Namoradas zombies, avós possuídos e luso-exploitation na reentré cinematográfica
Texto: DIOGO SENO
Houve um “aquecimento” para o festival que marca a reentré cinematográfica lisboeta com sustos e sangue este último fim-de-semana, com alguns concertos, DJ sets e as projecções, ambas ao ar livre, de A Girl Walks Home Alone at Night e They Live, esta última num concorrido Largo de São Carlos. E hoje arranca o festival.
A edição deste ano abre oficialmente e encerra sob o signo do cinema de terror americano. Logo ao serão A Visita, de M. Night Shyamalan dá as boas-vindas ao festival que decorrerá maioritariamente no Cinema São Jorge, mas que se estenderá à Cinemateca Júnior. O filme de Shyamalan é um regresso aos projectos mais pessoais, após o fracasso dos filmes de maior orçamento como O Último Airbender, pelo que se espera uma obra à altura do currículo do realizador na década passada, com títulos como Sinais ou A Senhora da Água. É uma obra de found-footage, foi filmada em segredo e auto-financiada. Tratando-se do realizador de A Vila espera-se um twist e um visão pessoal que resgate o formato já gasto.
O filme de encerramento é Knock-Knock de Eli Roth, argumentista e realizador de Hostel, é um remake de Death Game (1977) e é protagonizado por Keanu Reeves.
A secção Serviço de Quarto, a maior do festival, revê a produção recente do género, e traz a Lisboa obras de realizadores consagrados do terror (Joe Dante, com Burying the Ex, uma zombie rom-com, ou Takashi Miike, com Yakuza Apocalypse), filmes que deram nas vistas noutros festivais (What we Do in the Shadows e Cop Car, vindos de Sundance ou Green Room, segunda longa-metragem de Jeremy Saulnier, mostrada em Cannes, e com Patrick Stewart e Anton Yelchin no elenco, este último em dois momentos do festival, pois é também o protagonista do filme de Dante) ou ainda Extinction, a estreia americana de Miguel Ánvel Vivas, realizador da curta-sensação I’ll See you in my Dreams, primeiro filme de zombies filmado em Portugal. É uma secção em que marcam presença as diferentes expressões e tendências recentes do género, abarcando produções de diversos países, realizadores consagrados lado-a-lado com estreantes, “microgéneros” como o mockumentary de terror junto com filmes-antologia.
Christopher Lee, uma das figuras de maior estima do cinema de terror, recentemente falecido, será homenageado com a projecção de Eugenie, do realizador de culto Jesus Franco. Eugenie, baseado em A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade, é uma escolha do crítico Stephane du Mesnildot para homenagear o actor, numa secção de sessões especiais que inclui também Roar, o clássico de culto The Rocky Horror Picture Show e episódios da nova temporada da série de terror juvenil Teen Wolf.
Richard Stanley, após um início de carreira bem sucedido nos videoclips, estreou-se nas longas-metragens em 1990 com Hardware, uma obra que mesclava o terror com o cyberpunk, que lhe valeu o elogio rasgado de Dario Argento, que o nomeou “o futuro do terror”. O MOTELx dedica-lhe uma retrospectiva com a exibição de Hardware e Dust Devil. Contudo, a década de 90 depressa desmentiu Argento, pois a terceira obra, uma adaptação de A Ilha de Dr. Moreau com um Marlon Brando irreconhecível no elenco, foi um gigantesco flop. É o ponto de partida do documentário Lost Soul – The Doomed Journey of Richard Stanley’s The Island of Dr Moreau, de David Gregory, onde se explora o percurso problemático da adaptação da obra de H.G. Wells.
Para completar a secção Doc Terror junta-se Dark Star – HR Giger’s World, no qual a jornalista Belinda Sallin proucurou o artista suíço e com ele viajou ao passado, numa altura em que a saúde deste já era débil. Autor do icónico monstro de Alien, que lhe valeu um óscar, Giger foi um artista plástico que criou muitas obras macabras para outros filmes e também para capas de álbuns, recentemente reavaliado pelo mundo da arte com algumas exposições em museus.
Ambas as propostas desta secção demonstram que nas lides do cinema, sobretudo no de género, carreiras estão sempre a ser reavaliadas e nada mais acertado do que um festival contribuir para a discussão.
E quanto à produção portuguesa? Para além da secção competitiva de curtas nacionais (são dez), o festival vai explorar a presença do fenómeno exploitation em Portugal. Foi escassa, longe do eixo de exploitation europeu (Itália-França-Espanha), mas existiu. São dois os filmes que compõem a secção Quarto Perdido – Lusoexploitation. A Caçada do Malhadeiro, revenge movie/western spaghetti da autoria de Quirino de Simões, teve vida comercial curta e reapareceu apenas agora, numa cópia nova com a mão da Cinemateca Portuguesa. Sinal Vermelho, do rei do exploitation espanhol Paul Naschy, foi resultado da insistência de António Vilar, actor português internacional (com trabalho sobretudo em Espanha) em trazer para Portugal o género exploitation. Duas obras perdidas, aqui recuperadas para traçar um percurso breve mas que vale a pena não deixar cair no esquecimento.
A secção Lobo Mau promete introduzir o género aos mais novos, numa tentativa de os aproximar de uma forma de arte que os confrontará com os seus medos. Pedagogia e alguns sustos, com a projecção das animações Monster House e Hotel Transylvania, bem como algumas actividades como um atelier na Cinemateca Junior e um peddy paper para crianças e famílias num assombrado cinema São Jorge.
Exposições, workshops, masterclasses (entre as quais uma pelo homenageado Richard Stanley e outra por Stephane Mesnildot em homenagem a Christopher Lee), compõem o programa do festival que decorre até domingo, dia 13.
Vi recentemente o Knock Knock – Tentações Perigosas: 2*
“Knock Knock – Tentações Perigosas” é apenas um filme razoável e desiludiu-me um bocado, “Knock Knock” poderia ter sido muito melhor e isso teria sido bom.
Cumprimentos, Frederico Daniel.
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