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80 velas para Arvo Pärt

Texto: NUNO GALOPIM

Faz hoje 80 anos um dos compositores europeus mais aclamados do nosso tempo, com obra que teve um importante papel no derrubar de barreiras de género entre melómanos na reta final do século XX.

Os caminhos que a música tem tomado nas últimas décadas tem estreitado os fossos que outrora pareciam separar os universos das várias músicas. E entre as figuras que cedo começaram a habitar tanto entre as discografias mais dominadas pelos gostos pela música clássica, como junto das mais atentas às electrónicas (ambientais ou nem por isso), até mesmo alguma pop ou jazz, está a de Arvo Pärt. Através de uma primeira sucessão de álbuns lançados na ECM nos anos 80, como Tabula Rasa (1984), Arbos (1987) ou Passio (1988), as suas visões muito peculiares sobre o minimalismo e expressões de uma música sagrada tão herdeira de figuras remotas quanto capaz de sugerir espaços de diferente placidez e devoção em terreno atual cativaram atenções e inscreveram o seu nome naquele raro patamar de reconhecimento a que chegam os músicos do seu tempo que cativam a atenção dos seus contemporâneos.

Muitas vezes citado como um dos principais compositores minimalistas europeus, Arvo Pärt é na verdade autor de uma obra que, apesar de algumas afinidades filosóficas com contemporâneos americanos, se revela formalmente distinta. Há até quem o apresente como o fundador daquilo que foi já designado como minimalismo sagrado, partilhando aí um espaço de trabalho com outras figuras como o polaco Henryk Gorecki ou o britânico John Tavener, ambos já desaparecidos. A sua obra é todavia um espaço de horizontes bem mais vastos, e há um antes e um depois destes relacionamentos (claramente marcantes) com o minimalismo que fazem com que a sua música seja difícil de arrumar numa só gaveta de acontecimentos.

Respectivamente de 1976 e 78, as peças Für Alina e Spiegel Im Spiegel representaram de facto momentos decisivos na definição de uma linguagem, da qual decorre muita da obra posterior do compositor. Für Alina é uma peça para piano solo, que ocupa apenas duas páginas numa partitura mas que desafia cada intérprete à reflexão, não estabelecendo nunca o limite de tempo para a sua performance. Já Spiegel Im Spiegel é um diálogo, originalmente criado para piano e violino (que ocasionalmente cede o lugar a uma viola ou violoncelo). Como o título sugere, é um espelho num espelho, cada instrumento refletindo-se no outro, em ciclos sucessivos, com gradual adição de notas, mas tempo limite definido. Com aprovação do próprio compositor, o álbum Alina (ECM, 1999) apresenta gravações das duas peças. Em concreto, duas de Spiegel Im Spiegel para violino e piano e uma para violoncelo e piano, entre as quais se escutam duas sequências selecionadas pelo compositor de uma longa interpretação de Für Alina, por Alexander Malter. Um retrato da etapa mais claramente sob influência minimalista na obra de Pärt deve incluir uma menção a Fratres – disponível em várias versões, para vários acoplamentos de instrumentos. Essa multiplicidade de leituras ficou logo clara quando, naquele que foi o seu primeiro disco para a ECM (abrindo um relacionamento com a etiqueta de Manfred Eicher que ainda hoje se mantém, Fratres surgiu em duas versões, uma para piano e violino, em interpretações de Keith Jarrett e Gidon Kremer, e uma outra para 12 violoncelistas, chamando aí elementos da Orquestra Filarmónica de Berlim.

Imagens de uma interpretação de Fratres com Mari Samuelsen (violino)
e solistas da Orquestra de Trondheim

Natural de Paide (na Estónia, depois de 1940 parte da URSS), onde nasceu a 11 de setembro de 1935, Arvo Pärt cresceu sob poder soviético. As suas primeiras obras, claramente distintas das que dele hoje são apresentada, refletiam um interesse por compositores como Shostakovich, Prokofiev, Bartók e Shoenberg… Alguns dos trabalhos foram alvo de censura. Esta barreira, que se somou a um descontentamento sobre os caminhos que seguia, levaram-no a um radical repensar de ideias musicais.

Em 1980 deixou a URSS, mudando-se primeiro para a Áustria, mais tarde para Berlim, na Alemanha. Fez longo período de silêncio meditativo, durante o qual estudou o cantochão e as primeiras formas de polifonia. Da reflexão nasceram então novas ideias, entre as quais o estilo habitualmente descrito como “tintinnabuli” ou seja, que traduz sons que sugerem discretos sinos. A sua música passou então a revelar harmonias simples, claramente inspiradas pela memória da música medieval, com o tempo acabando por abordar diretamente o canto, no contexto de uma nova música religiosa (que na verdade revelaria até um volume de escrita substancialmente mais vasto do que aquele que cativara primeiras atenções de melómanos mais ligados ao minimalismo). Num texto incluído no booklet de Alina, lê-se: “Compararia a minha música à luz branca, que contém todas as cores. Apenas um prisma pode dividir as cores e fazer com que apareçam; esse prisma pode ser o espírito do ouvinte”. Melhor descrição seria impossível…

Imagens do making of de The Lost Paradise, de Arvo Pärt, com Robert Wilson, num novo filme de Günter Atteln

A música de Arvo Pärt foi há muito descoberta por outras artes, nomeadamente o cinema, tendo surgido em filmes como, entre outros, A Barreira Invisível de Terrence Malick; Les Amants du Pont-Neuf, de Léos Carax; Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson, O Bom Pastor, de Robert de Niro ou mais recentemente até em As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes. Todavia, aquela que é até agora a mais interessante utilização de música sua num filme, porque capaz de traduzir pela imagem e sugestão narrativa os percursos internos da composição, deve-se a Gus Van Sant, em Gerry. Spiegel Im Spiegel e Für Alina são as composições que ocasionalmente rompem o silêncio e os ruídos do deserto, acompanhando as notas a caminhada sem Norte que acompanhamos com Matt Damon e Casey Affleck.

Num momento em que sopra 80 velas Arvo Pärt é uma figura ativa. E o ano não tem feito silêncio ao seu redor (antes pelo contrário). Há programas centrados na sua obra em várias salas de renome de grandes capitais musicais. E uma multidão de novas edições em disco, desde a antologia Musica Selecta da ECM a gravações do Te Deum pelo Coro da Orquestra da Rádio de Munique a Magnificent Magnificat pelo coro de câmara Aquarius, entre vários outros projetos envolvendo nomes como os de Kristjan Järvi ou os Tallis Scholars. Discos aos quais dedicaremos alguma atenção brevemente. Parte do seu trabalho no presente está também focado no Arvo Pärt Center, criado na Estónia com o objetivo de preservar o legado do compositor.

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