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Porque a memória não pode esquecer

Texto: NUNO GALOPIM

Nos 70 anos da libertação dos campos de concentração do regime nazi novos títulos sistematizam o conhecimento e abrem novos pontos de vista. Esta é uma história ainda em construção.

Não é preciso um motivo para publicar sobre qualquer tema que seja. Mas a nossa relação com as datas e o passar do tempo ajuda a arrumar calendários. E se 2014 foi um ano repleto de lançamentos evocativos dos cenários em volta da I Guerra Mundial, nas mais variadas frentes, 2015 seria desde logo esperado escaparate para novas incursões sobre os tempos da II Guerra Mundial, ou não se assinalassem os 70 anos sobre o armistício (tanto na Europa como no Pacífico) e outras memórias (e suas sequelas), da Batalha de Berlim à libertação dos campos de concentração nazis e a constatação do que ali tinha acontecido. Foquemo-nos hoje neste último espaço onde, como há uns meses me dizia a realizadora Vanessa Lapa (autora de O Homem Decente, documentário sobre Himmler agora editado em DVD entre nós), ainda há muito por contar. E se nos campos da ficção Martin Amis juntou a este mesmo capítulo mais um título de referência a um espaço temático decididamente importante entre literatura contemporânea, na verdade o grosso da edição livreira focada na história dos campos de concentração chegou nos espaços da não ficção.

Sem esgotar de vez o assunto (e há muita investigação ainda em curso e por fazer), mas arrumando como nunca o que 70 anos de investigações deram já a conhecer, KL: A História dos Campos de Concentração Nazis, de Nikolaus Wachsmann, é não só um retrato amplo e cuidado sobre o sistema de campos de concentração, como um título fundamental na construção de um discurso histórico sobre o regime nazi. O autor é professor de História Europeia no Birkbeck College (Londres) e tem uma bibliografia na qual surgem já alguns importantes ensaios sobre esta etapa na história do século XX, como Hitler’s Prisions ou Camps in Nazi Germany: The New Histories.

Este seu novo livro, com mais de 850 páginas, propõe uma ordenação temática e cronologicamente organizada sobre um sistema que o regime de Hitler colocou em marcha logo após a sua chegada ao poder em 1933 (um dos primeiros grandes campos de concentração, o de Dachau, surge em Munique logo por essa altura) e que só desaparece perante o avanço aliado entre o inverno e a primavera de 1945, revelando então relatos e imagens que o mundo não imaginava possíveis. Na introdução, em que explica o livro e o método usado no seu trabalho de sistematização da informação, o autor conta que os primeiros campos de concentração surgiram no final do século XIX durante as guerras coloniais, tiveram expressão mais clara durante a I Guerra Mundial e recorda os gulags que os soviéticos criaram, inspirados precisamente nas detenções em massa da primeira Grande Guerra. O autor nota contudo que há diferenças grandes entre estas experiências anteriores e o sistema de campos de concentração que emergiu na Alemanha de Hitler. Segundo Nikolaus Wachsmann estes “encarnaram o espírito do nazismo como nenhuma outra instituição do Terceiro Reich”, explicando que “construíram um sistema de domínio distinto, com a sua própria organização, regras e pessoal”. Foram, por isso, lugares que “acabaram por refletir as obsessões da liderança nazi, tais como a criação de uma comunidade nacional uniforme através da eliminação de todos os estranhos políticos, sociais e raciais”.

Nas contas que aqui apresenta, o autor estima que, entre 1933 e 1945, 2,3 milhões de pessoas terão passado pelos campos de concentração SS e que 1,7 milhões ali perderam a vida. Note-se que este trabalho foca especificamente o sistema de campos de concentração e não os de extermínio (como Treblinka, onde morreu grande parte da população do gueto de Varsóvia). Auschwitz era um caso diferente, juntando uma vasta população detida que votava a campos de trabalho que faziam parte do seu amplo sistema interno, ao mesmo tempo que tinha em Birkenau uma das mais ativas estruturas de extermínio.

Com mapas e algumas fotografias de arquivo, o livro começa por recordar o estabelecimento dos primeiros campos, depois apresenta o universo dos SS que definiam a estruturas de comando e vigilância e das hierarquias definidas entre detidos, observando depois as matanças em massa (dos prisioneiros soviéticos à “solução final”), a contribuição deste sistema para a economia e esforço de guerra e as histórias da libertação.

Além de KL, outros títulos chegaram às livrarias nas últimas semanas, acrescentando outros pontos de vista a este mesmo tema. De Timothy W. Ryback (o mesmo autor de A Biblioteca Privada de Hitler) chega-nos As Primeiras Vítimas de Hitler. Recuamos aqui ao começo de tudo. Estamos em abril de 1933, o regime tomou o poder há apenas seis semanas e em Dachau quatro prisioneiros foram alvejados a tiro. Os quatro primeiros mortos num campo de concentração entram na vida do procurador adjunto Josef Hartinger, que ali é chamado às nove da manhã de 13 de abril de 1933 do campo recentemente inaugurado para dar conta do sucedido. Ouviu dos guardas SS a notícia de que teriam morrido numa tentativa de fuga. Porém, ao ver os corpos num paiol, notando ferimentos de balas à curta distância nesses quatro prisioneiros, todos eles judeus, sentiu que algo não seria como estava a ser contado. O livro parte então deste momento para recordar não só que campo era aquele, quem ali estava (no poder e subjugado) e quem tinham sido as vítimas, mas também a luta pela justiça daquele procurador adjunto que terá provavelmente sido o primeiro a testemunhar os primeiros atos do Holocausto.

Um olhar sobre um campo em específico, o de Ravensbrück, exclusivamente criado para mulheres, é abordado em Se isto É Uma Mulher, livro da jornalista Sarah Helm (que em tempos trabalhou no Sunday Times e no Independent). Esta é a história de um campo que, de carro, fica a uma hora de Berlim, pelo que era frequentemente visitado por Himmler, que não deixava o lugar sem dar uma ordem, uma vez pedindo “que fossem incluídos mais tubérculos na sopa das prisioneiras”, numa outra comentando que “o extermínio não estava a avançar com suficiente rapidez”, como lemos no prólogo. Entrou em funcionamento em 1939, começando por ter uma população de cerca de duas mil mulheres. Eram comunistas ou testemunhas de Jeová “que chamavam anticristo a Hitler”. E havia ali também outras que “os nazis consideravam seres inferiores e queriam removê-las da sociedade: prostitutas, criminosas, mulheres sem-abrigo e ciganas”. Mais tarde para ali foram encaminhadas mulheres capturadas em países ocupados, muitas resistentes, algumas judias, estas representando dez por cento da população do campo que chegou a ter 45 mil detidas no seu auge. Extenso e muito documentado (inclusivamente nas imagens), o livro recorda não só a história do campo mas também evoca relatos pessoais, das detidas e também das carcereiras, acompanhando ainda os julgamentos no pós-guerra em cujas sessões se registaram muitos testemunhos deste que foi um dos últimos campos a serem libertados pelos aliados, em abril de 1945.

De Thomas Harding, realizador e jornalista (colaborador do Guardian e do Financial Times), foi publicado Hanns & Rudolf, que no subtítulo deixa claro que aqui se lê “a história verídica do judeu alemão que capturou o Kommandant de Auschwitz”. Aqui estamos já em maio de 1945, no rescaldo do que aconteceu e já com uma equipa britânica em processo de investigação sobre os crimes de guerra, colocando em marcha um plano de identificação e caça aos responsáveis. Hans Alexander, um judeu alemão que serve no exército britânico, terá ali um papel fundamental na busca e detenção de Rudolf Höss, o oficial que durante mais tempo chefiou as operações em Auschwitz, nomeadamente de maio de 1940 a dezembro de 1943 e de maio de 1944 a janeiro de 1945. Julgado, seria condenado à morte e enforcado num cadafalso ao lado da moradia na qual viveu com a família junto ao arame farpado de Auschwitz 1 e a uns metros de distância do crematório e da câmara de gás do campo. O livro não se esgota todavia na caça ao homem, e narra a vida do seu captor, recordando outros episódios, inclusivamente anteriores à eclosão da guerra.

De relatos feitos posteriormente a 1945, mas evocando os tempos que viveram num campo de concentração, de Primo Levi e Leonardo de Benedetti chega Assim Foi Auschwitz, uma coleção de textos inéditos que juntam assim vozes que narram na primeira pessoa o que foi viver, por dentro, este tempo. Com curadoria de Fabio Levi e Domenico Scarpa, o livro junta depoimentos feitos em processos (como os de Höss ou de Eichmann, entre outros), juntamente com rascunhos de textos ou notas pessoais redigidas e desde então arquivadas. Aqui se juntam relatos, respostas a questões, listas e descrições. A força da memória contada na primeira pessoa faz com que estes fragmentos, agora unidos, constituam mais uma importante contribuição para o conhecimento de uma das mais importantes vozes que testemunharam a vida nos campos de concentração.

Houve mais edições este ano, outras virão ainda a caminho. Voltando a citar a realizadora do filme sobre Himmler: muito está ainda certamente por contar. Mas deste conjunto de lançamentos surge um bom conjunto de retratos sobre o que ali aconteceu.

“KL”, de Nikolaus Wachsmann
D. Quixote, 853 páginas

“As Primeiras Vítimas de Hitler”, de Timothy W. Ryback
Jacarandá, 273 páginas

“Se isto É Uma Mulher”, de Sarah Helm
Presença, 735 páginas

“Hanns e Rudolf”, de Thomas Harding
Bertrand, 343 páginas

“Assim Foi Auschwitz”, de Primo Levi e Leonardo de Benedetti
Objetiva, 291 páginas

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