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Que fará o tirano quando tudo acaba?

Texto: NUNO GALOPIM

Em “O Presidente” o realizador iraniano Moshen Makhmalbaf apresenta a história de um ditador deposto numa parábola política que fala para o nosso tempo.

Caminhamos pelas ruas de uma cidade de um qualquer país imaginário e ouvimos um locutor de rádio num discurso light com mais elogios ao grande líder por frase que formigas num formigueiro, pelo que fica claro que não estamos num estado que faça eleições com regularidade… E vemo-lo, logo depois, numa varanda do palácio presidencial, neto ao colo, dando lições de poder, demonstrando-o como a capacidade para, ao comando da voz, mandar apagar todas as luzes da cidade… E assim acontece. Mas quando não voltam a acender, com igual ordem dada ao telefone, a desobediência deixa claros primeiros sinais de uma revolta que logo rasga a placidez e obriga a família presidencial a fuga apressada para o aeroporto. Ao optar por ficar, o déspota, cujo neto teima em não abandonar o avô, acaba por ser literalmente ensopado pela maré revolucionaria que de repente assola o país. Só (apenas com o neto) e tentando permanecer tão anónimo quanto o possível, o “presidente” tenta escapar entre uma população que agora tem de encarar de perto, escutando histórias e vozes de revolta contra um regime implacável que não distribuiu riqueza, justiça nem oportunidades. E voltamos ao princípio. Não é nenhum país em concreto. Mas podiam ser vários…

Convém aqui, antes de mais, lembrar que quem assina O Presidente é um veterano iraniano, preso nos tempos do Xá Reza Pahlevi, mas a viver exilado em França desde os tempos da primeira eleição de Ahmadinejad para a presidência. E que, com títulos como o belíssimo Gabbeh (1996) ou Kandaar (2001) na sua filmografia, tem aqui um dos seus momentos de mais evidente vontade em dar voz a uma consciência crítica sobre o poder, reconhecendo ele mesmo que uma série de reflexões sobre a Primavera Árabe, das suas causas às consequências, habita o tutano de uma história de ficção na qual podemos reconhecer ecos da realidade. Em entrevista ao Guardian ele mesmo chegou a sublinhar que podemos reconhecer no protagonista do filme ecos de um Saddam Hussein, um Muamar Kadafi ou mesmo o atual líder iraniano Ali Khamenei, vincando nas suas palavras que este país fictício pode ser uma Síria, o Iraque, a Líbia, um território algures na Ásia ou mesmo Cuba.

Em O Presidente quase não temos noção da política, hierarquias ou factos desse regime. É na figura do ditador deposto, ora escondido num casebre rural, ora feito mendigo que toca música pelas ruas, deambulando entre tantos que erram num país naquele momento já sem rei e ainda sem roque, que Moshen Makhmalfaf faz um retrato da tirania através do vazio e medo que ficam quando o aparato cai e o medo que subjugava dá lugar à revolta. A extrema vulnerabilidade daquele que outrora tinha todo o poder e, ao invés da sequência de abertura, a incapacidade de dar agora uma ordem, despem o déspota à nudez do cidadão comum. Tudo isto num quadro visual contido, de cores nunca exuberantes nem formas estridentes, quase como que desertificando o que fica quando tudo cai. Uma parábola política que não fica afinal muito longe de algumas realidades do nosso tempo…

“O Presidente”, de Moshen Makhmalbaf, chega amanhã às salas de cinema portuguesas em distribuição pela Lanterna de Pedra

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