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Lições de veterania (sem nostalgia a reboque)

Texto: NUNO GALOPIM

Cinco anos depois de “All You Need Is Now” os Duran Duran reforçam no novo (e magnífico) “Paper Gods” que alcançaram um patamar de segura veterania, demonstrando aqui um fluente diálogo entre heranças e o presente.

Que disco se faz aos 37 anos de carreira? Olha-se para trás? Assimila-se o presente? Ou aponta-se a mira em frente? Estas questões certamente estiveram na ordem do dia depois do alcançado um sólido ressurgimento criativo em All You Need Is Now (2010), disco que representou o mais inspirado álbum do grupo desde os tempos de Rio, nascendo de resto de uma vontade em procurar caminhos de herança possível desse álbum de 1982, como que a criar o seu sucessor que, por diversas razões, o álbum seguinte – Seven and The Ragged Tiger, de 1983- não procurou ser. Repetir receita nunca fora opção para os Duran Duran que, desde que lançaram o seu álbum de estreia em 1981 (as contas dos 37 anos, para quem não conhece a história da banda, fazem-se face à sua génese, em 1978), nunca usaram a regra “em equipa que ganha não se mexe”. Antes pelo contrário, optaram sempre por experimentar novos caminhos e desafios a cada novo disco, umas vezes com bons resultados, outras nem por isso. E ao longo da sua carreira tanto conheceram episódios de sucesso global – que corresponde aos álbuns Duran Duran (1981), Rio (1982) e Seven and The Ragged Tiger (1983), com ainda considerável impacte em Notorious (1986), retomando o contacto com o mainstream no Wedding Album (1993) ou Astronaut (2004), este último na verdade mais mediático que criativamente consequente – como instantes de tropeção – como em Liberty (1990) ou Pop Trash (2000), este um álbum desigual com momentos iluminados refletindo um momento de algum desnorte. Pelo caminho criaram peças magníficas que ficaram aquém do reconhecimento que mereciam como em Big Thing (1988), Medazzaland (1997) ou Red Carpet Massacre (2007), vários contextos exteriores ao grupo explicando o sucedido nas falhas de divulgação de cada um deles. E há ainda nesta história um episódio agradável, mas quase inconsequente, em Thank You (1995), um Pin Ups de respeito e agradecimento aos que os inspiraram, mas que fez o passo errado depois do reatar da ligação com um público mais alargado em 1993. Com a companhia de Mark Ronson, All You Need Is Now conseguiu juntar várias das melhores heranças dos Duran Duran. Recuperou a sonoridade de uma etapa célebre, e com ela um saber clássico na escrita de canções. Vincou uma ligação a um gosto mais alternativo e menos em sintonia com as tendências do momento (atitude que representou a grande diferença da obra da banda nos anos 90 face aos 80). E, com uma digressão capaz de dosear as novas canções com memórias capazes de lembrar o estatuto de referência do grupo, alicerçou a mais bem sucedida das histórias de estrada de toda a carreira do grupo (e com momento maior registado no filme Duran Duran Unstaged, de David Lynch). E depois?…

Paper Gods traz agora a resposta. E convenhamos que não podia ter sido mais certeira, encontrando um lugar onde o passado e o presente dialogam, deixando para outros o inventar de eventuais cenários de futuro. Aos 37 anos de carreira Bowie apresentava hours… um álbum onde começava a olhar para o seu próprio passado em vez de procurar desbravar novos terrenos como o havia recentemente feito em 1.Outside ou Earthling. Aos 37 anos de carreira Dylan tinha já feito de Time Out Of Mind o manifesto de solidez veterana que lançou uma etapa (ainda em curso) de inspirada, mas tranquila, vivência entre referências suas. Em Paper Gods, aos 37 anos de carreira, os Duran Duran entram em sintonia com esta forma de lidar com o seu próprio legado. Mas chamam a bordo novos colaboradores que com eles garantem que este não será um disco voltado para o passado, mas sim algo do presente assinado por alguém que pode usar já o termo “clássico” para descrever parte da sua obra.

Há por isso reencontros e novidades que, de tão bem dialogantes, criam aqui, mais ainda do que em Red Carpet Massacre (com Timbaland na produção e Timberlake entre os colaboradores) um disco menos pensado para seguir uma tendência do momento, mas antes mais focado na ideia de busca de uma expressão contemporânea da identidade do grupo.

Paper Gods, o tema-título, recupera uma ideia de canção de estrutura mais invulgar, longa e dividida em partes, como o tinham sido já temas como New Religion ou The Valley. Mas sob as sugestões de Mr. Hudson (talvez o produtor com presença mais marcante em todo o álbum) a canção arrisca passos novos, essa familiaridade que vem de trás criando ao mesmo tempo uma sensação de conforto e segurança mesmo em terreno de aventura. Há sinais vintage ainda, por exemplo, no luxuriante trabalho de teclas em Face For Today (numa linha herdeira da sofisticação de um I Take The Dice ou Shadows on Your Side, sublinhando ali heranças dos dias de Seven and The Ragged Tiger). E em Pressure Off, o melhor single do grupo desde os dias de Notorious e Skin Trade, juntam Mark Ronson, Nile Rodgers (velho colaborador) e Janelle Monáe numa canção que expressa evidentes ligações ao gosto de fusão pop com R&B que o grupo viveu ora em Union of The Snake ora no álbum de 1986, agora sob a nitidez da produção eficaz do mesmo esteta que ainda este ano nos deu a ouvir o irrepreensível Uptown Funk.

As marcas de etapas anteriores cruzam o álbum, em viagens nem sempre necessariamente apontadas a épocas específicas, antes sublinhando as características centrais da identidade da música dos Duran Duran: e elegância nos sintetizadores de Nick Rhodes, os refrões “orelhudos” e irresistíveis, a voz (goste-se ou não, é assinatura com região demarcada) de Simon Le Bon e uma relação com o apelo à dança (e aqui entram em cena John e Roger Taylor), sublinhando aquela que é na verdade a mais recorrente das marcas de identidade da pop do grupo desde os dias de Planet Earth, com pausa apenas na etapa acústica de 1993/94. De resto podemos aqui lembrar que, na hora de os apresentar aos EUA em 1982, além dos telediscos icónicos que chamaram atenções na MTV, os Duran Duran foram encarados pela Capitol (a editora americana) como uma banda de música de dança, tendo o álbum Rio chegado mesmo a ver os temas do lado A a serem remisturados para corresponder a essa aposta local.

Há um apelo à dança a cruzar o álbum, assim como uma procura de diálogo entre as marcas de identidade clássicas e novas sonoridades sendo este, face ao anterior All You Need Is Now, um álbum claramente mais electrónico. Danceophobia (com presença da voz de Lindsay Lohan) explora essa demanda sem necessariamente correr em busca dos sabores do momento. Já Butterfly Girl e Last Night In The City (com Kieza) retomam o gosto por diálogos entre a pop e heranças R&B que vem dos tempos de Seven and The Ragged Tiger ou Notorious, recuperado já por várias vezes desde o reencontro da formação original após a viragem do século em canções como Nice ou Skin Divers (a primeira foi single, a segunda devia ter sido). Já em Change The Skyline, uma das melhores canções do disco, juntam este clima festivo a um instante de grande luminosidade pop como no passado o fizeram em Girls on Film, Rio ou The Reflex, contando desta vez com interessante contraponto vocal na presença de Jonas Bjerre (dos Mew). Num outro plano, a herança do legado baladeiro e mid-tempo de um Save a Prayer, The Chauffeur ou The Seventh Stranger emerge em novos momentos mais desligados da intensidade dos ritmos em canções bem talhadas como What are The Chances, Only In Dreams ou o quase sinfónico The Universe Alone, aqui a deixar claro que as heranças dos Arcadia, mais do que as dos Power Station, continuam a ter consequência na obra dos Duran Duran.

É verdade que nunca antes tínhamos visto tantos colaboradores, sobretudo vocais, num mesmo disco. Mas depois de Milton Nascimento (sim, há um dueto em português na obra dos Duran Duran em Breath After Breath), Justin Timberlake ou Anna Mantronic (dos Scissor Sisters), cada qual tendo colaborado num álbum diferente, Paper Gods alarga a uma série de novos parceiros o espaço de criação e interpretação garantindo, sobre firmes alicerces na identidade do grupo, o seu disco mais aberto ao diálogo com o presente desde os dias em que eram eles quem o estava a ajudar a inventar.

Este é um disco menos imediato do que o anterior (o que é natural tendo o álbum de 2010 nascido de um reencontro com sonoridades de 1982). Mas acaba por ser um novo passo tão sólido quanto esse o fora há cinco anos, dando conta do atingir daquele seguro patamar de veterania, não rendido à nostalgia, mas também sem vontade de se mascarar ao sabor das tendências da moda, o que garante a uma obra com décadas de vida uma renovada e segura ligação ao presente. Não esperem aqui a revolução. Mas antes uma mão cheia de belas canções. E o alinhamento dos Duran Duran mais capaz de ligar o passado ao presente desde que deixaram de ser a novidade.

Duran Duran
“Paper Gods”
Warner Music
5 / 5

1 Comment on Lições de veterania (sem nostalgia a reboque)

  1. Desconhecida's avatar Roberto Torloni // Novembro 6, 2015 às 7:55 pm // Responder

    Finalmente , comentários de quem conhece o Duran Duran. Eles são Notorious ! Há sons que deveriam ter sido singles, como Vertigo ( do the demolition) e a sensacional Box full o´honey de 2007. O novo disco é sensacional. Pena , que no Brasil, para muitos são a grande banda dos anos 80 e 90( ordinary world e come undone). Paper God´s já esta entre os 10 melhores álbuns dos EUA e Ingleterra.

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