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Sons de um (grande) concerto que não passou perto de nós…

Texto: NUNO GALOPIM

Dois anos depois de apresentado o arrepiantemente belo “Carrie & Lowell” eis que chega uma gravação ao vivo da digressão que acompanhou esse álbum de Sufjan Stevens que marcou a história de 2015.

Em setembro de 2015 o meu amigo Daniel Barradas confessava aqui que “por muito bom que o disco seja, Carrie & Lowell não chega aos calcanhares do concerto que Sufjan Stevens levou a Oslo”, acrescentando que “foi um artista a expor a sua alma em público, mas foi acima de tudo um momento de comunhão”. Imaginando o que estava ali a contar no texto de crítica ao concerto, fiquei com aquela velha sensação de quem, apesar das rotas mais frequentes de músicos por estas terras, as grandes digressões que apresentam espetáculos concebido para uma sala de concertos e não para palcos de festival – como acontece com Tori Amos ou Björk – ainda passam mãos vezes ao largo do que por nossas terras. E esta digressão, que nos apresentava o magnífico Carrie & Lowell, foi das que infelizmente falharam solo português.

A poucas semanas da edição do álbum do projeto Planetarium, que junta a Sufjan Stevens as figuras de Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister, eis que ao menos temos agora a hipótese de encontrar em disco um registo áudio desta digressão, num álbum que apresenta, de fio a pavio, as canções de Carrie & Lowell, embora com um alinhamento que não segue o do álbum, acrescentando ainda incursões por The Age of Adz (como em Vesuvius ou Futile Devices), a dimensão mais experimentar de uma variação sobre Blue Bucket of Gold e, no encore, uma versão de Hotline Bling, de Drake. É verdade que falta a dimensão cénica ao disco (e um Blu-ray seria belo complemento a considerar), mas a gravação é simplesmente maravilhosa, mantendo a fragilidade encantadora das canções, embora agora expostas num palco partilhado com temas do mais intenso disco anterior e com uma plateia pela frente. E o tal sentido de comunhão conhece assim um final feliz.

“Carrie & Lowell Live” está disponível em CD e nas plataformas digitais num lançamento da Asthmatic Kitty Records

Já agora, querendo recordar (ou descobrir) o álbum que está na base deste disco ao vivo, aqui fica o texto que em 2015 aqui apresentei na Máquina de Escrever:

Há na história da música evocações e confissões na primeira pessoa sobre mães, cantadas das mais diversas maneiras, até mesmo quando por vezes as memórias são de dor e, sobretudo ausência, como em 1970 escutámos no arrepiante Mother, de John Lennon. Apesar de muitas vezes distante do seu quotidiano, Carrie é evocada num álbum suave, direto, confessional e por vezes assombrado, através do qual o filho agora enfrenta a sua perda. Ele chama-se Sufjan Stevens, é um dos mais inspirados (e inspiradores) entre os músicos da sua geração e, cinco anos após o anterior álbum em nome próprio e muitos anos mais depois de experiências de amplitude cénica (e instrumental) mais elaborada e complexa, apresenta neste seu novo disco uma simples e bela coleção de canções frágeis, de travo folk, sobre a sua mãe e a tomada de consciência da noção de perda.

O pontual regresso ao Oregon, onde viveu parte da infância – e houve já quem tivesse inteligentemente apontado que este álbum poderia até corresponder ao seu terceiro disco na série dedicada aos estados dos EUA, após Michigan e o colossal Illinois, notando um texto no Observer que uma das canções tem por título Eugene, afinal o nome da segunda maior cidade do estado onde a sua mãe vivia – e o tom profundamente pessoal e elegíaco que Sufjan Stevens convocou para criar as canções de Carrie & Lowell afastaram-no dos caminhos de maior ousadia formal e experimentação instrumental que havia comandado os trabalhos nos imediatamente anteriores Illinois (2005) e The Age of Adz (2010), ou até mesmo os caminhos sinfonistas que tinha percorrido ao idealizar a banda sonora de BQE – a banda sonora para um filme seu sobre uma auto-estrada que cruza alguns dos espaços da cidade de Nova Iorque – e afasta-se naturalmente das tonalidades quentes e festivas das suas (muitas) criações pensadas para assinalar o Natal. De resto, o parente instrumentalmente mais próximo deste novo disco poderá ser – mas com diferenças a ter em conta – o belo Seven Swans, disco de 2004, sobre temáticas da espiritualidade.

Com uma guitarra acústica ou um banjo, sussurrando naquele tom cândido e doce com o qual nos costuma cantar, ocasionalmente socorrendo-se de outras fontes instrumentais (chama várias vezes electrónicas para compor cenografias, salvo em Fourth of July onde chegam a ser elemento mais determinante na instrumentação, num tema que se aproxima das faixas mais à la Sufjan Stevens do álbum que lançou integrado no projeto S / S / S ), o músico, que chega em 2015 aos 40 anos, olha para si, para o seu passado, evoca memórias, que foca lembrando uma mãe alcoólica, depressiva e instável (e ficamos por aqui, já que não vamos mergulhar num quadro clínico baseado no diz que diz). E não esquece a figura de um padrasto com quem teceu com o tempo um relacionamento próximo, inclusivamente a nível profissional.

O disco é de uma ternura arrebatadora, mesmo quando há episódios difíceis e memórias pesadas a lembrar. E traduz sinais de um amor incondicional, que ilumina assim canções que, motivadas pela morte, respiram antes uma dedicação que inspira a vida. É um dos mais belos discos que ouvi nos últimos tempos e confirma como há valores na escrita que são afinal tão capazes de criar o belo mesmo sem o recurso ao exercício do desafio, a ousadia da busca do novo ou o aparato das formas. A força das palavras certas quando encontram a música certa e a voz que as sabe verbalizar, resulta em momentos como este.

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1 Comment on Sons de um (grande) concerto que não passou perto de nós…

  1. Olá, Nuno.

    Carrie & Lowell parece fantástico!
    Preciso conhecer.
    Obrigado pela indicação.

    Com sua licença, compartilho minha obra “30 Microcontos”, grátis na Amazon até 12/05.

    https://lucaspalhao.wordpress.com/2017/05/08/30-microcontos-minha-obra-gratis-na-amazon-ate-120517/

    Um abraço,
    Lucas Palhão

    Gostar

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