a recusa da direção em abrir os cordões à bolsa, terá dito que, sem ele, nunca voltariam a ganhar uma final europeia. Incrivelmente, confirmou-se, apesar das oito finais desde então disputadas pelos benfiquistas.

Moralmente, a conquista dos títulos europeus com o Benfica tivera um sabor especial para Béla Guttmann, um judeu húngaro desejoso de levar os outsiders a superar os favoritos. Algo que, enquanto pertencente a um grupo étnico perseguido e exterminado na Europa, queria mostrar ser possível quando se trabalha e se resiste. O outro legado que deixa, menos moral mas mais técnico, é a importância do trabalho no treino, que passa por uma grande transformação dos jogadores de funcionários a profissionais confiantes, ainda que mercê de uma grande submissão aos rigores da rotina. A sua reprimenda aos jogadores do Benfica que, em 1961, são apanhados na noite vienense, diz tudo: “Sem sacrifício não há sucesso no futebol! Nenhum exército vence qualquer batalha sem uma disciplina férrea. […] Qualquer jogador que não queira fazer os sacrifícios que considero necessários é livre de ir trabalhar para uma fábrica de sardinhas enlatadas”. Em alternativa ao difícil mundo do futebolista, o regresso bem mais terrível às raízes operárias.

O livro de Detlev Claussen, um sociólogo alemão que se dedicou a estudar temas como o racismo e as revoluções culturais e sociais do século XX europeu, ultrapassa em muito o mundo do futebol, resistindo a perseguir os aspetos mais supersticiosos e anedóticos da biografia do treinador, como a suposta “maldição de Guttmann”. Claussen sabe, pois, que o futebol não é uma dimensão menor do século XX do que a música, a televisão ou a própria religião. Todas elas são afetadas pelas convulsões político-sociais e todas elas atraem milhares. “A história do futebol não pode, por isso, ser tratada como uma questão menor”, diz o autor. “Ela faz parte de uma história global que não deixou o jogo incólume. A história de Béla Guttmann apenas pode ser compreendida por quem tiver presente a história do século XX e estiver disposto a lançar um breve olhar sobre uma história mundial do futebol.” A editora Paquiderme dá uma excelente ajuda, portanto, ao conhecimento do século XX, desmistificando uma personagem histórica e contribuindo para a destruição do mito do futebol enquanto fora da órbita do pensamento racional.

Detlev Claussen, “Béla Guttmann: uma história mundial do futebol”, Lisboa: Edições Paquiderme, 2015.

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