Intimidade épica
Texto: DANIEL BARRADAS
Oslo, 12 de Setembro 2015
Sufjan Stevens no Oslo Spektrum
Só tomei a decisão de assistir a este concerto dois dias antes de ele acontecer. Parecia-me impossível que canções tão pessoais como as que Sufjan Stevens fez para o recente álbum Carrie & Lowell pudessem resultar no espaço do enorme pavilhão do Oslo Spektrum entre milhares de pessoas. Mas resolvi arriscar e, por a lotação estar quase esgotada, acabei com por ficar bem lá para trás, com a cabeça quase a bater no tecto, e um par de filas vazias atrás de mim.
O concerto começou com uma primeira parte pela cantora Mina Tindle que comentou: “Nunca tinha visto tanta gente a fazer tanto silêncio. É impressionante!”. E era verdade. Os milhares de pessoas que enchiam o gigantesco pavilhão comportavam-se como se estivessem na missa. O cliché aplicava-se, dava para ouvir alfinetes a cair no chão.
Depois da simpática mas pouco empolgante primeira parte seguiu-se uma pausa de meia-hora em que alguém pôs a tocar música talvez mais apropriada para um spa, daquela que vai bem com um cházinho e um pauzinho de incenso. Só não adormeceu a plateia porque estava toda a gente expectante pelo concerto. Sentia-se fisicamente no ambiente. Tensão de cortar à faca… mas da boa.
A banda de Sufjan entrou em palco suavemente e a música começou a brotar. O som era sem dúvida o melhor que alguma vez ouvi. Nem muito alto, nem muito baixo e tão cristalino que quando Sufjan cantava era como se estivesse mesmo em frente a mim e não a várias centenas de metros mais abaixo. Mais espantoso ainda por ser feito num pavilhão gigantesco. Tiro o chapéu ao técnico de som, herói da noite.
O espectáculo foi preenchido com a totalidade do album Carrie & Lowell. Para quem não sabe, é um disco em que Sufjan fala da sua mãe e do seu padrasto. Uma relação traumática e atribulada, já que a mãe (falecida em 2012) era esquizofrénica e bipolar e o padrasto acabaria por se tornar um pilar na vida de Sufjan (Lowell é quem hoje gere a editora de Sufjan, Asthmatic Kitty).
São canções duras mas belas, frágeis mas afirmativas e o concerto levou-nos por todas essas ruas e becos de uma cidade construída na dor e no remorso, mas também na alegria e aceitação. De momentos do mais absoluto intimismo, com Sufjan sozinho ao piano ou à guitarra com a sua voz em falseto a quebrar-se ocasionalmente, até à banda completa a entrar em psicadelismos delirantes, a construir uma pressão vulcânica que se elevou a limites perto do insuportável até uma invitável explosão sonora. Quando Fourth of July (uma canção sobre o momento da morte da mãe de Sufjan) termina com a obsessiva repetição do verso “We’re all gonna die” sublinhado por um jogo de luzes roxas em incessante rotação espiral, a catarse era geral.
Por muito bom que o disco seja, não chega aos calcanhares deste concerto. Foi um artista a expor a sua alma em público, mas foi acima de tudo um momento de comunhão. Se há uma essência da experiência religiosa, é esta: aqui estamos todos, vamos todos morrer, somos todos iguais e tudo é perdoado/não há nada a perdoar.
Quando Sufjan volta ao palco sob estrondoso aplauso para um longo encore, brinda-nos com um leque de antigos êxitos como John Wayne Gacy, Jr. que, à luz de Carrie & Lowell nos parece subitamente muito mais revelador do que era inicialmente. E quando termina o espectáculo com Chicago é para que a última coisa que nos diz seja “I made a lot of mistakes”. E soa a benção sobre o público.

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